Antes de cantar, Karinah já dançava. Era Clara Nunes na sala de casa, Morena de Angola no repeat de uma menina que ainda não sabia, mas estava ali plantando a primeira semente de um amor que viraria ofício. O samba chegou primeiro pela voz de uma mulher, e talvez por isso a cantora tenha decidido, quase duas décadas depois, devolver o gesto.
As Damas do Samba, seu novo projeto, reúne em disco e em shows homenagens a oito cantoras que sustentaram o gênero: Elza Soares, Beth Carvalho, Alcione, Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus, Leci Brandão, Jovelina Pérola Negra e a própria Clara Nunes. A estreia tem data e gesto certeiros. No dia 18 de junho, no Blue Note São Paulo, uma das homenageadas divide o palco com Karinah: Leci Brandão. “As grandes damas do samba são minha inspiração”, diz a cantora, por meio de nota. “Ter Leci Brandão dividindo o mesmo palco, nesse momento, é para mim uma verdadeira honra e bênção.”
A companhia em cena tem nome e história. Karinah é acompanhada pela Banda da Madrinha, formada por músicos que tocaram com Beth Carvalho, sob direção musical de Carlinhos 7 Cordas. O repertório vai no que a plateia canta de cor: “Se Acaso Você Chegasse“, de Elza Soares, “Mas Quem Disse Que Eu Te Esqueço“, de Dona Ivone Lara, “Água de Chuva no Mar“, de Beth Carvalho, “Figa de Guiné“, de Alcione, e “Embala Eu / Marinheiro Só“, de Clementina de Jesus, entre outras. Em 3 de julho, o projeto desembarca no Blue Note Rio, com uma participação especial ainda em segredo.
O álbum fica para o segundo semestre e abre por onde tudo começou. A faixa de largada é “Você Passa Eu Acho Graça“, de Ataulfo Alves e Carlos Imperial, que Clara Nunes gravou em 1968. O círculo, ali, se fecha.
Quem Karinah escolhe homenagear conta muito sobre quem ela é. Começou a cantar aos 13 anos, passou pela escola dos bares e das festas e foi parar no Rio de Janeiro, onde gravou o primeiro disco, Você Merece Samba. Pelo caminho, juntou madrinhas e padrinhos de peso. Dona Ivone Lara lhe pediu que chegasse “com o coração no miudinho”. Zeca Pagodinho a apadrinhou e produziu Meu Samba, lançado em 2025, prometendo fazer por ela o que Beth Carvalho fez por ele. Alcione a chamou para abrir a turnê de cinquenta anos de carreira.
Aluna do maestro Letieres Leite, foi na Bahia que ela entendeu que sua voz serviria ao samba. De lá para cá, levou o gênero a palcos de fora, incluindo o Festival de Montreux. Na Mangueira, virou madrinha de projeto social e musa da escola, e é do verde e rosa que tira a medida do trabalho que agora finaliza, feito de referência, reverência e estudo, como ela mesma define. “Cantar para mim é missão. Cantar samba para mim é devoção”, resume. “E homenagear as mulheres que pavimentaram o chão que hoje eu piso com humildade é a minha paixão.”
As Damas do Samba, com Karinah
Blue Note São Paulo, 18 de junho de 2026, com participação de Leci Brandão
Blue Note Rio, 3 de julho de 2026
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