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Análise: A guerra do Irã e a trégua que ninguém assinou

Há uma cena que resume o estado da guerra do Irã melhor do que qualquer comunicado oficial. Na quinta-feira (28), negociadores americanos e iranianos fecharam um MoU (memorando de entendimento) para estender por 60 dias o cessar-fogo e reabrir as conversas sobre o programa nuclear.

No mesmo dia, os Estados Unidos bombardearam drones e um sítio de lançamento iraniano perto do Estreito de Ormuz, o Irã disparou contra uma base americana no Kuwait, e o Kuwait interceptou um míssil. O acordo nasceu sendo violado.

E, detalhe que não é pequeno, Donald Trump ainda não o assinou. Pediu “alguns dias para pensar”. Teerã, por sua vez, avisou que qualquer narrativa ocidental sobre um acordo “finalizado” não vale nada enquanto não comunicar oficialmente o mediador paquistanês.

Esse é o retrato fiel de maio de 2026: não há guerra plena nem paz, há um interregno tenso que o mercado de petróleo já precificou como otimismo (o brent caiu abaixo de US$ 91 na sexta, acumulando queda de cerca de 15% no mês) e que os comandantes no terreno tratam como mera pausa para recarregar.

A guerra que começou em 28 de fevereiro não é a “Guerra dos Doze Dias” de junho de 2025. É outra coisa, de outra magnitude.

EUA e Israel lançaram a Operação Epic Fury (Roaring Lion, no codinome israelense) durante negociações nucleares ainda em curso, no mês do Ramadã, e a salva de abertura matou o próprio líder supremo, Ali Khamenei. O Irã respondeu com a Operação True Promise IV, que sua mídia estatal apelidou de “Guerra do Ramadã”.

Mojtaba Khamenei foi designado sucessor em 8 de março. Houve um cessar-fogo mediado pelo Paquistão em 8 de abril, que ruiu nas Conversas de Islamabad. Desde 13 de abril vige um “duplo bloqueio”: a Marinha americana bloqueia o Irã, e o Irã bloqueia o Golfo Pérsico. É esse impasse que o MoU de 60 dias tenta destravar.

O ponto que o noticiário daqui simplifica como “Irã fechou o estreito” é, na verdade, uma disputa de soberania com implicações de direito do mar.

Teerã não quer apenas reabrir Ormuz. Quer institucionalizar um controle que não tinha antes da guerra, propondo gestão conjunta com Omã, já que o canal navegável passa pelas águas territoriais dos dois países.

Pela Convenção do Mar, não se pode cobrar pedágio pela passagem por um estreito internacional, mas é possível cobrar por “serviços” prestados às embarcações – e é exatamente nessa brecha que o Irã trabalha.

A ideia tem mais idade do que parece. Da metade do século XV até 1857, a Dinamarca cobrou o chamado Sound Dues de todo navio que cruzasse o estreito de Øresund, na entrada do Báltico, uma taxa que o rei Erico da Pomerânia inventou e que só foi abolida pela Convenção de Copenhague, quando as potências marítimas pagaram à coroa dinamarquesa uma indenização à vista para se livrar dela de vez.

Teerã está reinventando o pedágio dinamarquês com vocabulário do século XXI. Chama de “taxa ambiental”, não de pedágio, e a diferença é puramente semântica. Os EUA rejeitam qualquer forma de controle iraniano.

O detalhe revelador, pouco comentado fora da região: o secretário do Tesouro, Scott Bessent, ameaçou sancionar Omã, aliado próximo de Washington, caso o sultanato facilite a cobrança. Quando você precisa ameaçar o próprio aliado para sustentar sua posição, o problema deixou de ser militar. Virou arquitetura de ordem regional.

O MoU prevê passagem “irrestrita” e a remoção das minas iranianas em até 30 dias, mas o próprio texto se contradiz: a CNN aponta divergências sobre se ele inclui a retirada de forças americanas e o fim do bloqueio aos portos iranianos. Teerã afirma que sim. Washington nega.

