Atualmente no elenco de RuPaul’s Drag Race UK vs. The World, Fontana se firma como uma das competidoras mais fortes da temporada. Seus looks exuberantes, que combinam fantasia, alta-costura e referências brasileiras, funcionam como extensão direta de uma história que cresceu nos palcos internacionais, quando participou da primeira e única temporada da versão sueca da franquia. “Eu achava que o ápice da minha carreira seria ter sido vice-campeã do Drag Race Suécia”, relembra, em conversa exclusiva com a Vogue Brasil. “A Suécia é um país pequeno, tivemos só uma temporada, e eu realmente pensei: é isso, cheguei onde dava.”
Fontana, que é cantora, compositora e maquiadora, vive na Suécia há 11 anos, país para onde se mudou sem nunca ter planejado ficar. Foi ali que, pela primeira vez, ela sentiu algo que define como essencial. “Quando mudei pra cá, foi como se eu respirasse pela primeira vez. No Brasil, eu vivia sufocada. Eu precisava atuar uma masculinidade que não me pertencia.” É também na Suécia que a Fontana nasce como artista. “A Fontana não nasceu no Brasil. Ela nasceu aqui, quando eu consegui me encontrar como pessoa.”
Esse respiro, porém, nunca foi sinônimo de conforto absoluto. A artista de 32 anos fala abertamente sobre viver como imigrante travesti latina na Europa — e sobre o medo constante que atravessa essa experiência. “Neste momento, eu corro risco de deportação. Nunca estive ilegal, mas passei 11 anos renovando vistos, enfrentando processos cada vez mais difíceis.” Em meio a políticas anti-imigração cada vez mais duras, a sensação de instabilidade é permanente. “A Suécia me trouxe segurança, mas ela também me lembra todos os dias que aqui não é casa.”
A xenofobia, segundo ela, raramente é explícita, mas está sempre presente. “O tratamento com pessoas imigrantes é diferente. Você entra num lugar e sente.” Em um episódio marcante, Fontana foi barrada em um restaurante após apresentar um documento com nome e gênero masculinos. “Passaram minha identidade de mão em mão, rindo da minha cara.” Para ela, o choque não está apenas nas leis ou nos episódios isolados, mas na constatação diária de não pertencimento. “Eu me sinto em casa em alguns aspectos, mas em outros eu estou muito longe de casa.” Essa sensação atravessa também a vida profissional.
No centro dessa travessia está RuPaul – não apenas como apresentadora, mas como referência histórica. “Se existe alguém mais provocativa que a RuPaul, eu desconheço.” Para Fontana, a criadora da franquia abriu caminhos quando “tudo ainda era mato”. “Ela capinou, construiu esse império e colocou a gente no mapa da cultura pop.” Estar diante dela, no estúdio, foi mais do que um momento televisivo. “É uma presença muito forte. Ela cuida, ela observa, ela acolhe. Não é à toa que o nome do programa é o nome dela.”
Fontana: Eu disse sim porque participar do universo de RuPaul e ser julgada por ela era o meu maior sonho. Eu fui vice-campeã do Drag Race Suécia, mas a Suécia é um país pequeno e a nossa franquia está pausada há três anos. Eu realmente achei que aquele teria sido o ápice da minha carreira. Ser escolhida a dedo pela própria RuPaul para retornar foi uma realização imensa, algo muito distante da realidade que eu tinha no Brasil. Embora você tenha mencionado a “Copa do Mundo”, com o desenrolar das gravações, eu descreveria esta temporada como os “Jogos Vorazes” das Drags. O nível de competição é selvagem; as queens estão lutando pela vida e, na minha opinião, às vezes até passando dos limites para ganhar essa coroa. Além disso, a gente não sabe para onde vai até quase o momento de embarcar. Fiquei muito feliz por ter caído no UK vs. The World, pois é uma produção da BBC, uma emissora que foca muito na parte artística e coloca nossas histórias em evidência. Eu sabia que poderia confiar 100% nessa produção.
