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a presença indígena na moda, do ancestral ao futurismo


O Dia Internacional dos Povos Indígenas é celebrado em 9 de agosto, data instituída pela ONU em 1994 para promover os direitos, a inclusão e o reconhecimento das culturas indígenas. Os povos indígenas são os maiores responsáveis pela conservação de territórios naturais no mundo e, no Brasil, essa representatividade ganha ainda mais peso pois a principal causa de emissão de gases de efeito estufa no país é a mudança no uso da terra, isto é, a transformação de territórios naturais em pastagens, monoculturas e outros usos predatórios.

Enquanto a sociedade moderna busca soluções para enfrentar a crise climática, os saberes indígenas já carregam parte dessas respostas, inclusive para os desafios da indústria da moda. “Nós protegemos as florestas, preservamos a biodiversidade e todos os biomas, conservamos as águas e aplicamos conhecimentos ancestrais de manejo sustentável da natureza. Proteger os povos indígenas e seus territórios é uma das formas mais eficazes de proteger o clima, o planeta e garantir um futuro sustentável para as próximas gerações”, explica a estilista indígena Patricia Kamayurá.

Patrícia é do povo Kamayurá, uma etnia do território Indígena do Xingu, no Mato Grosso, na região conhecida como Alto Xingu, mas hoje vive em contexto urbano, em Goiânia. Seu contato com a moda nasceu de um sonho de infância: unir a criação de moda às artes de seu povo. “Sou designer de moda indígena. Consigo revelar, através da moda indígena, a cultura viva dos povos indígenas do Brasil, mostrando sabedoria ancestral e artes milenares sagradas, pois cada arte fala de resistência, sabedoria e sagrado. Ocupar esse espaço dentro da moda é desafiador, pois é através dela que lutamos para que os povos indígenas sejam respeitados e para afirmar que hoje somos protagonistas da nossa própria história. Ser mulher indígena falando sobre isso é quebrar paradigmas, estereótipos e o racismo que ainda existe contra nós”, destaca a estilista.

A importância da presença indígena na moda vai muito além da conservação de territórios e biomas: é reconhecimento e valorização cultural de povos que carregam consigo séculos de sabedoria, resistência e identidade. Para o estilista Sioduhi, que há anos desfila em eventos como o Casa de Criadores, o papel dos povos indígenas dentro da indústria é central justamente para romper com um histórico de exotização.

“A exotização não está só no sentido de nos acharem estranhos, como se estivéssemos fora de lugar, mas no sentido de nos afastar da formação de opinião e do desenvolvimento de símbolos, além de impedir que a gente contribua para uma moda brasileira mais diversa. Nossa presença também tem o papel de sensibilizar e formar as pessoas que fazem a indústria da moda, porque é somando forças com elas que conseguimos avançar nas mudanças estruturais que ainda pressionam e engolem tantos corpos indígenas neste país. Por isso, hoje, a contribuição dos povos indígenas é mais do que necessária”, afirma Sioduhi.

Backstage desfile Sioduhi para Casa de Criadores — Foto: Acervo Pessoal
Backstage desfile Sioduhi para Casa de Criadores — Foto: Acervo Pessoal

Conhecimentos e técnicas ancestrais vêm sendo hoje aplicados e reinventados sob a ótica do futurismo indígena, fortalecendo cadeias produtivas da sociobiodiversidade como matéria-prima e técnicas locais. “Venho utilizando a fibra do tucum, que é uma fibra milenar do território, e o tingimento natural a partir da casca da mandioca, uma tecnologia que chamo de maniocolor, desenvolvida a partir do pensamento do futurismo indígena, para mostrar que nós, povos indígenas, precisamos guardar e salvaguardar nossos conhecimentos”, conta Sioduhi.

A história do Brasil é marcada pela resistência indígena, e essa força é traduzida nas passarelas de Sioduhi. “A moda tem uma potência muito grande, tanto para o bem quanto para o mal, e, principalmente, para materializar esses símbolos nas passarelas e também para o mercado. É uma forma de sensibilizar não apenas a indústria da moda, formada majoritariamente por não indígenas, mas principalmente as nossas próprias comunidades, porque por muito tempo fomos ensinados a olhar para fora e a achar que as técnicas não indígenas valem mais do que as nossas”.

“É nesse sentido que, ao longo desses cinco anos dentro da indústria da moda, venho contribuindo e materializando isso nas semanas de moda. Fico muito feliz de fazer parte da história de tantos parentes que se inspiram em mim e nas pessoas que atuam comigo, porque não trabalho sozinho, existe toda uma equipe diversa por trás, atuando junto comigo nesses anos”, complementa Sioduhi.

Peça feita com a fibra de Tucum. Desfile Sioduhi Studio. — Foto: Acervo Pessoal

Mais do que uma data comemorativa, o 9 de agosto é um lembrete de que a luta dos povos indígenas por direitos, território e reconhecimento continua atual. Nascida das primeiras reuniões da ONU sobre populações indígenas em Genebra e fortalecida pela Declaração de 2007, essa data reforça que valorizar essa presença, inclusive na moda, faz parte de um processo maior de reparação histórica. Celebrar é também um convite à ação: continuar ouvindo e enxergando as vozes indígenas, hoje protagonistas da própria narrativa.

Patricia resume o momento atual como uma virada de protagonismo: “Nosso papel dentro da moda hoje é o de uma moda feita por mãos e sabedoria indígena, com protagonismo indígena. Já falaram muito por nós, hoje nós contamos e fazemos a nossa moda. Ocupar esse espaço, antes nunca ocupado por indígenas, é mostrar ao mundo que estamos vivos e somos capazes. Nossa arte é milenar, cura, política e ancestral.”

Patricia Kamayurá vestindo coleção própria. — Foto: Acervo Pessoal

Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Brasil.



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