A cultura do despertencimento do próprio corpo, quando a matéria é o sexo feminino, se escancara diante de nós de forma destemida, sem pudor. A verdade é que os homens não têm medo. Enquanto isso, para nós, a hipervigilância, brandamente chamada de cuidado, impera, não importando a geografia: seja na sala de aula, no trabalho, na rua, em casa, no espaço público ou no privado. Vigiadas ou não, aprendemos a viver com medo. Aprendemos a existir com os corpos tensos, sempre em estado de alerta, como se algo estivesse constantemente prestes a acontecer.
O episódio recente do Big Brother Brasil me atravessou de uma maneira que furou o limite do entretenimento. Ele escancarou duas questões centrais. A primeira foi a ausência de surpresa. Não me indignar com a atitude do homem talvez seja, por si só, alarmante. O assédio explícito, o abuso à vista de todos, já não causa espanto. Está ali, exposto, mas foi tão normalizado ao longo do tempo que se tornou parte da paisagem. Durante décadas, esse comportamento foi tratado com naturalidade em veículos de grande alcance (novelas, filmes, séries) onde a narrativa repetia: “O homem tem livre acesso ao corpo da mulher”, “O não da mulher é, na verdade, um sim”. Quantas vezes assistimos à mesma cena? No fundo, a mensagem era clara: “ela queria, né?”.
Revisitar minha própria trajetória afetiva e sexual hoje me faz perceber quantas vezes essa cena se repetiu na minha vida. Cheguei a imaginar que minha profissão fosse um fator de risco, mas hoje sei que essas invasões acontecem em qualquer lugar, com qualquer mulher. Não nos sentimos seguras, e nos acostumamos com isso.
Desde cedo, aprendemos a construir uma armadura. Dizem que mulheres amadurecem mais rápido que homens. Não acredito que isso tenha relação com biologia. Tivemos que aprender cedo a ler olhares, antecipar gestos, desviar mãos. Ao longo dos anos, sem perceber, fomos ensinadas a desaprender que o nosso corpo nos pertence. Só hoje, aos 34 anos, tenho plena consciência de que não preciso pedir permissão para existir. Meu corpo é livre, é meu. Não devo pedir desculpas por ele, nem sentir culpa por ele. A culpa de ter sido assediada tantas vezes não tem relação com minhas escolhas, com o que vesti ou com a forma como me comportei.
Está tudo errado desde o início. Ensinaram-nos a sermos mais comedidas, cautelosas com nossas roupas, horários, risadas, exposição. Mas a aula fundamental, a de que é errado tocar uma mulher sem consentimento, forçar qualquer pessoa a algo que ela não deseja, se apropriar de um corpo que não é seu, essa aula eles não tiveram. Ou pior: essa aula nunca foi dada.
O que mais me marcou no episódio do Big Brother foi a atitude da mulher. A forma como ela se posicionou diante da violação dos seus limites. Aprendi com ela. E, ao mesmo tempo, senti vergonha por todas as vezes em que não me posicionei – para não desagradar, não incomodar, ou por motivos que talvez eu ainda não compreenda totalmente. Senti orgulho de ser mulher. E esse orgulho vibra em mim com frequência. Eu gosto de ser mulher. Esse sentimento cresce.
Alguns dizem que a ignorância é uma virtude. Não sou uma mulher que sente pena com facilidade, salvo raras exceções. Esta é uma delas. Não se muda aquilo de que não se tem consciência. Isso não significa que o processo seja simples ou indolor, mas cada milímetro caminhado internamente se reflete no mundo externo. É assim que as mudanças acontecem: devagar, a partir da abertura dos olhos de dentro. É acordar de um sono geracional. É querer saber, se questionar, despertar. A busca é individual. O impacto, coletivo.

