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Como Charli xcx se transformou em atriz para ‘Eruption’


No remix da faixa “B2B”, a pop star Charli xcx afirma dar a volta ao mundo (“quinze países em quatro dias”) e conta que precisa correr para um set de filmagem assim que termina o show, para atuar até o nascer do dia. “Estou acabada, porra, mas amo isso”, declara, antes de constatar: “Ah, merda, acho que consegui.”Conhecida por suas letras íntimas e sem filtro, a cantora britânica não hesitou em narrar sua primeira experiência como atriz no exato momento em que dava os primeiros passos diante da câmera de Pete Ohs, cineasta americano cujos filmes de orçamento irrisório são adorados por festivais como o prestigioso Sundance.

Rodado com menos de 100 mil dólares, Eruption é o resultado do encontro entre o diretor e a popstar, e de uma trupe de figuras mais ou menos conhecidas do pequeno meio do cinema independente, entre elas o produtor e ator Jeremy O. Harris e a atriz polonesa Lena Góra. Juntos, esse grupo se encontrou, no auge do verão de 2024, durante duas semanas em Varsóvia. Ou melhor, duas semanas menos quatro dias para Charli xcx, alcançada pelo sucesso descomunal de seu álbum brat e obrigada a embarcar para gravar uma publicidade da Converse.

Pouco importa: o filme, rodado em ordem cronológica e já amplamente alimentado pela improvisação, seguiu sem sua personagem, cuja ausência desvia a trajetória narrativa. “Costumam me perguntar se me surpreendo com o que acontece nas minhas filmagens”, conta Pete Ohs, encontrado em Paris na véspera da estreia do filme nas salas francesas. “Mas, para falar a verdade, nunca espero nada, sempre me deixo levar. Por isso nunca sou pego de surpresa!” Esse otimista incorrigível, apaixonado pela Nouvelle Vague, assina com Eruption um filme de beleza desconcertante, para correr e ver no cinema. Encontro.

Lena Góra e Charli xcx em Eruption, de Pete Ohs (2026). — Foto: Divulgação
Lena Góra e Charli xcx em Eruption, de Pete Ohs (2026). — Foto: Divulgação

Foi o amor que, pela primeira vez, guiou os passos de Pete Ohs em terras polonesas, mais precisamente em Varsóvia. Ele, que esperava descobrir uma cidade acinzentada onde o concreto reina, deparou-se com um universo colorido, realçado pelo verde no menor de seus cantos. Sua imagem da Europa levou um abalo. Embalado, sem dúvida, pelas ilusões próprias de todo idílio recém-nascido e por seu amor por certo cinema da errância amorosa (“Vivi um pouco o meu próprio Antes do Amanhecer”, observa), o diretor deixou o cenário marcar seu espírito a ponto de cogitar filmar ali.

Mas, na verdade, Varsóvia não é o único ponto de partida de Eruption. Para Pete Ohs, tudo começa quando ele ouve falar de um homem com as férias bagunçadas por uma erupção vulcânica, suficiente para cancelar todos os voos previstos e arruinar sua agenda. “É que adoro metáforas”, sorri o diretor. “E o suco narrativo dessa história é ótimo, é o pretexto ideal para imaginar personagens presos em algum lugar.”

No primeiro encontro com Charli xcx, a poucos dias do lançamento do álbum brat (que alça a cantora ao posto de estrela internacional), Pete Ohs ainda não tem ideia precisa do rumo que seu filme tomará. Sentado com a artista em um bar, ele expõe suas ambições, o bastante para interessar a mulher à sua frente, para quem o cinema havia se tornado um horizonte altamente desejável. Os dois conversam então sobre suas respectivas visões do amor e dos vulcões, e de como estes últimos podem ser vistos como metáforas das relações humanas. “São, ao mesmo tempo, muito excitantes, poderosos e destrutivos”, comenta o cineasta.

Em paralelo, ele, que ainda morava em Varsóvia, começava a ver seus sonhos europeus se esfarelarem. Suas ilusões de uma nova vida, longe dos próximos ou do passado, murchavam. Nesse sentido, Eruption transpira uma melancolia ao mesmo tempo doce e amarga, herdada de uma Agnès Varda (Pete Ohs cita Cléo das 5 às 7 entre as inspirações do filme) ou de um Jacques Rivette. Curiosamente, é desses mesmos materiais que o longa extrai sua imagética pop, talvez seu acerto mais bonito.

Charli xcx e Will Madden em Eruption, de Pete Ohs (2026) — Foto: Divulgação

São closes de flores com pétalas abertas que abrem Eruption. Uma explosão de cores, acompanhada de uma trilha sonora como que retirada diretamente dos anos 1970 (concebida por Isabella Summers e Charles Watson). Uma identidade sonora e visual que transporta, já nos primeiros segundos, para o cinema disruptivo de uma Agnès Varda (citada anteriormente), em especial para A Felicidade, longa que, por trás de sua moldura bucólica, esconde uma feroz crítica à vida doméstica burguesa e monogâmica. Se Eruption não é tão frontal em sua abordagem, ele se permite, por meio de seus personagens à deriva, contar certa errância afetiva. Bethany (Charli xcx) vai a Varsóvia com o namorado (Will Madden), que se prepara para pedi-la em casamento. A ocasião para reencontrar uma antiga amiga (Lena Góra) e, talvez, fugir de uma relação já murcha.

Essa anarquia, que no filme diz respeito apenas aos sentimentos, repercute na filmagem, na organização das equipes. “Gosto de eficiência”, diz Pete Ohs. “Quero que cada um faça várias coisas ao mesmo tempo. Eu sou o diretor, mas também cuido da fotografia e do som. Meus intérpretes são também roteiristas, fazem o próprio cabelo, a própria maquiagem. Estão envolvidos até na cenografia, já que foram eles que pensaram seus personagens. Por isso sabem exatamente como devem ser seus espaços de convívio!”

Um método que certamente não teria desagradado Jean-Luc Godard, nem mesmo François Truffaut, cujo Jules e Jim é outra grande referência de Eruption.

À maneira dos filmes franceses do início dos anos 1960, Eruption é narrado por uma voz em off: a de um homem polonês, bem mais velho que os protagonistas que povoam a história. “É o sogro de um amigo do meu produtor”, explica Pete Ohs. “Pensamos nisso na pós-produção, para acrescentar uma camada de humor e de sabedoria ao filme. Acompanhamos personagens que tentam compreender a vida, que atravessam períodos de transição e aprendem lições importantes sobre o que significa fazer escolhas e ferir os outros. Por isso, ter a voz de uma pessoa mais velha, alguém que talvez já tenha vivido tudo isso, me parecia muito certo.”

A justeza, ou o ponto de equilíbrio entre o humor e a gravidade: eis um dos pontos fortes de Eruption, que se recusa o tempo todo à facilidade. Os vulcões são o fio narrativo do filme? Eles nunca aparecerão na tela. Uma atriz deixa o set antes do fim das filmagens? Sua personagem vira um fantasma cujos últimos passos assombram quem ficou, ao menos até a próxima erupção.

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