Enquanto isso, dezenas de milhares de marítimos seguem presos ao longo do canal, os prêmios de seguro de guerra continuam proibitivos, e o jamming de GPS persiste.

Convém lembrar a escala do choque.

No auge, em março, o bloqueio retirou cerca de 20% do comércio global de petróleo e forçou os produtores do Golfo a cortar perto de 10 milhões de barris/dia, com o brent batendo US$ 119,50 em 9 de março, o maior valor desde 2022. Os EUA chegaram ao ponto de suspender temporariamente restrições à compra de petróleo russo para aliviar preços, uma ironia que diz muito sobre a urgência.

A história que quase não circula no Brasil é a das monarquias do Golfo, que vinham normalizando relações com Teerã e foram alvejadas mesmo assim. Bahrein, Kuwait, Catar, Arábia Saudita, Emirados e Jordânia receberam mísseis e drones iranianos. O Catar tornou-se o primeiro país árabe a abater aeronaves iranianas (dois bombardeiros Su-24), e ainda assim Doha negou publicamente ter “aderido à campanha contra o Irã”, numa diplomacia de equilíbrio difícil de sustentar.

Houve fogo amigo de proporções constrangedoras: um F/A-18 da Força Aérea do Kuwait derrubou três caças americanos F-15E. E, num dado que define a posição árabe, a Resolução 2817 do Conselho de Segurança das ONU (Nações Unidas) condenou as represálias iranianas contra os países do Golfo, e não os ataques americano-israelenses que iniciaram tudo.

Quando os houthis do Iêmen entraram na guerra em 28 de março e ameaçaram fechar também o Bab al-Mandeb, ficou claro o que estava em jogo: não um conflito Irã contra Israel, mas o estilhaçamento de toda a arquitetura de segurança do Golfo.

Para o leitor brasileiro, a guerra é “EUA, Israel e Irã”. A leitura europeia é outra. O E3 (Reino Unido, França e Alemanha) comprometeu-se com “medidas defensivas proporcionais”. Formou-se uma coalizão naval em torno do Chipre: Itália, Países Baixos e Espanha enviaram navios; a Grécia, fragatas e F-16; a Irlanda se ofereceu.

A base britânica de Akrotiri, no Chipre, foi atingida por drone. Mísseis iranianos foram interceptados pela defesa integrada da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) sobre território turco em pelo menos três ocasiões (Dörtyol, em Hatay; Gaziantep; e perto de Incirlik, em Adana), com o secretário-geral Mark Rutte reafirmando o compromisso de defender a Turquia.

Bombardeiros americanos B-1 e B-52 se posicionaram em Fairford, no Reino Unido, e em Ramstein, na Alemanha. Um soldado francês morreu num ataque de drone a uma base no Curdistão iraquiano, morte confirmada por Emmanuel Macron.

O episódio mais revelador, porém, foi de recusa: em 16 de março, tanto os aliados europeus da Otan quanto a China rejeitaram o apelo de Donald Trump para ajudar a reabrir Ormuz, levando o presidente a chamar a decisão de “erro muito tolo”. Foi a primeira vez em muito tempo que Bruxelas e Pequim convergiram contra Washington num teatro de guerra ativo.

Por dentro, o Irã vive sob restrição. Os ciberataques de abertura derrubaram a internet do país por mais de 60 horas, com a conectividade caindo a 1% do normal, e o acesso segue racionado a usuários aprovados pelo governo.

A guerra foi precedida pelo retorno das sanções via mecanismo de “snapback” em setembro de 2025 e pelo colapso do rial, que Bessent celebrou em dezembro como a “culminação grandiosa” da pressão máxima, além dos massacres de manifestantes em janeiro de 2026.

