À medida que a feira de arte contemporânea Art Basel Paris se aproxima, no final de outubro, a Vogue reúne sete exposições para visitar na capital francesa durante uma temporada marcada pela reabertura de grandes instituições. Entre os destaques estão a Fondation Louis Vuitton, com uma retrospectiva dedicada ao colecionador Gustave Fayet; a White Cube Paris, que apresenta a primeira mostra individual de Tracey Emin em seu espaço parisiense; e o Musée des Arts Décoratifs, que recebe uma exposição dedicada ao fotógrafo brasileiro Rafael Pavarotti.
“Un vestiaire à soi. Féminités dissidentes au 19e siècle”, no Palais Galliera
As mulheres não precisaram esperar pelas garçonnes dos anos 1920 e pela popularização das calças para transgredir as normas de gênero. Já no século XIX, começaram a incorporar peças do guarda-roupa masculino, uma a uma, conquistando uma liberdade que não era apenas estilística, mas acompanhava as grandes conquistas feministas da época: o acesso aos estudos, ao mercado de trabalho e ao esporte, além de uma presença cada vez maior no espaço público.
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Ao subverter os códigos da feminilidade clássica ou adotar plenamente o cross-dressing, a gravata, o laço e o conjunto de alfaiataria passaram a integrar o guarda-roupa das mulheres que gostavam de flertar com os limites. É essa história pouco conhecida da masculinização do vestuário feminino, do final do século XVIII até 1914, que a exposição inaugurada no Palais Galliera se propõe a contar. Uma verdadeira procissão de mulheres masculinizadas, figuras andróginas de cabelos curtos, amazonas e aristocratas usando bloomers ocupa as galerias do museu. Entre elas estão a dançarina Cléo de Mérode, conhecida como a “bela entre as belas”; a pintora Rosa Bonheur, que obteve autorização oficial para usar calças; e Natalie Clifford Barney, figura central do mítico Paris-Lesbos, uma rede literária lésbica bastante ativa durante a Belle Époque.
Embora a questão de gênero e sua emancipação por meio da moda esteja hoje no centro dos debates, o papel das minorias de gênero e das lésbicas nos avanços do vestuário continua sendo um dos grandes pontos pouco explorados da época. “A exposição faz a arqueologia de uma moda protolésbica no século XIX, ao mesmo tempo que retrata a masculinização da moda feminina em toda a sociedade”, explica a curadora Marine Kisiel. A mostra reúne 96 silhuetas, muitas delas acompanhadas de acessórios como monóculos e cartolas, além de fotografias do cotidiano, cartazes e imagens da imprensa. Uma homenagem a todas as pioneiras da moda gender fluid, famosas ou anônimas.
“Un vestiaire à soi. Féminités dissidentes au 19e siècle”, em cartaz até 14 de fevereiro de 2027 no Palais Galliera.
“Rafael Pavarotti, photographe”, no Musée des Arts Décoratifs
Nascido em 1993 no estado do Pará, no coração da floresta amazônica brasileira, Rafael Pavarotti desenvolveu desde cedo um olhar singular sobre o mundo. Descobriu a fotografia aos 12 anos, registrando praias desertas e edifícios abandonados, antes de se voltar gradualmente para a moda, aos 16 anos. Autodidata, rapidamente se destacou por uma estética poderosa e afirmativa. Seu trabalho é facilmente reconhecível: cores intensas, contrastes levados ao extremo, superfícies brilhantes e composições gráficas. A cor se torna uma verdadeira linguagem em suas imagens, empregada de maneira deliberada e quase radical. Esse tratamento intenso dá origem a fotografias saturadas, incisivas e glossy, nas quais cada detalhe parece amplificado.
A exposição retrospectiva organizada pelo Musée des Arts Décoratifs pretende lançar luz sobre a dimensão pessoal de seu trabalho. O universo visual de Rafael é profundamente influenciado por sua infância e pelo ambiente em que cresceu. As mulheres fortes de sua família, a louça de cores vivas de sua avó e a riqueza natural e cromática da Amazônia constituem fontes essenciais de inspiração. Essa história íntima permeia sua obra e confere às fotografias uma intensidade particular, que reúne glamour, força e identidade cultural. Por meio de suas imagens, Pavarotti redefine os códigos da fotografia de moda contemporânea, imprimindo-lhe uma energia nova, ousada e decididamente moderna.
“Rafael Pavarotti, photographe”, em cartaz desde 23 de setembro de 2026 até 7 de fevereiro de 2027 no Musée des Arts Décoratifs (107, rue de Rivoli, 75001, Paris).
