Nas vésperas das eleições mais turbulentas do país, foi um presente inesperado meu encontro com a atriz Leticia Spiller, de 53 anos. No dia 22 de setembro, ela me mandou uma mensagem e marcamos de nos encontrar no dia 29, só para conversar. Marquei na pracinha onde faço meus exercícios diários. Estava um dia lindo, e a praça cheia de crianças, velhos, homens e mulheres passeando com seus cachorros. Sentamos em um banco e, das 16h40 até 20h20, conversamos sem parar.
Logo que chegou, além de um abraço apertado, ganhei de presente seu livro de poesias, Mais de mim. Na apresentação da obra, Leticia escreveu: “O motivo de escrever este livro é partilhar o que sou além da imagem, além do que as pessoas estão acostumadas a me conhecer. Minha profissão requer muita exposição, mas não a exposição desse ‘eu’ profundo que também habita em mim.”
Dei de presente para ela meu livro Toda mulher é meio Leila Diniz. Na dedicatória, escrevi que tenho certeza de que Leticia já é “meio Leila Diniz”. Nossa conversa de quase quatro horas confirmou que eu estava certa. Leticia havia estado na Argentina e tinha ficado encantada com uma mulher de 75 anos que, todos os anos, viaja de Goiânia para Buenos Aires só para dançar tango. Quem é essa mulher? Por que ela faz essa viagem? Ela namora? Tem filhos e netos? Leticia vai descobrir.
No dia 1º de outubro, Leticia me mandou um áudio por WhatsApp. Estava no sítio com Stella, sua filha de 15 anos, em contato com a natureza. Contou que ficou pensando na mulher que dança tango e me falou de uma batalha que está enfrentando: conseguir patrocínio para fazer um filme independente. Ela me explicou como é difícil manter a autonomia de um projeto cinematográfico quando se busca apoio de produtoras ou plataformas de streaming. Não há garantia de que ela poderá atuar no filme nem de que o diretor escolhido será mantido. “É uma loucura”, ela me disse. Mas continua nessa batalha, tentando encontrar uma maneira de realizar o filme sem perder o que idealizou.
Leticia também disse que quer contar histórias que provoquem reflexão e transmitam mensagens de amor, liberdade e realização dos sonhos. Entre seus projetos estão uma comédia romântica sobre uma mulher solteira que participa de um concurso de dança. Há ainda um filme sobre refúgio, baseado em um conto escrito por uma amiga sua, e outro projeto sobre dança, no qual ela também quer atuar. São muitas ideias, ainda embrionárias, mas que revelam seu desejo de criar histórias capazes de emocionar e fazer pensar.
No nosso encontro, também falamos de mulheres que admiramos por serem cada vez mais livres, criativas e corajosas com a idade. Falamos de Fernanda Montenegro, que, aos 97 anos, continua em plena atividade no cinema, na televisão e no teatro. Fernandona não perde uma peça de teatro e revela um entusiasmo contagiante ao gritar e aplaudir de pé atrizes e atores.
Falamos de Jane Fonda, que, aos 88 anos, continua indo às ruas gritar contra Trump e contra todos os tipos de tirania. Falamos da minha supervisora de pós-doutorado em psicologia social, a psicóloga Terezinha Fères-Carneiro, que, aos 83 anos, anda de patins e está aprendendo a fazer tecido acrobático.
Falamos da minha amiga Sonia, de 88 anos, uma das Avós da Razão, que se separou do segundo marido aos 60 anos e, para sobreviver, foi ser “a mulher do frango” no Mercado de Pinheiros. Hoje, ela ama morar sozinha, ir à botecos e é uma influenciadora que inspira mulheres de todas as idades a saborear a “libertação grisalha”.
É assim que Leticia quer envelhecer. É assim que eu quero envelhecer.
Leticia teve dois casamentos. O primeiro, com o ator Marcello Novaes, durou quase cinco anos. Tiveram o filho Pedro, que hoje está com 30 anos. O segundo casamento durou sete anos. Tiveram a filha, Stella, de 15. Ela me conta que é a primeira vez que está solteira e que não quer casar. Ela quer namorar. Mas não está tão fácil assim. Nos seus últimos relacionamentos, ou o homem queria casar imediatamente ou desaparecia no primeiro ou no segundo encontro.
O que está acontecendo com os homens?
Acabei dizendo que uma das coisas que mais admiro nela é a amizade que mantém com o primeiro marido, mesmo depois da separação. Contei que, em mais de 30 anos de pesquisas sobre casamentos e novas conjugalidades, encontrei poucos, muito poucos, casais que se tornaram amigos depois da separação.
A grande maioria ou se torna inimigo mortal ou simplesmente ignora para sempre aquele que foi seu grande amor. Apaga da própria vida uma pessoa que, durante anos, ocupou um lugar central nela. Já testemunhei inúmeros casos de verdadeiras guerras, em que os filhos são colocados no meio do tiroteio. E outros em que, depois de anos de muito amor, o ex-marido não quer nem cumprimentar a ex-mulher.
Como Leticia e Marcello conseguiram transformar um amor de quase cinco anos em uma amizade que já dura mais de 30? Marcamos um novo encontro para Leticia me contar como essa relação de amizade foi sendo construída. E como, na visão dela, essa amizade ajudou a tornar Pedro, seu filho, um homem sensível, amoroso e gentil.
Na despedida, Leticia me disse que fica emocionada quando encontra pessoas gentis. Lembrei-me de uma ex-aluna, Daniela, que mora em Paris há mais de 20 anos. Daniela esteve recentemente no Brasil com sua filha, Alice, de 11 anos. Nos encontramos na mesma pracinha e também ficamos horas conversando. Alice dizia o tempo todo, com seu delicioso sotaque francês: “Mirian, você é muito gentil.” E, de repente, explicava por que havia brigado com uma amiga: “Ela não é gentil.” Ela não dizia simpática, agradável, educada, atenciosa, delicada, chata, invasiva, desagradável, grosseira. Sua classificação era outra: você é gentil ou ela não é gentil.
Desde então, comecei a observar os comportamentos das pessoas que me cercam usando a mesma classificação. E, infelizmente, não encontro muitas pessoas gentis. O “eu profundo” que habita Leticia é gentil. Leticia é gentil ao escutar, ao falar, ao caminhar, ao olhar. Gentil de um jeito que me fez ficar feliz em um momento de tanto ódio e agressividade. Nós duas chegamos à conclusão de que ser gentil, saber escutar, dialogar e aprender com quem pensa diferente de nós também é uma atitude política, ética e existencial. Como dizia o profeta, gentileza gera gentileza. Eu acrescento: gentileza é uma forma de resistência em tempos de cólera.
Como sempre, quero terminar com uma pergunta, que já é minha marca registrada: o que cada uma de nós, dentro das nossas próprias casas, está fazendo para construir um mundo mais amoroso, generoso e gentil?

