Deborah fabrica lingeries e as vende na porta de presídios, para as mulheres dos detentos usarem nos dias de visita. Espera o namorado deixar a cadeia e acredita que vai construir com ele a família que sonhou. É essa mulher da periferia de São Paulo, regida pelo coração, que Naruna Costa veste em “Dolores“, filme que estreou nos cinemas recentemente e encerra a Trilogia dos Afetos, projeto que Chico Teixeira deixou para Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar antes de morrer, em 2019.
São três gerações de uma mesma família dividindo o mesmo território. Dolores (Carla Ribas), perto dos 65 anos, sonha em abrir um cassino apesar do passado marcado pelo vício no jogo. Deborah aguarda o amor que vai sair da prisão. Duda (Ariane Aparecida), a neta, trabalha numa loja de armas e quer ir embora para os Estados Unidos. Cada uma aposta num recomeço improvável.
Para Naruna, a força está nessas mulheres. “A grande riqueza do filme são as personagens”, diz ela à Vogue. “Mulheres diferentes, com visões de mundo distintas, de gerações diferentes, etnias, mas da mesma família, habitando o mesmo território.” O trabalho rendeu ao trio de atrizes um prêmio conjunto de atuação no Panorama Coisa de Cinema, em Salvador, e levou o longa a San Sebastián, Roterdã, Tiradentes, à Mostra de São Paulo e ao Festival do Rio antes de chegar ao circuito brasileiro.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_5dfbcf92c1a84b20a5da5024d398ff2f/internal_photos/bs/2026/D/S/hsKk50QpeVXTByQdl1CA/naruna-2-credito-nicole-kruger.jpg)
Atriz, diretora, cantora e compositora, nascida e criada em Taboão da Serra, na região metropolitana paulista, Naruna chega a “Dolores” num momento de estreias quase simultâneas entre cinema, televisão e teatro. Em 2018, tornou-se a primeira diretora negra a ganhar o Prêmio APCA, pela montagem de “Buraquinhos ou O Vento É Inimigo do Picumã”. Conversou com a Vogue sobre a construção de Deborah, o universo das mulheres que esperam do lado de fora dos presídios, o reconhecimento que veio ao viver Elza Soares nos palcos e a recusa em contar histórias rasas. “Mulheres negras são mulheres, não figuras”, define. “Temos memórias, complexidades, subjetividades, vida.” A seguir, confira a entrevista.
Vogue: Em “Dolores”, você vive Deborah, uma mulher regida pelo coração que, depois de uma grande decepção amorosa, decide finalmente olhar pra si. O que te aproximou dela e o que foi mais desafiador de construir nessa personagem?
Naruna Costa: Acho que tem muitas coisas que me aproximam de Deborah. Uma mulher negra, nascida e criada nas periferias de SP, batalhadora e… romântica. Eu sou pisciana né? O amor é a minha revolução. Acredito nele. Mas acho que, assim como a Deborah, eu sou de uma geração que foi meio que “treinada” a acreditar que o amor romântico é o lugar onde a gente pode encontrar nossa felicidade. Ter um “final feliz”. Ao contrário dela, eu tive bons encontros na caminhada até aqui, porém também tive que procurar um lugar de autonomia e identidade, que não está conectada às relações. O amor próprio. A Deborah aprendeu isso na marra, através da decepção, do abandono. O que é horrível. Mas o bom do filme é que o caminho que ela faz é de redescobrimento dela mesma.
O que foi desafiador pra mim foi “caber” na Deborah sonhada pelos diretores. Marcelo e Maria Clara sabiam o que queriam dela, quando me trouxeram para o filme. E eu entendi isso logo nos primeiros ensaios. Existia uma “Deborah” no imaginário deles, que também contribuíram muito para o roteiro de Chico Teixeira. E o meu grande exercício foi o de abrir espaço para “ela”, que eu ainda não sabia quem era, mas que os diretores conheciam muito bem. Foi um processo bem diferente de todos os que já vivi. Mas foi bonito. Respeitoso. E muito interessante pra mim, que pude conhecer a Deborah, de fato, na estreia do filme. E eu me surpreendi positivamente.
