Ícone do site São Paulo Jornal

Novo presidente do Peru terá desafios de legitimidade, diz especialista

Os resultados parciais das eleições presidenciais do Peru apontam para uma vitória do candidato de esquerda Roberto Sánchez sobre a conservadora Keiko Fujimori.

O cenário, no entanto, é marcado por uma disputa extremamente acirrada de votos e por um histórico de profunda instabilidade política no país.

Em entrevista ao Hora H, Thiago Vidal, diretor de análise política da Prospectiva, avaliou que o próximo presidente peruano enfrentará sérios questionamentos sobre a legitimidade de seu mandato.

“Quem quer que ganhe terá um problema de mandato, ou seja, da legitimidade efetivamente dada pelas urnas para eventualmente um pacote de reformas, como tem sido o caso nos últimos anos”, afirmou Vidal.

Congresso majoritariamente de oposição representa obstáculo

Além do desafio da legitimidade, Vidal destacou que o novo presidente terá de lidar com um Congresso dominado pela oposição de direita, incluindo o próprio partido de Keiko Fujimori.

Segundo o especialista, embora a fragmentação parlamentar tenha caído drasticamente após o primeiro turno — tornando o Peru um dos países com menor fragmentação no Congresso na América Latina —, os partidos de direita seguem majoritários.

“Se ganha o Roberto Sánchez, ele não só vai ter um problema de legitimidade, mas a capacidade que ele terá para colocar essa agenda em discussão no Congresso, que volta a ser também um congresso bicameral”, explicou.

Vidal também ressaltou a instabilidade histórica do país, que registrou nove presidentes em dez anos e uma rotatividade ministerial alarmante.

“Mais ou menos um ministro cai a cada cinco dias no Peru, ou seja, não é uma crise que se estende apenas à presidência, mas a todo o governo”, disse o analista.

A baixa adesão dos eleitores ao pleito reforça ainda mais o cenário de fragilidade institucional.

Tendência de inversão de votos favorece Sánchez

Ao ser questionado sobre se Sánchez confirmaria a vitória, Vidal explicou a dinâmica da apuração peruana.

Os votos contabilizados primeiro são os da região de Lima e da área metropolitana, enquanto os votos da região andina e do exterior — que tendem a favorecer o candidato de esquerda — chegam posteriormente.

“A diferença do Pedro Sánchez agora é muito semelhante no percentual de votos que o Castillo teve, e também se repete essa tendência de, no segundo turno, haver uma inversão de votos, de vitória da Keiko Fujimori para o candidato que representa a esquerda”, analisou Vidal.

América Latina vive “onda azul” de direita, mas por razões conjunturais

Em um panorama mais amplo sobre a região, Vidal avaliou que a América do Sul atravessa o que chamou de “onda azul”, com governos de esquerda e centro-esquerda eleitos durante a pandemia sendo substituídos por governos de centro-direita, direita e, em alguns casos, extrema-direita.

Para o especialista, porém, esse movimento não reflete uma preferência ideológica do eleitor latino-americano.

“O que está acontecendo é que os governos de esquerda que estão saindo ou saíram foram derrotados nas urnas porque eles prometeram muito e conseguiram entregar pouco”, afirmou.

Vidal citou o caso do Chile como exemplo emblemático.

Segundo ele, o governo eleito com grande esperança de renovação e promessas de uma nova constituição viu dois projetos constitucionais serem rejeitados, o que gerou uma percepção de deterioração e culminou na eleição de um governo de extrema-direita.

“Não é uma preferência ideológica, me parece que é um cansaço e uma irritação com o tempo da política, que é muito mais lento do que a expectativa que os latino-americanos efetivamente têm”, concluiu.

Sair da versão mobile