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Análise: Viagem do papa Leão à França revela detalhes de sua personalidade

A França pode ter uma cultura altamente secularizada, mas deu ao Papa Leão XIV uma recepção de superestrela.

Em Paris, cerca de 800 mil pessoas se aglomeraram na avenida Champs-Élysées, algumas agitando bandeiras do Vaticano ou da França, enquanto outras escalavam árvores ou subiam nos ombros umas das outras para avistar o papamóvel.

Em Lourdes, um local sagrado no sul da França, cerca de 150 mil pessoas participaram de uma missa papal ao ar livre, segundo estimativas do Vaticano, números que superam em muito os fiéis que compareceram à última visita papal, em 2008.

Durante a visita de quatro dias, Leão pareceu à vontade e descontraído, proferindo a maior parte de seus discursos e reflexões em francês, abordando vários temas.

Um foco central do pontífice tem sido tentar revitalizar a fé em um tradicional reduto católico europeu, além de abordar o escândalo de abuso sexual clerical e grandes temas políticos, como a inteligência artificial. Ele também fez observações mais pessoais e improvisadas, ajudando a construir uma imagem mais clara de si mesmo.

Papa quer que a Europa recorra às suas raízes cristãs

Enquanto o papa Francisco nunca realizou visitas oficiais aos principais países católicos europeus, França e Espanha, o Papa Leão viajou a ambos dentro do primeiro ano e meio desde sua eleição.

A França é às vezes descrita como a “filha mais velha da Igreja” por causa de suas profundas raízes católicas, mas também enfrenta uma tendência de longo prazo de declínio na frequência às igrejas, com estimativas de apenas 5 a 8% da população comparecendo a cada semana.

Os bispos franceses relataram mais recentemente, porém, um surpreendente aumento no número de novos membros na Igreja, após cerca de 8.200 adolescentes e 13.200 adultos serem batizados em 2026, um aumento de 20% em relação ao ano anterior.

A Igreja afirmou também que 42% dos adultos que buscam o batismo têm entre 18 e 25 anos, um reflexo de uma tendência que mostra a abertura da Geração Z à fé religiosa.

É algo que o Papa Leão pode ter notado no Stade de France, quando 80 mil jovens lotaram o local para uma vigília de oração alegre e barulhenta. Foi semelhante ao que ocorreu quando o pontífice visitou a Espanha em junho.

“Há uma busca por significado. As pessoas precisam e estão em busca de sentido e respostas para as grandes questões existenciais”, disse à CNN o Rev. Benoît Pouzin, padre no sudoeste da França envolvido com a pastoral jovem.

A França tem uma rígida separação entre Igreja e Estado, por isso cada visita papal precisa ser cuidadosamente conduzida. Mas, em uma reviravolta surpreendente, a missa de Leão em Paris foi celebrada na Place de la Concorde, um local profundamente ligado à República laica, pois foi lá que o último rei da França, Luís XVI, e Maria Antonieta foram guilhotinados. A separação entre Igreja e Estado teve início com a queda da monarquia durante a Revolução Francesa.

Em outro movimento incomum durante a viagem, o presidente Emmanuel Macron também participou de uma missa papal em Metz, cidade no nordeste do país, apesar das críticas recebidas em 2023 por ter feito o mesmo durante uma visita do Papa Francisco.

Leão XIV fica à vontade com jornalistas

Muitos entre as multidões também destacaram o papel de Leão como o outro grande líder americano no cenário mundial. É difícil não vê-lo como um contrapeso ao presidente Donald Trump. Em contraste com o governo Trump, o papa defendeu controles mais rígidos sobre o desenvolvimento da inteligência artificial, alertando contra um “paraíso das máquinas” durante sua estada em Paris.

O papa, que se manifestou contra a guerra dos EUA no Irã, também deseja uma Europa mais unida, uma União Europeia mais forte e uma cooperação internacional mais sólida.

