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Criador dos ícones Angel e Light Blue, Olivier Cresp apresenta o novo capítulo da perfumaria da Dolce & Gabbana


Em um mercado que costuma associar perfumaria à francesa e que, nos últimos anos, voltou os holofotes para a opulência das fragrâncias árabes e para a criatividade dos novos nomes asiáticos, a Itália constrói seu próprio caminho com criações que buscam inspiração na paisagem e na cultura abundante e variada do país e seus ingredientes, claro. Um dos maiores exemplos disso é o Light Blue, da Dolce & Gabbana, fragrância criada por Olivier Cresp em 2001 e, até hoje, um best-seller não só da casa, mas mundial.

A colaboração de Olivier com a etiqueta, porém, não parou por aí. Ao longo dos anos, o perfumista assinou novas interpretações dentro da família Light Blue e, em 2023, deu início a uma nova história com a franquia Devotion. Inspirada pelo amor como uma força capaz de atravessar o tempo, a linha ganhou um segundo capítulo com My Devotion, em 2025, e agora chega à sua terceira criação com Your Devotion Eau de Parfum Intense.

A franquia Devotion, da Dolce & Gabbana — Foto: Divulgação
A franquia Devotion, da Dolce & Gabbana — Foto: Divulgação

Para além do melão e da mandarina sicilianas que abrem o perfume, o sul da Itália inspira também a narrativa visual do lançamento. Dirigida por Gordon von Steiner, a campanha foi filmada em Nápoles e estrelada por Irina Shayk e Michele Morrone. Entre vielas de pedra e fachadas antigas, a cidade funciona como extensão da própria fragrância e reforça a relação do perfumista com uma paisagem e uma cultura que conhece de perto.

Nascido em Cannes e criado em Grasse, reconhecida mundialmente como a capital do perfume, Olivier cresceu em uma família envolvida nesse universo. Seu avô e seu pai viajavam até Reggio di Calabria para comprar bergamota, limão, grapefruit, laranja e matérias-primas que depois eram revendidas para as grandes casas de perfumaria. “Aos 7 ou 8 anos, já sabia que seria perfumista. Não havia outro trabalho para mim”, contou ele em entrevista à nossa editora de beleza e wellness, Bárbara Öberg, que desembarcou em Nápoles para conversar, in loco, com Cresp sobre sua relação com a perfumaria italiana e a criação de Your Devotion.

Olivier Cresp — Foto: Divulgação

Vogue Brasil: Olivier, como começou sua relação com a Dolce & Gabbana?

Olivier Cresp: Tudo começou com Light Blue, em 2001. Era um projeto pequeno, mas foi um enorme sucesso, que veio a se consolidar como um ícone. Depois, tivemos a ideia que deu início à construção de Devotion, durante um jantar no DG Martini, restaurante da Dolce & Gabbana. Ao final, havia uma sobremesa magnífica, um panetone, que me levou a trabalhar em uma fragrância inspirada nesse pão doce, sem seu aspecto açucarado, e baseada na baunilha. A franquia é outro grande sucesso, apreciada no mundo todo.

Vogue: Como você construiu Your Devotion em relação às outras fragrâncias da família?

Olivier: Todas elas têm ingredientes em comum, que são quase invisíveis. Existe aquela sensação de toffee com baunilha por baixo, mas há também o limão no topo presente nas três fragrâncias. Desta vez, usei bastante ingredientes cítricos, como a mandarina siciliana, além de uma sensação frutada e suculenta vinda do melão, uma tentativa de capturar a atmosfera do sul da Sicília. Depois, há a flor de laranjeira, que pode ser encontrada por todo o Mediterrâneo. O mar Mediterrâneo, aliás, foi uma grande inspiração. Para o lado floral e para dar força à composição, usei gardênia, em vez de tuberosa ou jasmim, que são mais suaves. Na base, há uma sensação cremosa dada pelo sândalo, junto com musgo de carvalho e uma bela baunilha de Madagascar. É uma fragrância contrastante. Ela me lembra o filme “Imensidão Azul” [dirigido por Luc Besson e lançado em 1988], que é incrível.

