Falar em Riviera Francesa é pensar no Mar Mediterrâneo: praias lindas, água azul e nomes como Nice, Cannes e Mônaco que vêm à mente imediatamente. Mas existe um Sul da França que vai muito além do mar.
Ela começa quando a estrada deixa o litoral e sobe em direção ao interior, ao chamado “arrière-pays”, literalmente o “país de trás”. Contornando colinas e serpenteando por estradas pitorescas, com vistas deslumbrantes do verde, surge outra viagem. O que aparece ali não é uma extensão da praia, mas quase um contraponto: vilarejos de origem medieval, construídos em pedra, pensados para defesa muito antes de qualquer ideia de turismo. Lugares que foram ocupados, disputados e transformados desde a presença de povos da Antiguidade, entre gregos e, mais tarde, romanos.
É nesse interior, a poucos quilômetros do mar, que a Riviera ganha profundidade histórica. Entre ruas estreitas, praças silenciosas e vistas abertas que, em dias claros, ainda alcançam o Mediterrâneo ao fundo, surgem vilarejos cinematográficos que tornam a viagem realmente inesquecível.
Reunimos, exclusivamente para a Vogue Brasil, três vilarejos históricos, e ainda pouco conhecidos, que não podem faltar no seu roteiro pelo Sul da França e um quarto, como bônus, um desvio nas montanhas que, sozinho, já justifica sair da rota!
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A poucos minutos de Cannes, Mougins se formou no alto de uma colina, como tantos pontos estratégicos do sul da França. O desenho circular do centro histórico, ainda preservado, reflete essa origem. Hoje, essa mesma estrutura conduz o visitante pelas ruas do vilarejo, entre pequenas praças, galerias de arte e charmosos restaurantes. A cultura está por toda parte. Pablo Picasso passou ali seus últimos anos, e sua marca segue viva pelo vilarejo, com ateliês, galerias e artistas por todos os lados.
Parar para almoçar em Mougins chega a ser obrigatório. O vilarejo é cheio de restaurantes charmosos, quase cenográficos, e vale sentar sem pressa, seja em um almoço com vista para o vale ou em um jantar na pracinha histórica. Entre os nossos favoritos estão o L’Amandier de Mougins, um clássico da cozinha provençal com terraço e vista aberta, e o La Place de Mougins, de pegada francesa contemporânea e presença recorrente no Guia Michelin.
Biot é mais um daqueles vilarejos inesquecíveis do Sul da França. Com raízes antigas e uma passagem marcante dos Templários na Idade Média, o vilarejo cresceu aos poucos, mantendo ruas irregulares e uma atmosfera autêntica, longe de qualquer cenário montado. Hoje, essa identidade segue viva. Biot é conhecido pelo vidro soprado, com ateliês que funcionam como oficinas reais, onde o processo ainda acontece ali, diante de quem visita. Mas o charme aparece mesmo nos detalhes.
Vale parar no Chocolatier Glacier Marc Saint-Saëns, no centro, onde os sorvetes e os chocolates são produzidos ali mesmo, no próprio ateliê, de forma artesanal por um dos maiores mestres do país. Na hora de sentar, o restaurante Les Arcades carrega bem o espírito do vilarejo. Ao longo dos anos, virou ponto de encontro de artistas, com obras espalhadas pelo interior e histórias que incluem passagens de nomes como Pablo Picasso e Marc Chagall. Mas é do lado de fora que ele se revela de verdade. As mesas ficam sob as arcadas de uma linda praça, formando um cenário charmoso e pitoresco, especialmente à noite. Jantar ali, ao ar livre, na pracinha iluminada, é simples e delicioso, exatamente como Biot pede.
Para algo mais rápido, o Café de la Poste, em funcionamento desde o século XIX, é perfeito para um café sem pressa, na praça, sob as árvores, só observando o ritmo do vilarejo. A poucos minutos do centro histórico de Biot, vale a visita ao Musée National Fernand Léger. Fernand Léger foi um dos grandes nomes da arte moderna francesa, associado ao cubismo, mas com um estilo próprio, marcado por formas robustas e cores intensas. O museu reúne uma das principais coleções do artista e funciona como um excelente complemento à visita ao vilarejo.
Valbonne é um vilarejo lindo e marcante, daqueles que se destacam pelo conjunto. Tudo gira em torno da Place des Arcades, uma praça ampla, cercada por arcadas e cafés, que funciona como o coração do vilarejo. É ali que tudo acontece. Fundada no início do século XVI para repovoar a região após períodos de peste, Valbonne foi planejada desde o início seguindo uma lógica inspirada nas cidades romanas: ruas em grade, com eixos perpendiculares e uma praça central. Tudo ali é gracioso e cenográfico. Você chega, caminha um pouco, passa pelas lojinhas e galerias e conhece todo o vilarejo em menos de uma hora. Se estiver por lá numa sexta-feira de manhã, vale pegar o mercado provençal, quando Valbonne ganha mais vida e ainda expõe todas as delícias da região, como queijos, méis, pastas de azeitona, geleias, pães e muito mais!
Subir até Gourdon é sair definitivamente da lógica da costa e ganhar uma das vistas mais impressionantes do Sul da França. A estrada já muda o tom: curvas fechadas, altitude subindo rápido (chegando perto dos mil metros!), o mar ficando cada vez mais distante, mas sempre presente no horizonte. Conhecida como a “varanda da Côte d’Azur”, Gourdon fica no alto de um penhasco, com vistas abertas e realmente impressionantes sobre toda a Riviera. No topo, a paisagem se abre inteira. Gourdon está ali por um motivo.
Desde a Antiguidade, o rochedo serviu como ponto de defesa natural e, na Idade Média, virou uma fortaleza estratégica, controlando o vale do Loup. No centro do vilarejo está o Château de Gourdon, um castelo lindo que domina a paisagem. Mas Gourdon não é só história e vista. Vale parar na La Crêpe Gourmande, uma creperia familiar, simples e deliciosa. É o tipo de lugar sem pretensão, com crepes ótimos e mesas ao ar livre, em uma das ruelas do vilarejo, que aproveitam o cenário magnífico ao redor. Quem estiver em forma e com bastante vontade de pedalar pode subir até Gourdon de bicicleta, com recompensas maravilhosas, como a vista e a crepe, que decididamente está entre as melhores da França.
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