Reinserir na cadeia produtiva materiais que hoje são descartados nos aterros de todo o território nacional foi o tema da discussão que reuniu representantes da moda e da indústria têxtil, envolvidos direta e indiretamente em um único objetivo: combater o descarte excessivo e desnecessário e criar alternativas relevantes para o planeta, para o mercado e, principalmente, para a sociedade.
Segundo a organização sem fins lucrativos que lidera o movimento global por sustentabilidade na indústria da moda a Global Fashion Agenda (GFA), todos os anos são produzidas, no mundo, 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis. Esse dado foi fundamental para que a troca de experiências entre diferentes contextos desse mercado, contribuísse para que pudéssemos identificar o quanto ainda podemos avançar como agentes dessa transformação.
Jamile Jacino Marques Barreto esteve entre os participantes e, neste artigo, a jornalista, especialista em Direitos Humanos, Diversidade e Violência, contribui com dados relevantes a partir das pesquisas que vem realizando sobre sustentabilidade e transformação institucional. Mestranda em Economia Política Mundial e à frente da consultoria Rever Diversidade, ela atua na construção de repertórios e estratégias voltados à liderança e à cultura organizacional.
“Há conversas que acontecem no momento certo. Outras acontecem tarde demais. No último dia 15 de julho, participei de uma daquelas que precisam acontecer agora. Reunidos em torno da mesma mesa, representantes da C&A, Pernambucanas, Ministério da Fazenda, Ministério do Meio Ambiente, Universidade Presbiteriana Mackenzie, Veste, Grupo Shoulder, especialistas, pesquisadores, lideranças do setor e a Cooperpac, liderada por Dona Cida Preta, discutiram um tema que deixou de ser apenas sobre a indústria da moda. Estamos falando do futuro da economia”, contextualiza a comunicadora.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_5dfbcf92c1a84b20a5da5024d398ff2f/internal_photos/bs/2026/L/o/XV76tRRKqbptJZQ8YIeg/whatsapp-image-2026-07-27-at-14.08.02.jpeg)
O cenário global aponta benefícios econômicos contundentes para o setor, uma vez que o reaproveitamento de matérias-primas reduz a dependência de recursos virgens, diminui custos operacionais e torna as cadeias produtivas mais resilientes.
“De acordo com a Ellen MacArthur Foundation, menos de 1% das roupas retornam ao sistema para fabricar novas peças de vestuário. Dessa forma, perdemos continuamente materiais de alto valor que poderiam permanecer em circulação por muito mais tempo. Ao mesmo tempo, a própria Ellen MacArthur Foundation demonstra que a expansão de modelos circulares, como revenda, reparo, aluguel e remanufatura, pode representar uma oportunidade superior a US$700 bilhões para a indústria global da moda até 2030.”
Durante muito tempo, a sustentabilidade foi tratada como um custo, uma obrigação regulatória ou uma estratégia de reputação. Hoje, os dados mostram que quando integrada ao modelo de negócio, ela gera eficiência, agrega valor, reduz riscos, cria novas fontes de receita e fortalece a competitividade. Um dos maiores exemplos dessa transformação está na indústria da moda.
O Brasil começa a construir o caminho para a circularidade têxtil
O Brasil reúne características que poucos países possuem simultaneamente: abundância de recursos naturais, uma matriz energética predominantemente renovável, forte produção agroindustrial e uma das maiores biodiversidades do mundo. Paradoxalmente, ainda desperdiça parte significativa desse potencial ao operar, em grande medida, sob uma lógica econômica linear: extrair, produzir, consumir e descartar.
Enquanto as principais economias globais aceleram a transição para modelos produtivos mais eficientes, o Brasil tem diante de si uma oportunidade estratégica de transformar resíduos em riqueza, reduzir custos industriais e ampliar sua competitividade internacional.
Com a aprovação do Plano Nacional de Economia Circular (PLANEC 2025-2034), coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), que estabelece diretrizes para incentivar a inovação, reduzir a geração de resíduos e ampliar o reaproveitamento de materiais. Promove-se uma força institucional capaz de impulsionar novos modelos de negócios.
“A Taxonomia Sustentável Brasileira representa um dos movimentos mais relevantes dos últimos anos. Ao estabelecer critérios técnicos para identificar atividades econômicas alinhadas aos objetivos ambientais, climáticos e sociais do país, ela cria uma linguagem comum entre empresas, investidores, instituições financeiras e formuladores de políticas públicas”, comenta a jornalista.
Mais recentemente, o governo federal lançou o Painel de Indicadores da Economia Circular Brasileira, que reúne informações oficiais sobre uso de materiais, produtividade dos recursos e circularidade nas cadeias produtivas. Trata-se de um passo importante para transformar a economia circular em uma política pública baseada em evidências, e não apenas em boas intenções.
O desafio brasileiro também revela o tamanho da oportunidade em diferentes setores. Na construção civil, resíduos podem ser reinseridos na produção de agregados e componentes. No agronegócio, biomassa e resíduos orgânicos tornam-se fontes de energia, fertilizantes e biocombustíveis. Na indústria têxtil, fibras recicladas e novos modelos de negócios, como revenda, reparo e remanufatura, reduzem desperdícios e descartes irregulares, ressignificando o valor dos produtos.
“Ao participar do Brunch Além do Descarte, a convite de Rachel Maia, percebi que o encontro foi concebido para provocar um diálogo qualificado sobre os desafios, as soluções e os caminhos possíveis para um destino mais sustentável dos resíduos têxteis e seus impactos na sociedade. Diferentes setores estavam olhando para o mesmo problema sob uma perspectiva comum, o que nos permitiu avançar nas soluções”, enfatiza Jamile.
Além dos ganhos ambientais, existe um importante impacto social. A Organização Internacional do Trabalho aponta que a expansão das atividades relacionadas à economia circular tem potencial para gerar milhões de empregos em todo o mundo, especialmente nas áreas de reciclagem, manutenção, logística reversa e remanufatura.
Precisamos de mais encontros com propósitos e da intencionalidade de pequenos grupos. O Brasil possui capacidade industrial, base científica e biodiversidade suficientes para acelerar a transformação dessa vantagem potencial em política industrial, inovação tecnológica e ações compatíveis com as urgências climáticas. Mas ainda falta coletividade para ampliar resultados em espaços que só se chega efetivamente junto.
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue
Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!