Fontana: Algo que as pessoas talvez não saibam é que a RuPaul ama o estúdio extremamente gelado. Mesmo sendo inverno em Londres, o ar-condicionado ficava no máximo. Para nós, isso é maravilhoso, porque usamos muitas camadas de meia-calça, enchimentos, perucas e figurinos pesados. O que mais me surpreendeu foi a presença materna da RuPaul. Ela cuidava muito da gente. Nos momentos em que a câmera não estava filmando, ela fazia questão que as queens tirassem os saltos para descansar os pés, pedia para bebermos água ou sugeria que ajustássemos acessórios que estivessem machucando. Ela é chamada de “Mother” por um motivo real; ela tem uma energia que brilha e transcende, sendo muito calorosa e presente. É difícil colocar em palavras o impacto de estar frente a frente com ela.
Fontana: O diferencial é a diversidade cultural. Este é o elenco mais diverso da história, com sete ou oito países representados. São sete idiomas e culturas diferentes convivendo. Para mim, como brasileira, tudo era fascinante, mas eu fiz questão de manter minha essência. Moro na Suécia há 11 anos, mas decidi ser brasileira para sempre porque esse calor humano e o sorriso são a minha base. Estamos competindo com “titãs” — as maiores drags de seus respectivos mercados. O público muitas vezes esquece que é um reality de confinamento. Vivemos em uma bolha, sem celular ou contato com o mundo exterior, o que torna tudo muito mais intenso. É quase um Big Brother; as emoções ficam à flor da pele porque estamos 100% mergulhadas naquele momento.
Fontana: O Drag Race Suécia mudou minha vida profissional, mas a realidade como imigrante travesti brasileira na Europa é difícil. Atualmente, corro o risco de ser deportada. Nunca estive ilegal, mas as leis de imigração na Suécia estão ficando muito rígidas e o país vive um processo de deportação em massa. .Isso é assustador porque, como mulher trans, não me sinto segura para voltar ao Brasil. Tenho traumas da minha juventude em São Leopoldo, onde sofria muita violência, e as estatísticas de crimes contra pessoas trans no Brasil me apavoram.
Fontana: Fontana é o meu sobrenome, então não criei um personagem; apenas adaptei a melhor versão de mim mesma para o palco. No programa, sou 100% honesta. O que as pessoas talvez não vejam é o meu lado mais zen. Por viver com um transtorno de ansiedade forte, fora das câmeras eu busco o silêncio, gosto de meditar, tomar um chá e ler. Muita gente acha que sou “vida louca”, mas o silêncio é onde eu me protejo da agitação do mundo.
Fontana: A Suécia me deu paz. Pela primeira vez na vida, pude andar na rua sem ser hostilizada. Esse respiro permitiu que a Fontana nascesse; ela é uma celebração de quem eu realmente sou. Artisticamente, a Suécia me deu referências musicais incríveis, já que sou fã de música pop e o país é um polo de produtores e artistas como Zara Larsson, ABBA e Max Martin. Já o Brasil me oferece o otimismo e a decisão de ser feliz mesmo nos dias nublados. O brasileiro se joga de cabeça, não tem medo de demonstrar emoções, enquanto o sueco é mais contido. Prometi a mim mesma que minha essência brasileira permaneceria intacta, pois tenho muito orgulho da minha história.
Fontana: Quero mostrar que sonhos se realizam, mesmo para quem vem de lugares periféricos ou sem esperança. Eu sou uma exceção à regra, mas minha mensagem é: não limitem seus sonhos. O legado é de luta, resistência e ativismo. Hoje eu me amo e me aceito, e quero que as pessoas se encontrem também. Fazer arte drag nunca foi tão importante diante do retrocesso político que vivemos. Me orgulho de ser brasileira, imigrante e travesti. O que não faço questão de carregar é a comparação ou o julgamento da competição. Existe palco e holofote para todas nós brilharmos juntas.