“Hoje, as relações entre indivíduos e Estados estão se tornando cada vez mais incivilizadas”, disse o papa em Metz nesta segunda-feira (28). “O valor de manter a própria palavra é descartado; em vez disso, as pessoas se gabam de mentiras e enganos.”

O discurso do papa também elogiou um dos fundadores da União Europeia, Robert Schuman, para quem há um processo formal em andamento para torná-lo santo.

No avião papal, o pontífice americano respondeu sobre a proibição de acesso à mídia imposta pela Casa Branca de Trump, que inclui a CNN e outros veículos.

Em resposta a uma pergunta da CNN, ele disse estar “muito feliz que, aqui, todos sejam bem-vindos e que uma boa cobertura, acredito, seja muito importante e que a tenhamos de todos os lados, para todos”.

A resposta foi clássica de Leão XIV: sinalizando seu apoio à imprensa, mas sem querer criar um conflito desnecessário com o presidente.

As interações do papa americano com jornalistas durante os voos eram momentos raros e sem roteiro, com suas respostas frequentemente revelando mais sobre sua personalidade.

No voo de Roma a Paris, o papa foi questionado se tinha algo a comentar com uma recente vitória milagrosa do Chicago White Sox, seu amado time de beisebol. “Sem comentários”, disse ele, acrescentando com um sorriso: “Grandes coisas acontecem em Chicago.”

Ele também relembrou memórias de infância assistindo a Fulton Sheen, o arcebispo e apresentador americano que foi recentemente declarado “beato”, um passo antes da santidade, e revelou que vinha praticando seu francês, mas que não estava mais usando o aplicativo de idiomas Duolingo.

“É fake news!”, disse ele sobre reportagens recentes. Leão já foi flagrado no passado usando o Duolingo para aprender alemão.

Leão não se limita a falar sobre os desafios de seu país natal. Ele também expressou preocupação com a morte assistida, após a França ter aprovado recentemente uma legislação que concede o direito a pessoas com doenças incuráveis, algo fortemente combatido pela Igreja Católica.

Leão abordou o assunto diversas vezes durante sua visita — com mais clareza na cidade do “santuário milagroso” de Lourdes, conhecida por atrair muitos peregrinos doentes e em fase terminal ao seu santuário.

Disposição para enfrentar os escândalos da Igreja

O papa deve, no entanto, continuar lidando com os escândalos de abuso sexual da Igreja Católica. A França foi abalada por um relatório de 2021 que estimou que cerca de 330.000 crianças foram abusadas sexualmente ao longo de 70 anos por padres ou outras figuras da Igreja.

Ele abordou o tema dizendo às multidões que a Igreja deve admitir suas próprias falhas e curar “feridas profundas”, antes de realizar uma reunião de duas horas com sete sobreviventes de abuso.

O Vaticano informou que Leão os agradeceu “por seu doloroso testemunho”, ao mesmo tempo em que “reafirmou seu compromisso de garantir que o dano que sofreram não se repita para outros”.

Mas o escândalo ainda persiste. Na fachada da basílica de Lourdes, banners foram colocados sobre mosaicos controversos antes da visita de Leão. Esses mosaicos — que agora serão cobertos indefinidamente — foram criados por um padre e artista esloveno, o Rev. Marko Rupnik, acusado de abuso sexual e psicológico de mulheres adultas.

Um bispo local disse que o papa apoiou a forma como a nunciatura apostólica estava lidando com as obras do artista. O bispo Jean-Marc Micas também afirmou que Leão ordenou que os veículos de mídia internos do Vaticano parassem de usar obras de Rupnik.

Rupnik, que defende sua inocência, enfrenta um julgamento eclesiástico no Vaticano, que os denunciantes criticam pela demora e falta de transparência.

O papa foi escolhido há 16 meses e ainda está construindo uma narrativa para seu pontificado. Alguns no Vaticano o consideram difícil de decifrar, e ele é conhecido por guardar suas cartas a sete chaves.

Mas é nas estradas abertas, quando viaja ao exterior — na França e, em novembro, na América Latina —, que o pontificado de Leão começa a tomar forma.

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