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Luana Vitra leva instalação à Pinacoteca em parceria com a Chanel


Luana Vitra inaugura neste sábado (05.09) a instalação monumental “Bandeira Branca” no Octógono da Pinacoteca Luz, marcando a segunda edição do programa anual de residência para mulheres artistas em parceria com a Chanel. A obra utiliza materiais como facões, dormentes de trilhos e terras-raras para propor uma reflexão sobre guerra, mineração e as marcas da exploração territorial.

Nascida em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, Vitra cresceu entre a indústria e a natureza, experiência que atravessa uma pesquisa artística profundamente ligada aos minerais. Para ela, essas matérias não são apenas elementos que compõem suas obras, mas uma maneira de observar e compreender o mundo. “Eu vejo o mundo com os olhos e com a sensibilidade dos minerais”, diz à Vogue.

Em “Bandeira Branca”, essa perspectiva encontra nas terras-raras um dos seus pontos de maior tensão. O conjunto de 17 elementos químicos, fundamental para tecnologias contemporâneas, aparece na obra como uma espécie de matéria estratégica para o futuro. Vitra as compara à pólvora, outro recurso que, em diferentes momentos da história, esteve ligado à disputa por poder e território. “As terras-raras são uma espécie de nova pólvora”, afirma. A questão, para ela, não está apenas no que esses materiais representam hoje, mas em quem terá controle sobre eles amanhã.

O próprio título da instalação desloca uma imagem conhecida. A bandeira branca pode representar rendição, mas também é um símbolo de trégua, um gesto que interrompe o conflito para abrir espaço à negociação. No centro do Octógono, uma arma aponta simultaneamente para a terra e para o céu. É, nas palavras da artista, uma “faca de dois gumes”: ao apontar uma arma para o outro, também apontamos para nós mesmos. “Nós guerreamos entre nós, mas no fim das contas todas as guerras que travamos são essencialmente contra a terra”, afirma. “Na obra, a bandeira branca sai exatamente da Terra, é esse corpo que pede paz.”

A escolha do Octógono também carrega um significado particular. O espaço, um dos mais importantes da Pinacoteca para a produção escultórica brasileira, já recebeu obras de artistas como Leonilson, Lygia Clark e Adriana Varejão. Vitra conta que há muito tempo desejava apresentar seu trabalho ali e entende a chegada ao espaço como uma forma de entrar em uma história da qual sempre quis fazer parte. “Expor no Octógono é algo que me inscreve na história da escultura no Brasil”, diz. “É uma grande honra, uma grande responsabilidade e também muito especial poder imprimir os meus gestos nas memórias que esse espaço vai carregar.”

A partir da mineração e das disputas em torno dos recursos naturais, “Bandeira Branca” olha para um futuro que, para Vitra, já está sendo decidido no presente. Em um momento em que o Brasil discute a exploração de suas reservas de terras-raras, a artista chama atenção para a escolha entre repetir uma lógica histórica de exploração ou construir outras possibilidades para o uso de uma riqueza que pode ser estratégica para o país. Confira abaixo a entrevista da Vogue com Luana .

Vogue Brasil: Como você enxerga o envolvimento entre moda e arte?

Luana Vitra: São universos intimamente interligados. Enquanto na arte compomos uma imagem para o espaço, com a moda compomos uma imagem de nós mesmos. Na posição de artista, saber compor a si mesmo de forma que sejamos capazes de carregar a densidade, a profundidade e a beleza das nossas próprias ideias é algo muito importante. Toda imagem que criamos está comunicando algo, e em alguma medida, a primeira imagem que compomos diariamente é, de fato, a forma como a gente se apresenta. Então, são universos que estão a serviço de um mesmo movimento: fazer um pensamento circular através da visualidade. Ao mesmo tempo, também vejo outras camadas nessa relação. Por exemplo, eu fiz uma instalação em que uma parte foi inspirada em uma sobreposição de tecidos que eu vi em uma roupa. Essa sobreposição criava uma transparência que eu achei que seria interessante ter nessa obra. Então, eu poderia dizer que também aprendo muito com a inteligência compositiva presente na moda.

Vogue Brasil: O que você espera vivenciar na residência com a Chanel?

Luana Vitra: Residência é um espaço para o qual eu geralmente não levo muitas expectativas, porque, ao meu ver, a coisa mais mágica em uma residência é exatamente o susto de se encantar por algo completamente inesperado, aprender algo que não se imaginava ou, de repente, começar a pesquisar uma coisa que, a princípio, nem passava pela sua cabeça. Então, talvez, minha única expectativa seja realmente estar lá, ter desse espaço o melhor que ele pode me oferecer e dar a esse espaço também o melhor de mim. E eu acho que, dentro desse estado de dedicação ao momento, geralmente muitas coisas bonitas se revelam. Eu sou uma artista que gosta muito de fazer residências. Para mim, é um momento muito especial de reflexão, de ter espaço para a dúvida, de não esperar nada e por vezes encontrar coisas realmente preciosas.

Vogue Brasil: Por que as terras-raras especificamente? O que esse conjunto de 17 elementos representa, e como é essa sua relação com minerais, materiais-base para suas obras?

