Era 2018. Saía de uma depressão séria. Estava com um grito de “viva!” na garganta, querendo ir para o mundo. Chamavam-me de coroa. Tinha feito 52 anos e sentia uma vontade imensa de falar sobre as mudanças que via em mim e ao meu redor, depois da entrada nos 50. Queria falar, mas também queria ouvir. O meu objetivo era trocar, tentar entender, conversar com outras mulheres. Tinha ainda um desejo de celebrar a vida, os anos vividos, as conquistas e os aprendizados. Era uma coroa afim de mais vida.
“Viva, coroa!”, eu me dizia mentalmente. E, mais ou menos assim, decidi criar uma conta no Instagram com o nome “Viva a coroa” do zero, para mulheres 50+. Nessa época, éramos pouquíssimas online falando sobre nós. Fora das redes, a maioria das pessoas com quem compartilhava a ideia me desencorajava. Diziam que ninguém queria envelhecer, nem falar sobre envelhecimento, velhice, tampouco ouvir ou ler sobre isso, sobre menopausa, calorão, libido. O nome “viva a coroa” era zombado. Mas eu acreditava nele.
Fiz o meu primeiro post, apenas me apresentava. Não demorei muito para chegar na primeira centena de seguidoras e estabelecer uma troca sincera. Os comentários eram tão longos quanto os textos, aqueles textos que diziam que ninguém ia querer ler. O termo comunidade não era popular, mas ali, no Viva, já tínhamos uma. E ela só cresceu e se fortaleceu.
Se anos atrás eu me sentia sozinha, hoje, aos 60 anos, falo no plural. Somos mais de 500 mil, só no insta. No Facebook somos mais de 200 mil. Vivemos um mundo bem diferente daquele de 8 anos passados. E afirmo com toda certeza que o tempo nos fez muito bem.
Ainda temos muito caminho pela frente, eu sei. Também reconheço os efeitos rebotes dessa revolução, como os novos estereótipos e a apropriação de causas para vender produtos, até outro dia, descritos como anti-idade, por exemplo. Contudo, há vivas. E celebrar é preciso. Por isso, listo aqui 10 VIVAS que vivemos no hoje porque trouxemos à tona, discutimos, desenrolamos, cada um deles, anos atrás. São transformações possíveis porque estávamos juntas, falando o que muita gente não queria ouvir, mas precisava escutar. E vamos em frente. Temos um longo caminho e uma vida (se tudo der certo) bem longa também. Viva, coroa!
1. Enfim, representatividade!
No começo do ‘viva a coroa’, filmes, novelas e séries tinham personagens 50+ caricatas, meio cansadas, sem muitos interesses ou brilho. A exceção era Samantha, da série The Sex And The City. E ela chegava a chocar algumas pessoas. Hoje, mulheres 50+ estão representadas como realmente são, ou seja, interessantes, ativas, cheias de vitalidade, com muita beleza, experiência, alguns sintomas de peri e menopausa, desejos, conquistas, sonhos e mais. Viva!
Lá em 2018, uma campanha de moda com uma mulher 50+ era algo muito, ultra, super diferente. As grandes marcas internacionais abriram as portas. Jane Fonda, Cher, Catherine Deneuve brilharam em campanhas globais. Localmente ainda temos muito a fazer. Mas hoje é mais comum ver mulheres de diferentes idades em campanhas de moda e em capas de revistas. Viva!
3. Menopausa é assunto de todos
Cheguei a ser repreendida em um talk sobre mulheres 50+ por falar sobre o assunto. Com microfone em punho, uma outra participante cortou a minha fala, dizendo, ‘meu bem, ninguém quer ouvir disso’. Era 2019. Hoje o tema está até meio cansado… porque tem muita gente falando sobre menopausa só para conquistar o tal “mercado”. Uma pena. Fico feliz com a democratização da informação e sigo acreditando que menopausa é um assunto de todos e merece iniciativas públicas. Viva!
4. Todo mundo sabe o nome do preconceito contra a idade
Ageismo e etarismo entraram para o vocabulário de todos. O preconceito ainda existe, infelizmente, mas agora tem um nome reconhecido, pode ser identificado, apontado, combatido. Estamos no caminho! Viva! Tem mais: esse movimento incentivou a criação de ações inclusivas no mercado de trabalho.
O prazer sexual e na vida aparecem como resultados de uma combinação dos “vivas” já citados. Com mais segurança e autoconfiança, as mulheres 50+ estão se permitindo e querendo mais. Casam e descasam, namoram, flertam, estão na pista e ganharam pistas de dança só para elas, como as das festas “Gudinaite”, de Patrícia Parenza, pelo Brasil, e as festas da DJ Gloria pela Europa. Viva!
Até eu, que quero uma vida longa e cheia de saúde, reviro os olhos quando leio a palavra longevidade. Mas vem comigo: é uma baita conquista termos cansado de ouvir sobre uma vida com qualidade e vitalidade para os velhos, em um mundo que celebra os jovens. Isso significa que o assunto ganhou muita escuta. Viva! Além disso, a temática é pertinente e importante. Lembrando que viver muito não é o mesmo que viver bem.
Olha, lá em 2018, contava-se nos dedos de uma mão as brasileiras que abraçavam a idade, suas dores e delícias nas redes sociais. As mulheres 50+ ganharam escuta e ocuparam muito bem o seu espaço digital. Viva!
Apesar das tentativas de criar um estereotipo para a mulher 50+ (até falei disso na coluna passada) o padrão não pega. Ufa! Assim, há estilos e belezas 50+ para todos os gostos. Há as que preferem envelhecer de forma mais natural, as marombeiras, as fãs dos protocolos estéticos, as que ficam com um pé aqui outro lá…e assim há uma diversidade de belezas. Viva!
De creme para os olhos até moradia… O mercado está de olho nos interesses e necessidades dos 50+ e cria soluções sob medida. Até pouco tempo atrás isso não existia. As projeções populacionais ajudaram a virar esse jogo. Viva!
10. Estamos “vivonas” e vivendo
Tá aí o que eu acho mais interessante: ver mulheres que se consideravam invisíveis vivendo a vida, viajando, com ideias, projetos, planos, curiosidade, cabeça aberta e muita vontade de viver o seu melhor. Viva! Que assim siga. Só queremos mais…

