A estreia de Matthieu Blazy na Chanel aconteceu há apenas um ano. É impossível não se maravilhar com a forma como ele conquistou o coração das mulheres apaixonadas por moda nesse curto período. O frenesi em frente às lojas da maison pode ter arrefecido nesta temporada, mas a prova do carinho coletivo por Blazy está por toda parte, das primeiras filas às ruas. Vi uma jovem andando de bicicleta pela Place de la Concorde ontem à noite usando sapatos de salto alto Chanel com bico arredondado. Estava quase escuro, mas não havia como confundi-los.
Para um estilista, a Chanel é o maior prêmio da moda, uma empresa independente, de capital fechado, com uma rica história que remonta a mais de um século. Há privilégios na posição de Blazy, e sem dúvida também pressão, mas tudo o que se vê é prazer. “Sem querer filosofar muito”, disse ele, “mas acho que há espaço para poesia, beleza, alegria, e isso é um bom remédio para tempos sombrios. Acho que a moda deveria proporcionar isso às mulheres.” Deixe que outros designers vivam de um ar de distanciamento e descolamento. Pode parecer quase piegas dizer isso, mas Blazy está trazendo a alma de volta à moda.
Coco voltou a ser o centro de sua narrativa nesta temporada. Ele contou que se deparou com uma conversa que ela teve com Louise de Vilmorin (que posteriormente trabalhou na autobiografia da estilista), na qual Chanel disse: “A criança que eu fui está comigo hoje… Ninguém é mais próximo de mim do que ela. Ela me deve tudo, e eu devo a ela o que pude contribuir para a minha época”. O comentário de Chanel deu a Blazy a ideia de abordar as diferentes fases da vida dela: uma juventude passada sofrendo com as restrições da formalidade eduardiana, suas experiências vestindo roupas masculinas e a diversão que ela tinha com figurinos, e suas inovações revolucionárias em torno do tailleur descomplicado após a Segunda Guerra Mundial.
“Não é um desfile histórico”, disse ele, “é um desfile sobre as histórias da Chanel”. Mas o desfile seguiu uma ordem cronológica, acompanhando a trajetória pessoal de Coco Chanel, começando com ornamentos (bordados florais delicados, um corsage adornando o busto); passando brevemente por propostas masculinas, algumas delas desconstruídas com acabamentos rústicos, e novas versões da camisa Charvet, sucesso nas passarelas; e terminando com diversos exemplos da icônico jaqueta de ombros arredondados de Coco, usado sem camisa e com uma saia na altura do joelho ou uma minissaia com franjas. A mesma modelo, a estreante Dyanira Hurbuscher, abriu e fechou o desfile carregando a própria bolsa 2.55 da Chanel, emprestada dos arquivos Patrimoine, fechando o ciclo.
O objetivo das explorações de Blazy era deixar claro seu compromisso em fazer da Chanel um espaço para muitas mulheres de diferentes gerações, e não apenas uma visão singular e restrita delas. Ele também se dedica à modernização, assim como a própria Coco. Um grupo de peças perto do final do desfile foi o resultado de um ano de esforços para desenvolver um novo tweed, algo elástico em organza e seda rebordadas que pudesse ser “a resposta para o que significa esportivo na Chanel”. Com diferentes equipes, ele também desenvolveu novos fios e recalibrou máquinas de fabricação têxtil para que os bordados pudessem ser integrados diretamente ao processo de tricô. O vibrante conjunto amarelo de top e saia foi uma vitrine para esse conhecimento recém-desenvolvido.
Tudo isso é muita conversa técnica, no entanto, na verdade o brilho da Chanel de Blazy se resume ao seu desejo pulsante de ‘tem que ter’. Sobre esse assunto, preparem-se, senhoras: houve 83 looks no desfile e cada um deles foi acompanhado por um par de saltos diferente.

