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‘Meus filhos dizem que fiquei mais doce, mais presente. Gosto muito disso’


O velório está vazio. Não há flores, nem fila de gente esperando para dar um abraço. Só uma mulher parada diante do caixão de uma amiga de décadas, tentando reunir coragem para entrar naquele salão que evitaria em qualquer outra circunstância da vida. É esse o retrato com que Arlete Salles abre Mande Notícias do Mundo de Lá, primeiro monólogo de uma carreira de sete décadas, em cartaz no Teatro dos 4, na Gávea, no Rio, até 4 de outubro.

Na pele de Eulália Eugênia, mulher da própria idade que tem pavor de morte e vai ao cemitério mesmo assim, Arlete transforma esse instante de silêncio em algo que ri e chora ao mesmo tempo. “Eu me encantei com o texto. Ele tem uma indescritível qualidade dramatúrgica, todas as possibilidades de você se comunicar com o público”, conta a atriz de 88 anos, que conversou com exclusividade com a Vogue sobre a experiência. O texto é do jornalista Carlos Jardim, e resistiu anos a ela antes de conquistá-la de vez. “Levei muito tempo para dizer sim. Um texto de monólogo é diferente de um de diálogos, é você com você mesmo, eu, Deus e a plateia.”

A identificação com Eulália veio antes mesmo de decorar as falas. “Eu tomava até sustos porque pensava: meu Deus, ele nem conversou comigo ainda, o que é isso, coisas que eu falo no meu cotidiano.” É esse reconhecimento, segundo ela, que faz a plateia se dividir entre risada e lágrima na mesma cena, dos mais jovens aos mais velhos. Numa apresentação recente, em que subiu ao palco sem estar bem, sentiu o efeito na própria pele. “Fui para o palco receosa e fiz o melhor espetáculo da temporada. Eu saí quase curada e feliz. O teatro é muito poderoso, a identificação é imediata, a entrega é perfeita.”

Ainda que aconteça num velório, a peça fala menos de quem morreu do que de quem fica. “Quem partiu não tem mais voz”, diz Arlete. “A amiga que vai lá tem pavor de tudo relacionado a esse fim, mas precisava ir. Chega e se depara com o caixão e ninguém mais. Ela vai aos seus limites, a perda, os receios, os medos, o receio da finitude, todas as limitações que o idoso enfrenta, dificuldades preconceituosas.” Sobre esse etarismo, a artista reconhece que, por ser mais caseira, acaba sentindo menos esses impactos. “Talvez eu me preserve um pouco. Vivo na minha casa, com meu filho, com pessoas adoráveis, meus cachorros. Tenho que agradecer a Deus diariamente, porque estou vivendo a parte conclusiva da minha vida com paz. Em alguns momentos até experimento a felicidade.”

Arlete Salles — Foto: Leo Aversa/Divulgação
Arlete Salles — Foto: Leo Aversa/Divulgação

Esse mesmo movimento, de encarar a dor sem deixar de viver, é o que a personagem passa em cena. Há negação o tempo inteiro, explica Arlete, até a ficha cair de vez. “As dores e as alegrias vão jorrando, tem quase que um descontrole ali. A perda da amiga, ela ainda não quer realizar, é a grande amiga, quase que a única amiga dela. Mas no final ela conclui que a amiga foi embora.”

A amizade é outro pilar da montagem, e Arlete recorre a uma frase da avó sempre que o assunto aparece. “Quero melhor amigo na praça e dinheiro na caixa. Acho que as duas coisas são importantes”, brinca, antes de completar que esse tipo de vínculo não se escolhe pela razão. “Amigos são presentes da vida, o coração elege, o coração busca, é identificação de alma. Amigo, se não amigos no plural, pode ser no singular, mas é importante para o seu caminhar.”

Falar de morte sem rodeios é, para ela, a maior proeza do texto. “Esse assunto é um tabu. A gente sabe que é inevitável, mas não gosta de falar sobre isso, ainda mais no teatro, vendo aquilo tratado o tempo inteiro.” A proximidade do tema com a própria idade pesa, admite. “Quando você tem consciência de que está vivendo a parte conclusiva da vida, é um sentimento desconcertante. Confesso que tenho receio de tudo.” Ela lembra da canção Não Tenho Medo da Morte, de Gilberto Gil, que fala da diferença entre temer a morte e temer o ato de morrer.

Arlete Salles — Foto: Leo Aversa/Divulgação

Sete décadas de personagens marcantes, da Copélia de Toma Lá, Dá Cá à Carmosina de Tieta, deixaram à atriz uma leitura própria sobre o que move as pessoas. “A natureza humana é difícil de entender. J.M. Coetzee, autor sul-africano, disse que as partes mais duras de um homem são o crânio e o temperamento. O teatro trata dos sentimentos humanos, da condição humana. Daí a beleza dessa arte. Cada pessoa, um doce mistério.”

Nem tanta experiência afasta o frio na barriga de estar sozinha em cena. “Você não sabe o que eu sofri quando escutei o terceiro sinal no Teatro Fernando Torres, em Tatuapé [bairro de São Paulo, onde a peça também esteve em cartaz], para estrear este monólogo. Pensei: o que eu estou fazendo aqui, por que ainda estou passando por isso? Mas valeu a pena.” É assim, entre o medo e a entrega, que resume o que ainda a leva de volta ao palco. “O palco é o lugar do ator. Não é pra quem quer, é pra quem é. Tem um poder curativo, é revitalizador.”

Arlete Salles em cena — Foto: Divulgação

Perto do fim da conversa, reconhece que o tempo também mudou algo nela, mesmo que o caminho até aqui não tenha sido simples. “O idoso enfrenta muitas dificuldades, é difícil envelhecer, e pior ainda morrer jovem. A gente tá ali entre a cruz e a espada”, diz, em tom jocoso, mais uma vez. Ainda assim, celebra o que os filhos, Alexandre e Gilberto, apontam nela hoje. “Dizem que estou envelhecendo bem, que fiquei mais acessível, mais doce, mais presente. Eu gosto muito disso.” E fecha com a mesma leveza que leva a peça inteira: “a vida é tão fascinante, tão apaixonante, que você vai seguindo em frente. É preciso que Deus entenda que a gente precisa se esforçar muito para ir adiante.”



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