Vogue: Your Devotion tem um acorde lactônico, tendência que está ganhando espaço na perfumaria. Por que você decidiu incluir essa nota?

Olivier: Ela tem um efeito poderoso. As notas frutadas e lactônicas remetem a frutas, como o coco, que é muito forte. É uma tendência, é jovem, agrada à geração Z e é fácil de entender. Também traz boas memórias, como quando você bebe uma água de coco ou, quem sabe, uma piña colada.

Irina Shayk e Michele Morrone, estrelas da campanha de Your Devotion, clicada em Nápoles — Foto: Divulgação

Vogue: Antes de Devotion, sua primeira grande colaboração com a Dolce & Gabbana foi Light Blue. A que você atribui o sucesso da fragrância?

Olivier: Trabalhar com ingredientes puros, ter frescor no topo e fazer algo muito fácil de entender, com poucas facetas, apenas limão, maçã e uma nota amadeirada seca por baixo. Isso faz a diferença. E o nome Dolce & Gabbana, claro, também é muito relevante. Esse sucesso é o resultado do alinhamento de todos os planetas.

Vogue: O que você aprendeu trabalhando tão próximo à dupla Domenico e Stefano?

Olivier: Eles gostam de perfeição. A grande questão é que eles trabalham nos detalhes e é justamente neles que você consegue a perfeição e, por consequência, o sucesso. Normalmente, eles gostam de trabalhar com italianos, mas, apesar de francês, nasci em Cannes e cresci em Grasse, a apenas 50 quilômetros da fronteira.

Vogue: Como surgiu a ideia para Angel, uma das suas maiores criações? Houve um briefing específico?

Olivier: Não houve briefing. Era apenas [Thierry] Mugler. Antes de fazer uma encomenda para quatro ou cinco casas de perfumaria, ele quis sentir uma ideia de cada perfumista. Precisava ser a fragrância mais forte do mundo. Então, tirei uma da minha gaveta que chamava Pachu, era patchouli com baunilha. Muito simples, muito, muito forte. Ele ficou interessado e voltou uma semana depois.

Vogue: Se você criasse Angel hoje, faria alguma coisa diferente?

Olivier: Provavelmente. Quando criei Angel, em 1992, estava abrindo uma porta, descobrindo um novo território: o gourmand. E não fiz isso por acaso. Foi a primeira vez que trabalhei com café e chocolate e tive alguns problemas com solubilidade. Hoje, temos novas tecnologias e algumas extrações especiais, como a feita por CO₂, que facilita a criação dos gourmands. Com ela, podemos usar ingredientes puros e totalmente solúveis. Além disso, o mercado é 100 vezes maior do que há três décadas. Existe uma grande evolução, mas acho que foi um enorme sucesso. Angel está entre as fragrâncias mais importantes da história, é um ícone.

Vogue: Para você, onde mora a sofisticação das fragrâncias gourmand?

Olivier: Existe algo que devemos evitar nesse território, a sensação pegajosa. As fragrâncias gourmand pouco elaboradas costumam ser pegajosas, especialmente quando há muita baunilha, e isso não proporciona uma boa sensação. O interessante é criar algo bonito com café, chocolate, cacau, frutas, manga, maracujá, mas sem esse sensorial incômodo. No meu estilo, gosto de criar fragrâncias que defino como fluffy.

Vogue: A que você atribui essa grande onda de lançamentos de perfumes gourmands?

Olivier: Hoje, de 10 fragrâncias, sete são gourmands. Isso acontece no mundo todo. Estive na Índia outro dia e, lá, as pessoas estão loucas por gourmand, por confeitaria, especialmente as gerações mais jovens. É muito interessante. Tenho trabalhado, por exemplo, com acordes de macarons de rosas e cupcakes de limão. É fantástico e sinto que estamos apenas no começo dessa história.

