Na mesma semana em que a atriz e cantora Ariana Grande apareceu num videoclipe e despertou comentários alarmados sobre ter emagrecido demais, a influenciadora Georgina Rodríguez publicou fotos de biquíni num barco e precisou vir a público responder aos que a chamaram de gorda. Duas mulheres, dois corpos em direções opostas, e a mesma multidão pronta para avaliar. A cantora que emagreceu demais e a influenciadora que teria engordado demais dividem o mesmo tribunal, que funciona sem pausa e não absolve ninguém.
O caso de Ariana é mais grave porque envolve a suspeita de doença. Uma nutricionista especializada em transtornos alimentares chegou a usar as imagens do clipe para apontar os sinais que procura ao diagnosticar desnutrição, e uma colunista do Washington Post resumiu o impasse com precisão: se ela está doente, devemos dizer que aquele corpo nasce da privação disfarçada de glamour; se está saudável, devemos defender seu direito de ter a aparência que quiser. A pergunta que fica é se ela nos deve alguma explicação, e a resposta honesta é que não deve, embora a fila dos que cobram não pare de crescer.
Georgina, do outro lado, escreveu que acha curioso seu corpo virar notícia todo verão e perguntou quem decide qual é o corpo certo, se ainda achamos que a felicidade tem um tamanho. São perguntas que a psicanálise levaria adiante, porque o que se observa nos dois casos passa longe da preocupação genuína com saúde, ainda que ela funcione como fantasia de legitimidade para exercer o que sempre se exerceu sobre os corpos femininos: vigilância.
Ariana e Georgina, no entanto, estão longe de serem as únicas vítimas desse comportamento. A atriz britânica, Millie Bobby Brown, que cresceu em frente às câmeras, revelou recentemente que recebeu críticas por parecer velha demais, quando tinha apenas 15 anos, e complementou que lidar com comentários sobre sua aparência foi a parte mais difícil de ter começado a carreira tão cedo. Aqui no Brasil, Paolla Oliveira tornou-se um dos principais nomes a combater a pressão estética, após enfrentar uma forte repercussão negativa e julgamentos públicos durante suas aparições no Carnaval, como rainha de bateria da Grande Rio, cargo que ocupou até o ano passado.
O corpo da mulher é tratado, historicamente, como propriedade coletiva. Todos se sentem autorizados a opinar, medir, comparar, alertar, e essa autorização não foi dada por nenhuma das mulheres observadas. Ela vem de uma estrutura muito anterior a qualquer rede social, na qual o feminino se constitui como objeto do olhar antes de poder se constituir como sujeito do próprio corpo. As redes sociais herdaram essa vigilância antiga e a multiplicaram numa escala que nenhuma geração anterior conheceu, transformando o que antes se cochichava na praia em comentário público, assinado, testemunhado por milhões.
A psicanálise acrescenta a esse debate uma camada incômoda: o comentário sobre o corpo alheio raramente fala do corpo alheio. Quem aponta a magreza de Ariana ou as curvas de Georgina está, muitas vezes, administrando a própria angústia diante do espelho, projetando no corpo da outra conflitos que não consegue elaborar em si. Homens e mulheres participam dessa vigilância, mas, entre mulheres, ela ganha uma dimensão particular. A psicanalista e ensaísta Maria Rita Kehl, em Deslocamentos do Feminino, discute como os ideais de feminilidade são incorporados pelas próprias mulheres e passam a funcionar como medida de valor. É nesse contexto que, muitas vezes, a mulher que critica o corpo de outra está repetindo, para fora, a voz que a persegue por dentro, aquela instância crítica que Freud chamou de superego e que, na experiência feminina, fala quase sempre com vocabulário estético. Vigiar o corpo alheio alivia, por instantes, a sentença de nunca estar adequada, e é por esse alívio que a vigilância segue operando, de geração em geração, sem que ninguém precise decretá-la.
O corpo certo, que Georgina pergunta quem define, é uma ficção que se sustenta precisamente por ser inalcançável, porque, enquanto nenhuma mulher chegar lá, todas continuam tentando, se medindo, se punindo e, nos dias piores, punindo umas às outras. Ariana magra demais, Georgina curvilínea demais, e amanhã outra mulher ocupando o mesmo lugar pelo crime de ter um corpo visível. Talvez o único movimento possível diante disso seja o mais discreto: notar a voz que julga no momento em que ela se levanta, dentro de nós, diante da foto de outra mulher, e se perguntar de quem é essa voz, há quanto tempo ela mora aí, e a serviço de quê.
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