Após quase uma década, um presidente americano viaja para Pequim para visitar as lideranças da China. A visita de Donald Trump a Xi Jinping se mostra crucial para a compreensão da distribuição do poder político, econômico e militar no mundo atual.
Do ponto de vista estratégico, os líderes das maiores economias do mundo devem uma série de pontos na mesa. Entre eles, estariam as terras raras. O principal exportador desses produtos é a China, que possui não só grandes reservas, mas também detém a capacidade de processamento dos materiais.
Esses elementos são essenciais para a indústria bélica americana, para a produção de mísseis e aviões. Ao longo da guerra contra o Irã, os Estados Unidos utilizaram uma parcela considerável de seu arsenal e precisa buscar alguma reposição.
O conflito no Oriente Médio é outro tópico importante na conversa de Trump e Xi Jinping. Isso porque, a China enfrenta certa pressão sob sua matriz energética. Os chineses importavam muito dos iranianos, especialmente petróleo e gás natural – que são essenciais para a economia de Pequim.
As compras estão emperradas devido ao impasse militar no Estreito de Ormuz. O presidente americano deve insistir que Xi aperte, de alguma forma, o governo iraniano em busca de um acordo definitivo de paz, mas não deve obter muito sucesso.
A campanha dos Estados Unidos na Venezuela também dificultou a situação dos recursos energéticos do gigante asiático. O domínio, por parte de Trump, da reserva de hidrocarbonetos de Caracas estrangula grande parte da cadeia econômica da China e terá sua influência no encontro desta semana.
Quem manda onde no mundo?
Os Estados Unidos, desde o retorno de Trump à Casa Branca, deixou explícito que sua zona de influência preponderante é a América Latina.
Depois do seu “corolário” para o continente, Trump tenta delimitar a atuação de Xi Jinping na região. Uma das maneiras foi buscar “acertar” o que aliados fazem ou deixam de fazer no hemisfério.
Daí a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Washington na semana passada. Parte da intenção era definir a questão das terras raras, suprimento de commodities, energia, minério de ferro e outros negócios do Brasil com a China.
Essas são as questões que Trump e Xi Jinping devem debater nesta semana, na primeira vez em nove anos que um presidente americano passará pela Cidade Proibida de Pequim. É preciso aguardar o resultado dessas reuniões, que terão um peso importante para a geopolítica nos próximos meses.
*Alberto Pfeifer é coordenador-geral do grupo de Defesa, Segurança e Inteligência da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisador de geopolítica do Insper Agro Global. Foi diretor de projetos especiais e diretor de assuntos internacionais estratégicos da Presidência da República. Este texto foi transcrito em primeira pessoa de análise em vídeo para o WW.

