Existe um trecho muito bom na entrevista de Nicole Kidman para a edição de setembro da Vogue UK. Aos 59 anos, no meio do seu Euro Summer, a atriz conta que tem ido a raves em Ibiza. Para não ser reconhecida, usa óculos e uma peruca escura. A ideia é entrar na pista, desaparecer por um tempo, e dançar em paz. A imagem é deliciosa porque desmonta uma série de ideias que ainda existem sobre o que uma mulher de quase 60 anos deveria fazer à noite. Jantar? Sim. Teatro? Claro. Uma taça de vinho? Evidentemente. Mas rave?
Madonna, aos 67, acaba de lançar Confessions II, continuação de seu clássico Confessions on a Dance Floor, de 2005. E o novo trabalho é praticamente uma declaração de amor à pista. Na entrevista à Vogue Italia, ela fala da dança como espaço de liberdade, consciência e conexão. “Dançar não é apenas uma coisa estúpida e sem sentido” diz, colocando a pista como um lugar de comunidade e encontro. Mais do que isso, Madonna devolve ao dance floor um lugar que sempre foi importante em sua trajetória: um espaço ainda vivo, onde música, corpo e liberdade continuam se encontrando. Em qualquer momento da vida.
“A noite tem uma dimensão importante de pertencimento. Dançar, encontrar pessoas, ouvir música e participar da vida cultural reforça a sensação de continuar fazendo parte de algo”, diz Pip Seger, mestre em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP e fundadora e head de estratégia d’O Cérebro. O próximo relatório da consultoria, “Brands for the Future: Hábitos de Consumo da Nova geração Prateada”, aponta a pista de dança como um espaço de conexão e pertencimento, associado inclusive à regulação emocional e à redução do estresse, adiantou Pip.
Outro estudo recente, publicado em Psychology of Music, ouviu 136 mulheres entre 40 e 65 anos que frequentam eventos de música eletrônica. A participação em festas e raves apareceu associada a bem-estar mental e físico, conexão social, autoexpressão e uma forma de escapar, ainda que temporariamente, das pressões da vida cotidiana.
E a indústria do entretenimento começou a perceber isso. Dados da Eventbrite, plataforma para eventos e vendas de ingressos, mostraram crescimento de 19% na realização e na presença em festas de dança com repertório nostálgico entre agosto de 2024 e julho de 2025. O fenômeno foi associado ao retorno dos chamados retired ravers, grupo que viveu a cultura das danceterias nas décadas de 1980, 1990 e 2000 e agora estão voltando à pista.
A noite está mais flexível
No Brasil, um dos sinais mais divertidos desse movimento atende pelo nome de Gudinaite. A festa nasceu com a proposta de resgatar a atmosfera das discotecas dos anos 1970 e 1980 para um público que já passou dos 50, sem a necessidade de esperar até duas da manhã para a balada começar. A pista abre cedo, com edições que terminam antes da meia-noite. É gente dançando, paquerando, encontrando amigos… E, vamos combinar, é uma adaptação bastante esperta da vida adulta: ninguém precisa escolher entre dançar e conseguir funcionar no dia seguinte.
E a onda está crescendo. Dados da Eventbrite mostram que, entre agosto de 2024 e julho de 2025, eventos de dança com repertório nostálgico tiveram crescimento de 19% tanto em número de eventos quanto em público. A plataforma relacionou o movimento ao retorno dos chamados retired ravers, pessoas que viveram a cultura das pistas nas décadas de 1980, 1990 e 2000 e agora estão voltando a esses ambientes.
Pip chama atenção para essa dimensão social da noite. Dançar, encontrar pessoas, ouvir música e participar da vida cultural ajuda a reforçar a sensação de continuar fazendo parte de uma experiência coletiva. Não é pouca coisa. Ao longo da vida adulta, especialmente para as mulheres, o círculo social pode se transformar, os filhos crescem, o trabalho muda, os encontros deixam de acontecer com a mesma espontaneidade. A pista oferece uma espécie de território neutro: ninguém precisa ter uma função específica, basta estar ali.
“Existe uma quantidade enorme de roteiros sociais associados à idade, e eles pesam especialmente sobre as mulheres”, diz Pip. Em determinado momento, espera-se que a gente mude a maneira de vestir, de circular, de demonstrar desejo e até de se divertir. O problema é que a idade cronológica não determina automaticamente o que uma pessoa quer fazer. “Em vez de perguntar ‘o que uma mulher da minha idade deveria fazer?’, ela passa a perguntar ‘o que eu quero fazer?’”, afirma a psicóloga. “Isso não quer dizer que ela está quebrando uma regra. A regra é que está desatualizada.”
A frase explica bem por que a imagem de Nicole Kidman, aos 59, indo a raves em Ibiza é tão boa. Não há necessariamente uma rebeldia ali. Há uma mulher fazendo uma coisa que gosta de fazer. Simples, assim.
Naomi Campbell, aos 55, se tornou DJ e falou sobre a possibilidade de conectar pessoas por meio da música. “Quando misturo afrobeat, com London beats e jogo um ritmo brasileiro no meio, vejo as pessoas se conectarem através do som”, disse.
Para J.Lo, a pista não é exatamente um retorno — dançar sempre foi parte de sua linguagem. Mas vê-la aos 57 continuar ocupando esse lugar ajuda a reforçar a ideia de que a maturidade não precisa significar uma retirada gradual da cena. A pista pode continuar sendo encontro, celebração ou simplesmente diversão.
E há, ainda, outro bom ponto nessa história: o corpo. “Existe uma diferença muito importante entre o corpo observado e o corpo vivido”, diz Pip. Durante grande parte da vida das mulheres, explica ela, o corpo aparece constantemente como algo a ser avaliado: se está magro, jovem, bonito, adequado, desejável. Na dança, ele assume outro papel, um extremamente libertador. “Ele deixa de existir prioritariamente para ser olhado, avaliado e discriminado e passa a ser um veículo para sentir, experimentar e viver.”