Luana Vitra: A Bandeira Branca é uma obra que fala sobre guerra, e para pensar a guerra, é essencial pensar as matérias. Nas guerras no período colonial, o domínio da pólvora foi o que possibilitou esse desenho de mundo que temos hoje, e sem ela poderíamos ter um mundo completamente diferente do que conhecemos. Nesse momento, os 17 elementos das terras-raras são a nova pólvora, no sentido que são esses elementos que vão definir o desenho do futuro. De maneira geral a guerra é sempre um acontecimento materialista, então, para mim, faz muito sentido pensar a dinâmica da história pelo ponto de vista das matérias. Os minerais são minha base filosófica, os comportamentos químicos e físicos dos metais me ensinam a compreender e destrinchar os acontecimentos do mundo, e isso se desdobra na forma com a qual eu faço minhas instalações e esculturas.

Vogue Brasil: “Bandeira branca” normalmente é símbolo de rendição, mas a sua obra mostra justamente o contrário. Por que esse título?

Luana Vitra: A Bandeira Branca, enquanto símbolo, tem outros significados além da ideia de rendição. Ela também pode significar paz ou trégua. É utilizada em campos de batalha para criar uma pausa em que as pessoas possam negociar em meio ao conflito. Nós guerreamos entre nós mas no fim das contas todas as guerras que travamos são essencialmente contra a terra, e na obra, a bandeira branca sai exatamente da Terra, é esse corpo que pede paz. No centro do octógono essa paz é ameaçada por uma arma que aponta tanto para a Terra quanto para o Céu, em alguma medida uma faca de dois gumes, pois sempre que apontamos uma arma para o outro, apontamos também para nós mesmos.

A ideia de negociação, que está também implicada no símbolo da bandeira branca, reflete o momento que estamos vivendo. O Brasil é um país que não participou das guerras mundiais, temos esse posicionamento, que é muito positivo, mas ter a segunda maior reserva de terras raras do mundo é como ter uma bomba relógio nas mãos. Esse é um momento muito decisivo, principalmente se pensamos nas próximas eleições, pois se não tivermos um presidente capaz de negociar vamos re-encenar a escravidão, o fato do Brasil não investir em tecnologia cria um cenário bastante problemático, em que oferecemos matéria-prima e depois ficamos reféns dos produtos feitos por outros países com a nossa própria matéria. Esse é um problema estrutural do Brasil que precisa ser resolvido, e eu acho que as terras raras criam essa urgência.

Nesse momento, estamos vivenciamos um processo de votação para a regulamentação da exploração das terras raras, e isso vai definir o que teremos como futuro: se seremos uma nação continuamente escravizada a partir da sua própria riqueza ou se conseguiremos virar a dinâmica dessa história e nos tornarmos o corpo que escolhe o próprio caminho, e não o corpo que é forçado a um determinado caminho por não saber criar estratégias para se esquivar dessas pressões mundiais. O octógono é o encontro de duas encruzilhadas. Esse símbolo abriga sempre a contradição e a coexistência de múltiplas possibilidades, e isso reflete a complexidade do nosso presente.

Luana Vistra — Foto: Levi Fanan/Divulgação
Luana Vistra — Foto: Levi Fanan/Divulgação

Vogue Brasil: O projeto Octógono já recebeu obras de Leonilson, Lygia Clark e Adriana Varejão. Como foi pensar e criar para esse espaço?

Luana Vitra: O Octógono é um dos lugares onde eu mais quis expor na vida. É um espaço onde, sempre que eu ia, imaginava inúmeras possibilidades compositivas. Depois de receber o convite fiz diversos projetos que iam em direções completamente distintas, porque o desejo de fazer algo, invariavelmente cria muitas ideias, até que chegou o momento em que entendi que eu simplesmente precisava fazer o que era necessário. E isso me levou a uma obra que eu nunca imaginei que faria nesse espaço, mas que, ao mesmo tempo, se tornou a única coisa que eu gostaria de fazer a partir do momento em que a desenhei.

Foi um processo interessante porque minha cabeça já tinha imaginado tantas coisas. Mas, chegando lá, entendi que a obra precisava ser apenas um gesto muito preciso, que dissesse sobre as complexidades que estamos atravessando agora e que também refletisse aquilo que já vivemos e as coisas que ainda estão por vir no futuro do planeta. Expor no Octógono é algo que me inscreve na história da escultura no Brasil, porque esse espaço tem um papel central dentro da produção escultórica nacional. Então, é uma grande honra, uma grande responsabilidade e também muito especial poder imprimir os meus gestos nas memórias que esse espaço vai carregar.

Vogue Brasil: Você nasceu em Contagem, num estado moldado por séculos de mineração. Como essa origem entrou fisicamente no processo de criação de Bandeira Branca?

Luana Vitra: Ter crescido nessa região de Minas, que é um lugar entre a indústria e a natureza, em alguma medida moldou meus interesses. Sempre que vou para um lugar desconhecido, primeiro me interesso por conhecer as vidas minerais, e, posteriormente, as outras formas de vida. Para falar desse momento do mundo, seria possível escolher diferentes pontos de vista para abordar o mesmo assunto, mas o fato de ter crescido em Minas Gerais faz com que a forma da minha leitura se dê a partir da perspectiva mineral. Então, esse seria o ponto de maior influência ao pensar essa relação biográfica. Gosto de ver o mundo com os olhos e com a sensibilidade dos minerais, é desse delírio que nasce minha obra, e essa também é a lucidez que desenha Bandeira Branca.

Luana Vistra estreia “Bandeira Branca” — Foto: Levi Fanan/ Divulgação

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