No plano nuclear, vale separar o que a Aiea (Agência Internacional de Energia Atômica) de fato diz do que se atribui a ela: a agência classifica o programa iraniano como “ambicioso”, reclama do bloqueio às inspeções dos sítios bombardeados, mas afirma não haver evidência de armamentização em curso.

A leitura britânica e americana descreve a estratégia de Teerã como hedging nuclear: manter a infraestrutura técnica para montar uma arma em curto prazo sem efetivamente produzi-la.

As avaliações mais incisivas vão além: o estoque de urânio enriquecido seria alavanca de barganha, e o Irã estaria disposto a diluí-lo ou exportá-lo em troca de alívio de sanções e garantias de segurança.

Não por acaso, fontes ligadas à negociação afirmam que Teerã teria conseguido incluir no MoU a liberação de cerca de US$ 12 bilhões, metade de seus ativos congelados no exterior.

Há ainda um custo civilizatório raramente mencionado: a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e a Blue Shield International classificaram como crime de guerra os danos a sítios protegidos, do Palácio Golestan ao pavilhão Chehel Sotoun e a monumentos de Isfahan.

Um aviso metodológico que todo analista honesto precisa fazer. Os números são névoa. EUA, Israel e Irã impuseram censura pesada, e vítimas e eventos específicos são difíceis de verificar de forma independente. O Irã reporta cerca de 3.468 mortos, enquanto organizações de direitos humanos falam em 3.636. EUA e Israel estimam mais de 6.000 militares iranianos mortos. O próprio governo iraniano avalia o prejuízo econômico entre US$ 300 bilhões e US$ 1 trilhão.

Para o Brasil, o efeito imediato é ambíguo, e a eleição de 2026 eleva o que está em jogo. O brent saltou 22,9% nos primeiros 30 dias de guerra e, embora tenha recuado para perto de US$ 90 com o otimismo da trégua, a volatilidade beneficiou Petrobras e PRIO e ajudou a levar o Ibovespa a um recorde de cerca de 194 mil pontos em abril.

Como o Estado é grande acionista da estatal, o brent alto melhora dividendos e a foto fiscal. O problema é o repasse.

O Brasil importa gasolina, diesel e fertilizantes (boa parte do Oriente Médio), e a privatização de refinarias como a RLAM (Refinaria Landulpho Alves) reduziu a capacidade da Petrobras de amortecer preços, como nota Adriano Pires, da CBIE (Centro Brasileiro de Infra-Estrutura).

Em ano eleitoral, ressurge a tentação histórica de segurar combustível artificialmente, deteriorando as contas da estatal, enquanto o choque energético se sobrepõe ao protecionismo tarifário americano e cria terreno para estagflação (a Coface já fala em pressão na cesta básica chegando à safra 2026/27).

O contraponto otimista, lembrado pelo Ineep (Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis): com 80% do petróleo de Ormuz indo para a Ásia, a queda da oferta do Oriente Médio abre espaço para a Petrobras ampliar exportações à China, que talvez consiga “segurar” a ausência iraniana por cerca de dois meses.

A pergunta que vale não é se Trump assina o MoU. É se a estrutura de incentivos permite que ele dure. O Irã quer transformar Ormuz em ativo soberano permanente. Os EUA querem o estreito aberto, o urânio enriquecido fora do país e o programa nuclear encerrado, três condições que Teerã trata como negociáveis em fases, não em bloco.

No meio, ficam os árabes alvejados pelo vizinho que cortejavam, uma Europa que se descobriu exposta sem ter escolhido, e uma China que prefere a estabilidade do fluxo de petróleo a qualquer alinhamento.

Enquanto cada incidente isolado, um drone aqui, um míssil no Kuwait ali, reativa o prêmio de risco no brent, a trégua seguirá sendo o que é hoje: real o suficiente para mover mercados, frágil o suficiente para não tirar ninguém do seu posto de combate.

* Thiago de Aragão é CEO da Arko Internacional

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