Nahu Kuikuro, um proeminente líder indígena do Alto Xingu, pioneiramente aprendeu a língua portuguesa na década de 1940 como estratégia fundamental para defender sua aldeia, Ipatsé. Sua biografia, "Dono das palavras: a história do meu avô" (Aki Oto: Api akinhagü, da Editora Todavia), escrita pelo neto Yamaluí Kuikuro Mehinaku, de 43 anos, e vencedora do Prêmio da Biblioteca Nacional, narra como Nahu se tornou o primeiro indígena na região a dominar o idioma.
A Luta pela Proteção Territorial e Cultural
Através do domínio do português, Nahu Kuikuro conseguiu vetar interferências externas, protegendo as raízes culturais de seu povo. Ele articulou esforços cruciais para evitar invasões e para a fundação do Parque Indígena do Xingu. Sua proficiência linguística o tornou um contato de confiança dos irmãos indigenistas Orlando (1914-2002), Cláudio (1916-1988) e Leonardo Villas-Boas (1918-1961), figuras-chave nas expedições da região.
O "Dono das Palavras"
A habilidade de Nahu em português o posicionou como tradutor essencial entre sua etnia e os não indígenas, motivo pelo qual era conhecido como "dono das palavras" em sua cultura. Sua influência se estendeu ao domínio das linguagens de 16 etnias na região do Rio Xingu, uma façanha que ele estrategicamente utilizou para o benefício de seu povo, apesar das diferentes origens e estruturas linguísticas.
O Impacto na Demarcação e Educação
O líder indígena foi instrumental na visibilidade e na consequente demarcação das terras do Xingu em 1961, uma medida assinada pelo então presidente Jânio Quadros. Nahu, que faleceu em 2005 aos 104 anos, também era mestre de cantos e de vasto conhecimento em diversas áreas. Insistia com seus netos sobre a necessidade de estudar, encorajando-os a proteger o território e transformar conhecimentos e memórias orais em documentos.
Nahu Kuikuro teve encontros notáveis com presidentes da República e com o Marechal Cândido Rondon (1865-1968), primeiro diretor do antigo Serviço de Proteção ao Índio, evidenciando seu reconhecimento e influência política em um período crucial.
O Biógrafo e a Preservação da Memória
Yamaluí Kuikuro Mehinaku, seu neto, compreendeu o recado do avô e decidiu registrar a longa vida e o legado de Nahu em um livro para assegurar que a história oral fosse reconhecida e acreditada também por não indígenas. Atualmente em Brasília para participar do Acampamento Terra Livre, um evento que reúne mais de 7 mil indígenas, Yamaluí busca amplificar as causas dos povos tradicionais.
A missão de Yamaluí é inspirar as novas gerações a manterem viva a história de seu avô, servindo de inspiração para a proteção contínua da cultura e das terras. Ele alerta que as escolas que atendem indígenas na região não evocam suficientemente os personagens dos povos originários, ressaltando que sua obra busca preencher essa lacuna e garantir que a história de Nahu não seja abandonada ou excluída.

