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Conheça os ‘fitness dating apps’, aplicativos de relacionamento que têm a atividade física como algoritmo


Primeiro veio a popularidade dos clubes de corrida. Depois, dos grupos de ciclismo e o boom das competições de endurance. Agora, a cultura fitness ganha mais um desdobramento: os aplicativos de relacionamento voltados para aqueles que enxergam o exercício físico não apenas como hobby, mas como parte essencial do seu estilo de vida. De Nova York a São Paulo, plataformas especializadas começam a atrair usuários interessados em encontrar alguém que compartilhe a mesma rotina de treinos. A tendência é sintomática: enquanto bares, baladas e até os apps de encontro tradicionais perdem espaço entre parte da Geração Z, as comunidades esportivas se consolidam como novos ambientes de socialização.

O movimento acompanha uma transformação mais ampla na forma como as pessoas se relacionam. Em vez de aproximar usuários apenas por localização ou preferências genéricas, os chamados fitness dating apps (ou, em português, aplicativos de relacionamento fitness) apostam na ideia de que hábitos de treino, modalidades esportivas e objetivos de bem-estar podem ser indicadores de compatibilidade tão relevantes quanto gostos musicais ou afinidades culturais.

Surf, parceiro oficial da World Surf League (WSL) e do HYROX — Foto: Divulgação
Surf, parceiro oficial da World Surf League (WSL) e do HYROX — Foto: Divulgação

Entre os exemplos gringos mais conhecidos está o Ateam, que se apresenta como um dos primeiros aplicativos de relacionamento por convite voltado para pessoas que priorizam a saúde. Já o Leg Day aposta na geolocalização para conectar usuários que frequentam exatamente a mesma academia. O Surf, por sua vez, ganhou destaque ao focar em estilos de vida ativos e hobbies esportivos, tornando-se parceiro oficial da World Surf League (WSL) e do HYROX. Em comum, essas plataformas idealizadas nos Estados Unidos têm a ideia de criar oportunidades para que as pessoas se conheçam em movimento, seja durante uma corrida, uma aula coletiva ou até uma competição esportiva.

Embora ainda seja um nicho relativamente pequeno por aqui, o mercado brasileiro já dá seus primeiros passos. Aplicativos internacionais como Datefit e o próprio Surf já funcionam no país, enquanto iniciativas nacionais também começam a surgir. É o caso do Gymatch, lançado em outubro de 2024. A ideia nasceu de uma observação pessoal dos cofundadores: não são poucas as vezes em que uma pessoa se interessa por outra durante o treino, mas evita qualquer abordagem por receio de interromper a atividade ou causar desconforto.

Interface do Gymatch — Foto: Reprodução

Em entrevista à Vogue Brasil, Arthur Imanishi, cofundador da plataforma, conta que, antes do lançamento, foi realizada uma pesquisa com mais de mil praticantes de musculação e corrida para entender se havia espaço para um aplicativo focado exclusivamente na comunidade fitness. “Chegamos a dados muito interessantes. Cerca de 89% das pessoas já se atraíram por alguém durante o treino, e 90% delas não chegaram à abordagem porque não sabiam se o interesse era recíproco e tinham receio de atrapalhar”, diz ele.

Os números de crescimento da plataforma também sugerem que a demanda existia. “Encerramos o primeiro mês com cerca de três mil usuários aprovados. Em novembro chegamos a 10 mil, em dezembro 20 mil, janeiro 30 mil, fevereiro 35 mil, março 40 mil e atualmente estamos com 54 mil usuários ativos”, revela Arthur.

Diferentemente dos aplicativos tradicionais, o Gymatch utiliza informações relacionadas à rotina esportiva para sugerir conexões. “Nosso algoritmo de recomendação se baseia em métricas de musculação e corrida, e nosso sistema, baseado em inteligência artificial, consegue cruzar pessoas que têm atividades em comum”, explica. Além do sistema de matches, ele também conta com um feed de treinos, no qual os usuários compartilham e interagem com a comunidade.

