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Como perder o medo de ficar invisível?


Durante mais de três décadas escrevi sobre envelhecimento, autonomia e felicidade. Pesquisei mulheres e homens nonagenários e centenários, procurei entender como é possível inventar uma “bela velhice”. Acabei criando uma palavra que se tornou central nas minhas pesquisas: “velhautonomia”. Não como independência absoluta, impossível para qualquer pessoa, mas como a possibilidade de continuar sendo protagonista da própria vida.

Hoje, experimentando as contradições da minha própria “bela velhice”, descobri que uma coisa é pesquisar a velhice; outra é sentir o peso simbólico de ser considerada velha. Tenho pensado muito sobre uma pergunta: por que uma idade pode provocar tanto medo e tanta vergonha? Não é apenas o número. É todo o estigma e preconceito que existem dentro dele.

Minha mãe morreu aos 62 anos. Meu pai aos 68. Meu irmão do meio aos 50. Minha melhor amiga recebeu o diagnóstico de Alzheimer antes dos 70. Durante muito tempo, envelhecer com saúde física e mental parecia uma possibilidade distante para mim, quase improvável.

Tenho saúde, continuo escrevendo, pesquisando, trabalhando, criando projetos significativos, amando, fazendo exercícios, rindo, aprendendo. Nunca me senti tão produtiva. Nunca me senti tão dona de mim. Ao mesmo tempo, uma questão me angustia: e quando eu não puder mais fazer tudo isso? A velhice ainda aparece como sinônimo de invisibilidade social, como se envelhecer fosse desaparecer aos poucos. Esse é o meu medo mais profundo. Não é o medo da idade, mas o medo de deixar de existir e de perder a autonomia. Não quero romantizar a velhice. Não quero fingir que não existem perdas, doenças ou medos. Apenas quero defender uma ideia bastante simples: envelhecer não deveria significar se tornar invisível.

Aos 40 anos, uma dermatologista me recomendou dezenas de procedimentos para que eu não ficasse “velha e feia”. Não fiz nada do que ela recomendou, mas demorei para perceber que a verdadeira preocupação não era parecer jovem, era continuar sendo eu mesma. Aos 50, pensava no que ainda construiria. Aos 60, comecei a inventar minha “bela velhice”. Agora, uma categoria ocupa cada vez mais espaço no meu dia a dia: legado.

Durante muito tempo perguntei: “O que ainda vou fazer?” Hoje pergunto: “O que vai ficar de mim?”

Por isso, a criação da Casa da Bela Velhice se tornou central para mim. Ela nasceu do propósito de preservar a minha trajetória, a minha obra, o meu legado. Não quero deixar apenas objetos ou documentos. Quero deixar pesquisas, ideias, possibilidades. Meus diários, escritos durante mais de cinco décadas, guardam uma vida inteira de dúvidas, descobertas, medos, e transformações. Eles retratam uma mulher que desabrochou ao longo do tempo.

A mulher de 16 anos que começou a escrever diários; a mulher de 40 que teve medo de ficar velha e feia; a mulher de 60 que começou a construir uma “bela velhice”… Todas continuam existindo na mulher que sou hoje, cheia de rugas, histórias, memórias, desejos, projetos e perguntas.

Sei que é paradoxal defender a construção de uma “bela velhice” e, ao mesmo tempo, sentir medo e vergonha quando o olhar do outro confirma a inevitável passagem do tempo. Acredito que essa contradição é justamente o lugar mais profundo e necessário para falar sobre “bela velhice”. A velhice traz a consciência da finitude, mas também uma liberdade maravilhosa. Não me tornei invisível. Continuo existindo com minhas rugas, meus medos, minhas vergonhas, meus projetos e minha vontade de inventar uma “bela velhice”.



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