Aos 18 anos, Alicia Silverstone entrou para a história da cultura pop como Cher Horowitz, a adolescente de Beverly Hills que parecia ter resposta para tudo, um guarda-roupa de dar inveja e uma habilidade especial para transformar a ida à escola em um desfile de moda. O conjunto amarelo xadrez, as meias até os joelhos, as Mary Janes, as minissaias e os cardigãs de As Patricinhas de Beverly Hills ajudaram a criar uma das estéticas mais reconhecíveis dos anos 1990.
Engraçado pensar que a atriz não tinha a mesma paixão por roupas que sua personagem. Em entrevista à Vogue EUA para os 25 anos do filme, contou que, antes de Clueless, não tinha interesse nem compreensão sobre moda. Nas audições, ia quase sempre de jeans e com a mesma camiseta verde da Gap. “Eu cresci acreditando que se interessar por moda era algo materialista, e não estava interessada nisso. Sabia que aquilo não me definiria como pessoa”, contou. “À medida que fui ficando mais velha, passei a valorizar o querer me sentir e me ver bem.”
Agora, aos 50, Alicia está prestes a reencontrar Cher. A nova série Clueless, anunciada pelo Paramount+ em julho, trará a personagem 30 anos depois do filme original. Cher continua em Beverly Hills, agora bem-sucedida nos negócios e mãe de uma adolescente. Quando a filha chega ao ensino médio, a mulher que parecia ter aprendido a lidar com quase tudo se vê novamente clueless diante de uma experiência inédita: criar uma filha que está justamente chegando à idade em que ela própria virou um ícone. A produção está prevista para começar em Los Angeles em 2027, e Alicia será também produtora executiva, ao lado de Amy Heckerling, roteirista e diretora do filme original.
Essa sinergia entre atriz e personagem traz uma reflexão interessante sobe os 50. O que acontece quando uma mulher que ficou marcada pela imagem que tinha aos 18 retorna ao mesmo personagem na maturidade?
É difícil imaginar Cher Horowitz sem pensar em roupa. O figurino criado por Mona May ajudou a definir uma estética que continua sendo revisitada três décadas depois. O filme teve 64 trocas de roupa para Alicia, segundo publicou a Vogue British , e o famoso conjunto amarelo xadrez — com saia e paletó, camiseta branca, cardigan amarelo, meias até os joelhos e Mary Janes — quase não foi o escolhido para a abertura. Havia versões azul e vermelha, mas a amarela acabou vencendo.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_5dfbcf92c1a84b20a5da5024d398ff2f/internal_photos/bs/2025/U/j/gm86F4R0mHm8cWbSmNAQ/vogue.jpg)
E pensar que a Alicia de 18 anos não percebeu imediatamente a dimensão daquilo. “Eu simplesmente não entendia na época”, disse à Vogue. Quando reviu o filme anos depois, ao lado de Mona May e do filho, percebeu o que havia acontecido: “Cada figurino era como uma entrada triunfal na Broadway”. A atriz chegou a contar que ficava irritada com as longas sessões de prova. “Por que tanta preocupação com essas roupas?”, pensava. Depois, quando viu tudo pronto na tela, entendeu. “Foi quando percebi: meu Deus, é por isso. Porque é brilhante.” A garota que não dava muita importância para moda acabou interpretando uma personagem cujo guarda-roupa se tornou parte da memória coletiva de uma geração inteira.
Em 2021, ao participar de um ensaio da Rodarte, contou à Vogue que passou a se interessar por roupas sustentáveis e por escolhas que não prejudiquem animais ou o planeta. Falou, também, sobre como gosta de se vestir: “É claro que gosto de me sentir e me ver bem, e aprecio coisas bonitas e a arte da moda.” Hoje, a atriz está mais interessada em entender o que a roupa significa para ela. A moda acabou encontrando um lugar que combina estética e valores.
A relação de Alicia com o envelhecimento aparece de maneira ainda mais direta quando o assunto é beleza. Em uma entrevista ao site Byrdie em 2025, ela contou que nunca havia feito Botox, preenchimentos ou cirurgia plástica. A escolha, segundo ela, está ligada à curiosidade sobre o próprio processo de envelhecimento. “Eu tenho linhas. Estou curiosa para ver o que acontece. Gostaria de ser um exemplo de como isso pode ser”, afirmou.
A atriz também fala sobre a pressão estética sobre mulheres, sobretudo para as que trabalham diante das câmeras. “À medida que envelheço, percebo que não pareço com todo mundo”, disse. “Mas não perco o sono por isso. Não dou tanta prioridade a esse tema. Estou me divertindo demais.” Esse é um dos depoimentos dela que mais mexeram comigo, afinal, depois de uma carreira inteira sendo observada, fotografada e associada a um rosto que ficou conhecido na adolescência, é preciso coragem para afirmar “Quero ver como vou ficar”.
Na série anunciada pelo Paramount+, ambientada trinta anos depois do filme, Cher aprendeu a administrar a vida adulta. Até que a filha chega ao ensino médio e tudo fica imprevisível. Aos 17 anos, Cher acreditava que conhecimento, dinheiro, estilo e confiança eram suficientes para levar a vida. Aos quase 50, ela vai descobrir uma situação muito mais difícil de controlar: a filha é uma pessoa diferente dela.
Essa é uma experiência que muitas mulheres reconhecem. A maternidade coloca a gente diante de versões mais jovens de nós mesmas, mas também mostra que os filhos não vieram para repetir nossas histórias. Eles fazem escolhas próprias, têm referências diferentes e obrigam a gente a rever certezas que pareciam definitivas.
Em entrevista à Vogue EUA, Alicia contou que, com o passar dos anos, passou a enxergar a Cher de outra maneira: “Acho que as pessoas se identificam com o coração dela e com sua disposição para mudar e crescer.” E é justamente essa capacidade de mudança que pode explicar por que uma personagem criada para uma adolescente de 1995 faz sentido em uma versão para 2027.
Para mim, o mais interessante de trazer a história para o presente é o fato de que Alicia não precisa escolher entre ser a garota de Clueless e a mulher de 50. E Cher também não precisa voltar a ter 18 anos para continuar sendo Cher. A produção já me ganhou aí! A indústria cinematográfica está entendendo que a maturidade não apaga as versões anteriores de nós mesmas. Que envelhecer faz parte da vida. E que ainda existe muita história para ser contada.