Para o empreendedor, de 21 anos, o sucesso e aceitação do app estão diretamente ligados à valorização crescente da saúde e do bem-estar. “As pessoas querem se conectar com outras que vivem o mesmo lifestyle. Acredito que esse nicho vai continuar crescendo naturalmente nos próximos anos, porque cada vez mais gente está cuidando da saúde e buscando parceiros que compartilhem desses hábitos”.

Nos bastidores, inclusive, a plataforma já coleciona histórias de relacionamentos que começaram por meio de um match esportivo. “Acompanhamos o caso de uma usuária desde o primeiro encontro. Ela nos contou quando saiu para o primeiro date, depois para o segundo, o terceiro, e recentemente recebemos a notícia de que ela se casou com a pessoa que conheceu no aplicativo”, relembra.

O treino como palco para o primeiro encontro

A ascensão dos aplicativos fitness acontece em paralelo a outra transformação cultural: o exercício físico passou a ocupar um papel cada vez mais importante na vida social das novas gerações. Segundo o 12º Relatório Anual de Tendências Esportivas do Strava, elaborado a partir de bilhões de atividades registradas por mais de 180 milhões de usuários em 185 países, pessoas da Geração Z são significativamente mais propensas do que a Geração X a usar o esporte para conhecer pessoas com interesses em comum. Quando o assunto é marcar um primeiro encontro durante uma atividade física, 46% afirmam que aceitariam sem hesitar.

O próprio Strava, criado originalmente para monitorar corridas, pedaladas e outras atividades esportivas, tornou-se uma espécie de rede social para atletas. Em 2025, o número de novos clubes criados dentro da plataforma quase quadruplicou e chegou a um milhão. Os grupos de caminhada lideraram esse crescimento, seguidos pelos clubes de corrida, ampliando as oportunidades de interação presencial entre usuários. Na prática, muitas dessas comunidades acabam funcionando como ambientes de socialização tão eficientes quanto os aplicativos de namoro.

Tinder e Strava lançaram o Tinder Solemates Challenge — Foto: Divulgação

Gigantes do relacionamento também perceberam essa mudança de comportamento. Nos últimos anos, Tinder e Bumble passaram a destacar atividades físicas e modalidades esportivas nos perfis dos usuários como forma de aumentar as chances de compatibilidade. Em maio do ano passado, inclusive, Tinder e Strava lançaram o Tinder Solemates Challenge, iniciativa criada para incentivar conexões fora das telas. A proposta era simples: caminhar ou correr 21 quilômetros ao lado de outra pessoa para experimentar uma conexão em movimento. Entre as recompensas oferecidas estavam experiências gastronômicas, sessões de bem-estar e até um ano de assinatura do Tinder Gold.

Lá em 2024, Adidas e Bumble também anunciaram uma parceria, mas esta era voltada para combater a chamada “gymtimidation”, termo utilizado para descrever a ansiedade ou intimidação sentida por muitas pessoas em ambientes de academia. Como parte da iniciativa, o Bumble lançou um selo fitness que permitia encontrar parceiros de treino ou usuários interessados em atividades semelhantes.

O crescimento dos fitness dating apps parece refletir uma mudança mais ampla no que as pessoas procuram ao conhecer alguém. Em vez de depender exclusivamente de perfis cuidadosamente editados, a nova lógica privilegia experiências compartilhadas no mundo real. Afinal, correr uma prova, completar um circuito intenso ou participar de uma aula coletiva pode revelar muito mais sobre disciplina, rotina, prioridades e estilo de vida do que uma longa troca de mensagens. Se os aplicativos de relacionamento transformaram o amor em um swipe, a nova geração de plataformas fitness aposta em uma premissa diferente: encontrar alguém que acompanhe o seu ritmo, dentro e fora dos treinos.

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