Deborah fabrica e vende lingeries na porta de presídios, um universo ligado à realidade das mulheres que esperam por seus companheiros. Como foi a pesquisa pra dar dignidade e verdade a essa personagem?
Eu venho de uma sequência de filmes e séries que, de alguma maneira, transitam por esse universo. Não precisei, exatamente, de muita vivência para compreender o clima dos arredores dos presídios masculinos. Mas, uma coisa muito bonita do filme é que, sutilmente, ele mostra a realidade dos ambientes, quando se trata do presidio masculino (lotado de mulheres nos dias de visita) e do feminino (com pouca frequência de pessoas, especialmente homens, visitando companheiras). Acho que a dignidade e a verdade está em mostrar essa realidade sem pesar a mão na interpretação e na leitura de toda equipe e, sem julgar também. Ali é o que é. E por si só já apresenta um cenário bem complexo. Acho que nossas personagens tem essa riqueza. A complexidade do simples.
O trio de protagonistas recebeu um prêmio conjunto de atuação no Panorama Coisa de Cinema. O que significou construir essa personagem em parceria tão próxima com Carla Ribas e Ariane Aparecida?
Ah, isso foi tão bonito né? Um prêmio ao elenco do filme. Fiquei muito emocionada, pois acho que, de fato, a grande riqueza do filme são as personagens. Mulheres diferentes, com visões de mundo distintas, de gerações diferentes, etnias, mas da mesma família, habitando o mesmo território. Que caldo bom. Isso é vida. É a realidade. Identidades. O filme esbanja isso. E é muito lindo que o reconhecimento venha. Foi maravilhoso trabalhar com todas as atrizes do filme. A Carla, trazendo todo o afeto pelo Chico Teixeira, seu amigo, que trouxe ela para o centro da cena do audiovisual. A Ariane, minha filhinha. Ali arriscando os primeiros passos no audiovisual e mandando tão, tão bem. E as divas Gilda Nomacce, Zezé Motta, Teca Pereira. Aulas!!! Chique demais.
Você nasceu e foi criada em Taboão da Serra e fundou o Espaço Clariô pra fazer teatro da periferia, na periferia e com a periferia. Como esse lugar de origem continua presente nas escolhas que você faz hoje, dentro e fora da tela?
Eu costumo dizer que o Clariô é o lugar onde eu recupero as minhas forças, curo minhas asas para voar mais alto. É a fonte, o acolhimento, o espaço de maior liberdade do meu criar. O teatro pra mim é território sagrado mesmo. Não faço uma peça sem acreditar nela. No sentido dela existir. E o Clariô é o lugar onde eu me sinto mais a vontade e, ao mesmo tempo, mais vulnerável, porque é onde eu experimento de fato. Alí aprendi a ser uma artista popular, a fazer teatro negro, a cantar, tocar, dirigir. É minha escola, meu refúgio. Nunca deixei de estar presente no Clariô. Mesmo quando estou fazendo coisas de muita projeção de mídia e tal. É muito legal voltar pra casa e encontrar quem eu sou, encontrar os meus. E todo mundo torcendo e vibrando pelas minhas conquistas. Que são nossas.
Você é a primeira diretora negra a ganhar um Prêmio APCA. O que esse reconhecimento representou na época, e como ele dialoga com a ausência de mulheres negras na direção que você sempre apontou?
Costumo dizer que o “pioneirismo negro” nos dias de hoje é uma faca de dois gumes. Não da pra não celebrar os espaços que muitas de nós estamos abrindo. A conquista de marcar nossa presença na história de algumas instituições, enfim, na história do Brasil. Mas, tem o lado triste e vergonhoso até, de tudo ser tão demorado. Difícil. Frágil. Pouco. Eu celebro criticando. Foi assim em 2018 e é assim agora. Aparentemente temos a presença negra em vários espaços de grande mídia, de grande alcance. Mas… E em espaços de poder? Sinto que não dá pra afrouxar a corda, sabe? Relaxar por uma ou outra conquista. Mas sim, temos que celebrar. É o jeito do nosso povo lutar também, celebrando.