“Penn & Fashion”, na Maison Européenne de la Photographie
Conhecido como um dos fotógrafos mais importantes do século XX, Irving Penn começou a trabalhar para a Vogue no início dos anos 1940, depois de atuar como assistente na Harper’s Bazaar. Para a Vogue, assinou sua primeira capa em 1944, com uma série de naturezas-mortas inspiradas nas pinturas holandesas do século XVII. Nela, aparece, por exemplo, uma mosca pousada sobre um limão, uma interpretação moderna das vanitas, gênero artístico que convida à reflexão sobre a morte e a efemeridade da vida, além de trazer a moda de volta à sua condição passageira. Mas, quando Alexander Liberman, talvez o maior diretor de arte de sua época e diretor da Vogue americana, pediu que ele vestisse um terno e fosse aos desfiles, Irving Penn recusou. Em vez da agitação das semanas de moda, preferia a tranquilidade de seu estúdio, longe dos olhares.
Nas seis décadas seguintes, Penn produziu mais de 150 capas para a Vogue. Sua última fotografia? Uma cafeteira, registrada em 2007, dois anos antes de sua morte, aos 92 anos. A imagem encerrou a grande exposição dedicada ao artista que ocupou o Grand Palais em 2017, em parceria com o Metropolitan Museum of Art, de Nova York. Na Maison Européenne de la Photographie, a exposição “Penn & Fashion” pretende explorar a carreira do fotógrafo pelo prisma da moda, de suas imagens icônicas dos anos 1950 aos trabalhos em cores produzidos nos anos 2000.
“Penn & Fashion”, em cartaz de 7 de outubro de 2026 a 17 de janeiro de 2027 na Maison Européenne de la Photographie (5/7, rue de Fourcy, 75004, Paris).
“Remember Me”, na Bourse de Commerce
Dar a uma exposição de fotografia o título “Lembre-se de mim” é uma maneira delicada de recordar a missão original desse meio, criado há quase dois séculos: eternizar momentos da vida e capturar a realidade em um enquadramento capaz de perdurar no tempo. Nesse sentido, a exposição “Remember Me”, concebida por Matthieu Humery, propõe explorar uma parte ainda pouco conhecida da Collection Pinault: a fotografia clássica e contemporânea, com obras que vão de registros feitos há cem anos até produções atuais. A mostra oferece a oportunidade de encontrar nomes conhecidos do acervo, como Wolfgang Tillmans, Tyler Mitchell e Cindy Sherman, além de revisitar carreiras incontornáveis, como a de Irving Penn, cujo 110º aniversário de nascimento será celebrado em 2027.
A Bourse de Commerce prevê apresentar um conjunto de 600 fotografias do artista, que colaborou com a Vogue durante mais de 40 anos. Outro destaque é Annie Leibovitz, também uma importante colaboradora da Vogue, hoje com 76 anos. Ela viajará a Paris para participar de uma masterclass inédita conduzida por Matthieu Humery, em 9 de novembro de 2026, como parte da programação cultural da Bourse de Commerce, concebida por Cyrus Goberville a partir dos principais acontecimentos da instituição, começando por suas exposições. O encontro está marcado para as 18h, no auditório, com duração de 1h15. A conversa será realizada em inglês, com tradução simultânea para o francês. Reserve seu lugar no site da Bourse de Commerce.
“Remember Me”, a partir de 7 de outubro de 2026 na Bourse de Commerce (2, rue de Viarmes, 75001, Paris).
“GUSTAVE FAYET. Collectionneur – Créateur”, na Fondation Louis Vuitton
Em sua época, Gustave Fayet foi o maior colecionador de Gauguin. Também esteve entre os primeiros a comprar pinturas de Van Gogh, quando o artista ainda era pouco conhecido do grande público, e entre os primeiros a apresentar obras de Pablo Picasso. Não há dúvida de que Fayet é uma figura fascinante sob diversos aspectos, especialmente por suas obsessões. Uma delas era a abadia de Fontfroide, em Narbonne, que ele restaurou com o dinheiro obtido pela venda de duas pinturas de Gauguin, negociadas em uma única tarde. “Ele gostava de ser protagonista em todos os lugares por onde passava”, observa Suzanne Pagé, diretora artística da Fondation Louis Vuitton. Ela menciona também sua breve passagem como conservador do museu de Béziers, sua cidade natal, onde organizou exposições importantes.
Uma delas, em 1901, apresentou um jovem Picasso, além de Gauguin e Cézanne. Paralelamente, Fayet propunha a aquisição de esculturas, como as de Rodin. Sua visão, provavelmente ousada demais para a instituição e para a época, provocou reações divergentes entre o público e a imprensa. Desanimado, ele acabou renunciando ao cargo em 1904. “Ao contrário de Shchukin ou Courtauld, ele nunca teve um objetivo museológico. É sua dimensão de artista que faz dele um colecionador singular”, explica Suzanne Pagé.
