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Mulheres estão trocando filhos por pets? O que isso revela sobre as novas formas de cuidar


Quando vou fazer meus exercícios na Academia da Terceira Idade, na pracinha perto de casa, fico observando dezenas de mulheres de todas as idades, passeando com seus cães. Elas conversam, brincam, fazem carinho, conhecem outras pessoas que também caminham por lá.

Recentemente, disse para o meu marido que quero adotar um gatinho ou um Golden Retriever, igualzinho à Mel, uma cadela que brinca, todos os dias, com crianças, adultos e mais velhos na pracinha. Falei que o Golden combina muito com meu sobrenome, mas ele não gostou da ideia de ter um cão tão grande no nosso apartamento. Também não acha uma boa ideia adotar um gatinho porque tenho asma, bronquite, sinusite crônica, rinite e alergia.

Uma velha amiga me fez uma pergunta intrigante quando eu disse que estava pensando em adotar um gatinho. “Mirian, eu não avisei que você ia se arrepender de não ter filhos? Quantas vezes perguntei: ‘Quem vai cuidar de você na velhice?’ Agora, você vai ser a velha dos gatos?” Fiquei dias pensando nessa pergunta. Por que ter filhos ainda é considerado uma espécie de seguro contra a solidão na velhice? Por que uma mulher que não quer ter filhos precisa explicar como quer viver quando envelhecer?

Dos 10 aos 16 anos tive um gatinho, o Mimo, meu único refúgio em um lar de extrema violência física, verbal e psicológica. Era um gato vira-lata, resgatado da rua, mas muita gente achava que era Angorá por causa da sua linda pelagem branca. Todos os dias eu o levava para passear no jardim do prédio onde eu morava em Santos. Para surpresa dos outros moradores, Mimo não fugia, só devorava a grama.

Mimo aprendeu a fazer xixi e cocô no bidê do banheiro do nosso minúsculo apartamento e, no final, cobria tudo com papel higiênico. Ele caiu três vezes da janela do terceiro andar, mas, graças às suas sete vidas, sobreviveu. Eu só conseguia dormir com o Mimo aconchegado nas minhas pernas. Sinto muita saudade do meu gatinho que, durante 13 anos, me encheu de lambidas e mordidinhas. Até hoje, sem a sua presença, tenho terríveis noites de insônia.

Exatamente por isso eu entendo muito bem quando alguém me diz que um cão ou um gato é parte da família. Na minha pesquisa sobre envelhecimento, autonomia e felicidade, constatei que os animais de estimação podem ser terapêuticos, especialmente para pessoas com doenças físicas e mentais. Em algumas casas, o pet é a única companhia dos mais velhos. São seus melhores amigos e membros da família, muitas vezes mais carinhosos e presentes do que os próprios filhos e netos.

Não estou sozinha no meu desejo de ter um Golden ou um gatinho. Em 2024, o mercado pet brasileiro faturou mais de R$ 75,4 bilhões, um aumento de 9,6% em relação ao ano anterior. O Brasil já está entre os maiores mercados do mundo nesse segmento, atrás apenas dos EUA e da China. Em 2021, J. D. Vance, hoje vice-presidente de Trump, afirmou que os EUA estavam sendo governados por “um bando de childless cat ladies, que são miseráveis em suas próprias vidas… e querem tornar o resto do país miserável também”. Vance é o par perfeito de Trump, que quer ser o presidente do baby boom.

A expressão childless cat lady [mulher que tem gatos e não tem filhos, em tradução livre] transforma uma escolha de vida em uma caricatura. A mulher sem filhos é representada como uma mulher amarga, solitária, egoísta e cercada de gatos. Como se não ter filhos fosse uma prova de fracasso e amar os animais fosse uma compensação por aquilo que lhe faltou.

Apesar das chacotas e críticas, as “tias de gato” devem aumentar nos próximos anos. Até 2030, de acordo com uma projeção do banco Morgan Stanley, 45% das mulheres entre 25 e 44 anos estarão solteiras nos EUA. Isso já está acontecendo aqui no Brasil, como pode ser observado na rápida queda das taxas de natalidade, com o adiamento ou redução dos casamentos e o crescimento dos divórcios.

Existem quatro tendências demográficas no Brasil: 1) queda nas taxas de fecundidade; 2) adiamento da maternidade; 3) aumento da proporção de mulheres sem filhos e 4) diminuição das taxas de casamento formal. Por que será que tantas mulheres estão escolhendo ter cães e gatos? Essa pergunta parece simples, mas, na verdade, esconde uma transformação muito profunda na maneira como enxergamos o amor, o cuidado, a família e a velhice.

Centenas de mulheres que entrevistei aprenderam que cuidar dos filhos, do marido, dos pais, dos netos era uma obrigação exclusivamente feminina, como se fosse um destino natural da mulher. Hoje, elas estão descobrindo que podem escolher outras formas de amar e de cuidar. Não significa que todas essas mulheres estejam escolhendo cães e gatos em vez de filhos. O que mudou é que essas escolhas estão ficando mais visíveis e legítimas. Em vez de enxergar as mulheres sem filhos como “incompletas”, “solitárias” e “fracassadas”, a “tia dos gatos” pode ser vista como um símbolo das novas formas de viver o amor, o cuidado, a autonomia e a felicidade.

Segundo a Abinpet, os lares brasileiros já abrigam, em média, 1,8 pets por residência. Ao mesmo tempo, a taxa de fecundidade caiu para 1,55 filho por mulher em 2022. Neste novo cenário, será que o pet é o novo bebê ou uma nova forma de pensar o cuidado? Por que será que a “tia dos gatos” incomoda tanto?



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