Vogue: Você também tem sua própria marca, a Akro. O que a liberdade de criar para si mesmo permite fazer de diferente em relação aos projetos desenvolvidos para outras marcas?

Olivier: Parto da mesma paleta, com as mesmas moléculas e os mesmos ingredientes, mas trabalhar para mim mesmo faz com que eu ouse muito mais e assuma mais riscos. É como apostar. Às vezes lanço fragrâncias estranhas para um grupo muito pequeno de pessoas. Não estou procurando os 98% dos consumidores, mas os 2% que são aficionados. É o mesmo prazer, mas, quando trabalho para mim mesmo, tenho mais agilidade para tomar decisões. Na empresa, somos cerca de 20 pessoas, incluindo minha filha, uma startup moderna.

Vogue: Você parte das tendências do mercado para criar?

Olivier: Não olho para o mercado. Tento captar as próximas tendências ou até mesmo lançá-las, mas não consigo prever daqui cinco ou 10 anos, as próximas tendências. Your Devotion, por exemplo, é uma fragrância muito alinhada com seu tempo. Por quê? Porque é muito cremosa e leitosa também, e essa é a tendência deste ano, do próximo e do seguinte. Gosto quando consigo surfar uma onda e me encontrar com novas tendências, mas não me preocupo em agradar multidões. Minha preocupação mora em fazer uma fragrância bonita para que as pessoas se interessem por ela, a usem, recebam elogios e voltem a comprá-la.

Vogue: O que ainda mantém sua paixão pela perfumaria depois de tantos anos?

Olivier: O que queima dentro do meu corpo é a paixão. Sou apaixonado. Quando era jovem, lembro que encontrava cerca de mil novas ideias por ano. Hoje, é muito melhor ter três, quatro ou cinco ideias e me concentrar nelas.

Vogue: Existe uma fragrância criada por outro perfumista que você gostaria de ter criado?

Olivier: Claro! Existem muitos perfumes bons no mercado. Shalimar [da Guerlain] teria sido um sonho para mim. Eau Sauvage, da Dior, também é uma fragrância brilhante, assim como Chanel Nº 5. Gosto de olhar para o passado para observar e medir a evolução ao longo das décadas.

Vogue: Tem algo que você ainda sonha em criar?

Olivier: Carrego algumas frustrações, porque temos belos ingredientes naturais e belas moléculas, mas ainda há coisas faltando. A primeira é o cheiro de areia. Quando você caminha na praia e o tempo está muito quente, seus pés queimam, e então você pula no mar. Existe aquela sensação mineral que eu ainda não consigo reproduzir. Se alguém me der uma molécula que consiga reproduzir esse tipo de ambiente, ficarei muito feliz. A segunda é conseguir moléculas de vinho: vinho tinto, vinho branco, vinho rosé. Hoje é praticamente impossível.

Vogue: Ao longo de todos esses anos, quais foram as grandes mudanças que você percebeu no mercado?

Olivier: As grandes mudanças aconteceram especialmente depois da covid. O que nos faz evoluir são as crises, elas mudam a nossa mentalidade. Desde então, estamos trabalhando muito mais rápido, os clientes querem as coisas sob demanda. Vemos muitos lançamentos no mercado e isso vai mudar muito novamente em breve com a inteligência artificial. Por isso, precisamos nos adaptar. Caso contrário, vamos perder o controle.

Vogue: Em relação à inteligência artificial, você sente que ela ameaça a perfumaria ou que pode ser uma ferramenta complementar?

Olivier: Nós trabalhamos com inteligência artificial há mais de cinco anos. Eu a vejo como uma grande ajuda, especialmente para facilitar questões de segurança e regulamentação. Ela é capaz de corrigir milhões de fórmulas. É uma grande ajuda, mas não tem cérebro ou ideias. Ela tem memórias, muitas informações, mas não tem consciência.

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