“Há o polo de quem cria uma obra e o polo de quem a contempla. Dou a quem contempla a mesma importância que dou a quem cria”, explicava Marcel Duchamp. A curadora Sylvie Patry retoma essa citação na exposição dedicada a Gustave Fayet para ressaltar o talento do colecionador, mas, sobretudo, para afirmar que ele encarnava os dois polos. Depois de apresentar a impressionante coleção de Fayet, composta por 257 obras emprestadas, incluindo 79 trabalhos de Gauguin, 88 de Odilon Redon e nove de Henri Matisse, a exposição prossegue no último andar da Fondation Louis Vuitton, nas galerias 9, 10 e 11, para revelar sua produção artística.
Fayet era filho de pintor e sempre teve a intenção de criar suas próprias obras, como explica Angeline Scherf, curadora associada da fundação. “Ele passou a vida tentando se encontrar como artista”, acrescenta ela. Depois de começar como pintor amador, Fayet tornou-se ceramista, decorador, designer de tapetes e até fundador de uma maison de moda. Entre seus interesses estava a coleção das primeiras edições da Vogue. A exposição reúne obras em sua maioria inéditas, que nunca haviam sido apresentadas ao público por terem permanecido sob a guarda da família.
“GUSTAVE FAYET. Collectionneur – Créateur”, em cartaz de 9 de outubro de 2026 a 8 de março de 2027 na Fondation Louis Vuitton (8, avenue du Mahatma Gandhi, 75116, Paris).
“I will miss you Yesterday / I will miss you Today / I will miss you Tomorrow / And that’s how it will Always be”, na White Cube
Neste verão europeu, a grande exposição retrospectiva dedicada a Tracey Emin na Tate Modern (intitulada “A Second Life”) encerrou suas portas. Além de ter sido uma das mostras mais aguardadas do ano, foi um dos grandes acontecimentos da temporada artística. Em outubro, será a vez de Paris prestar homenagem à artista, inclusive na praça do Trocadéro. Três esculturas monumentais, concebidas entre 2018 e 2025, serão apresentadas durante a feira Art Basel Paris, na esplanada dos Direitos Humanos, também conhecida como esplanada do Trocadéro. A instalação dialogará com a exposição “I will miss you Yesterday / I will miss you Today / I will miss you Tomorrow / And that’s how it will Always be”, a primeira mostra individual de Tracey Emin nos espaços parisienses da galeria White Cube.
Como etapa intermediária entre a apresentação de A Second Life na Tate Modern e sua chegada, neste outono, ao Museu Louisiana, em Copenhague, a exposição na White Cube Paris reúne novas pinturas e pequenas esculturas de bronze. A mostra também dialoga com o estande da galeria na Art Basel Paris (B34), que apresentará uma nova pintura da artista. Depois de retratar seus gatos e abordar suas experiências com a doença e o luto, as obras mais recentes de Tracey Emin voltam-se mais diretamente para o desejo e o amor proibido.
“I will miss you Yesterday / I will miss you Today / I will miss you Tomorrow / And that’s how it will Always be”, em cartaz de 20 de outubro a 18 de dezembro de 2026 na White Cube Paris (10, avenue Matignon, 75008, Paris).
“Prune Nourry, Visionnaires”, no Petit Palais
As esculturas de Prune Nourry expressam uma determinação que desperta admiração. A artista insiste em representar Vênus de diferentes tamanhos e em ocupar os espaços do Petit Palais com figuras femininas sem rosto, como se convidasse os visitantes a se imaginarem naqueles corpos expostos. Essas figuras, porém, não surgiram sem referências. Para a exposição no Petit Palais, Nourry pediu a três historiadoras da arte que reunissem textos e retratos fotográficos de 18 escultoras do final do século XIX e início do século XX. A partir desse material, ela esculpiu os retratos dessas artistas.
Entre elas estão Käthe Kollwitz, Nancy Elizabeth Prophet, Jane Poupelet, Selma Hortense Burke e Sarah Bernhardt. A exposição “Visionnaires” ocupa todos os espaços do Petit Palais, da esplanada externa do museu ao jardim. A mostra permite que Prune Nourry estabeleça um diálogo entre suas próprias criações e as obras do acervo da instituição. Apenas 4% da coleção do museu é composta por trabalhos realizados por mulheres, entre os quais estão representadas somente quatro escultoras. As artistas escolhidas por Nourry como modelos são, portanto, pioneiras da disciplina. Com a exposição “Visionnaires”, suas trajetórias ganharão visibilidade a partir de 20 de outubro de 2026.
“Prune Nourry, Visionnaires”, em cartaz de 20 de outubro de 2026 a 24 de janeiro de 2027 no Petit Palais (avenue Winston-Churchill, 75008, Paris).
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