Elza Soares é uma personagem que te acompanha há quase uma década, do “Garrincha” de Robert Wilson à recente remontagem do musical “Elza”, que está viajando pelo Brasil. Você descreveu essa responsabilidade como “quase espiritual”. O que muda em você cada vez que volta a ela?
Voltar a fazer Elza, agora, quase uma década depois que a representei pela primeira vez, muda muitas coisas em mim. Vejo a história de Elza replicada em historias de muitas mulheres brasileiras. Mulheres negras e não negras, que tiveram suas vidas atravessadas pelo machismo, pela misoginia, pela intolerância, pelo racismo. Fazer Elza hoje junta muitas informações num só tempo: Celebra a vida e a obra de uma das maiores artistas brasileiras no mundo, debate inúmeras questões voltadas ao universo do feminino, que sempre foram negligenciadas e denuncia uma sociedade que, ainda hoje reforça e legitima inúmeras violências contra a mulher. Representar Elza Soares ontem, hoje e sempre será, para mim. uma grande vingança. No sentido de “devolver a dor” e no sentido de “fazer vingar mesmo, brotar, gerar, dar vida ao o novo”. Elza é o agora. E o agora urge dias melhores.
Você vive um momento de estreias quase simultâneas em TV, cinema e teatro, além de vários lançamentos previstos no streaming. Como você se prepara, inclusive psicologicamente, pra conciliar tantos universos ao mesmo tempo?
Primeiro: Faço terapia. Rsrs… E sou uma artista muito intensa. E as vezes preciso mesmo de um caminho terapêutico para desassociar as personagens da Naruna (CPF). Mas isso não tem a ver com as confluências dos lugares onde transito nas artes. Eu acredito muito numa arte popular contemporânea. Ou seja, uma arte conectada com o povo e com o tempo de agora. Acho mesmo que a colonialidade limitou muito as artes que, nas culturas não ocidentais, convivem bem juntas. Eu acredito mesmo na força do encontro de todos os lugares onde passo. Como dizia o mestre Nêgo Bispo: “”um rio não deixa de ser um rio porque conflui com outro rio. Ao contrário: ele passa a ser ele mesmo e outros rios. Ele se fortalece”. Acredito nisso.
Você está prestes a estrear na direção de longas com um documentário sobre o poeta Sérgio Vaz, e já dirige no teatro e na música, como nos vídeos da turnê do Emicida. O que te move pra esse lugar da direção, e o que muda na sua relação com uma história quando você passa a conduzi-la?
Eu acredito muito no poder da narrativa. Acho que para fortalecer as presenças negras no audiovisual, é necessário que também haja essa presença nas cadeiras criativas, como em salas de roteiro, direção, fotografia, produção executiva, etc. Isso me aguça, me estimula e incentiva à pesquisar esses espaços. A possibilidade de contribuir com as narrativas da minha comunidade. Não tenho grandes ambições como diretora de cinema e tal, mas me sinto muito instigada quando sou presenteada com desafios como os visuais da turnê do novo show do Emicida ou o documentário sobre o poeta Sergio Vaz. É uma honra e uma linda missão.
Entre teatro, cinema, televisão e música, há um fio que parece unir seus trabalhos: dar forma e memória a mulheres negras que romperam barreiras. Como você enxerga esse papel de “guardiã de histórias” na sua obra?
Essa coisa de atuar é mó responsabilidade, essa é a verdade. Eu sou uma mulher negra, racializada. Meu corpo em cena no Brasil colonizado é um corpo político. Então a minha busca é sempre por garantir que cada trabalho que eu faça eu represente mulheres que são reais. Eu não tenho nenhuma intenção em só contar histórias de superação, de mulheres guerreiras, vencedoras, etc. Eu quero contar histórias reais. Mulheres negras são mulheres, não figuras. Temos memórias, complexidades, subjetividades, vida. É isso que me interessa. Nada que fale de nós de maneira superficial, aleatória, sem estrutura. Somos humanas e o mesmo sangue que corre aqui, corre aí. Somos um universo e é isso que me interessa contar e cantar.
Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!

