Por décadas, o futebol foi contado e protagonizado por homens. Foram eles que moldaram a emoção do gol, a memória das Copas e o ritmo das tardes de domingo. Pouco a pouco, e sob resistência, novas vozes começaram a atravessar esse território. Vozes femininas, que não apenas narram partidas, mas reescrevem o próprio lugar das mulheres na cobertura do esporte.
Na Copa do Mundo de 2026, sediada por Canadá, Estados Unidos e México, esse movimento ganha novos contornos. Embora as mulheres estejam cada vez mais presentes na comunicação esportiva, seja como repórteres, comentaristas, apresentadoras, produtoras ou cinegrafistas, a narração ainda segue como um espaço majoritariamente masculino. Entre as grandes transmissoras do torneio, apenas o Grupo Globo conta com narradoras na equipe principal. Outras plataformas, como ESPN e CazéTV, ampliam a participação feminina com comentaristas, mas ainda não avançaram na mesma medida quando o assunto é quem conduz o jogo com a voz.
A ausência de mulheres na narração esportiva, no entanto, é histórica. Nos anos 1970, um experimento surgiu em São Paulo: a Rádio Mulher. Criada em 1971, a emissora tinha uma proposta radical para a época: uma equipe inteiramente feminina, da locução à operação. À frente das transmissões esportivas, nomes como Zuleide Ranieri e Claudete Troiano desafiaram o imaginário coletivo ao narrar partidas de futebol em um período em que mulheres sequer eram reconhecidas como parte legítima desse universo. O projeto, que também contava com profissionais como Léa Campos, primeira árbitra de futebol do mundo, enfrentou resistência, mas conquistou respeito, inclusive de atletas e dirigentes. Ainda assim, durou apenas até 1976. Era cedo demais para sustentar uma ruptura tão profunda.
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Décadas depois, nos anos 1990, Luciana Mariano abriria outro caminho ao se tornar a primeira mulher a narrar futebol na televisão brasileira. Em 2024, ela atingiu a marca simbólica de mil jogos narrados, um feito que consolida não apenas sua trajetória, mas a persistência de quem precisou legitimar sua presença repetidas vezes.
Nos últimos anos, a mudança começou a ganhar escala. Renata Silveira se tornou um dos rostos mais emblemáticos dessa transformação. Em 2014, foi a primeira mulher a narrar uma Copa do Mundo na Rádio Globo, depois de vencer o concurso “Garota da Voz”. Em 2022, foi a primeira a narrar uma partida de Copa do Mundo na TV aberta brasileira. Agora, em 2026, alcançou mais um marco: tornou-se a primeira brasileira a narrar um jogo de Mundial diretamente do estádio para a televisão aberta, durante a partida entre Bélgica e Egito. Um feito que, para além do simbolismo, reposiciona o lugar da mulher na linha de frente da cobertura esportiva.
Ainda assim, o caminho está longe de ser justo. “Ninguém critica o homem porque ele é homem, mesmo que não goste da sua narração ou não concorde com o que ele está falando. Já a crítica à mulher é sempre porque ela é mulher. Ponto”, resume a narradora Isabelly Morais, uma das vozes escaladas pelo sportv para narrar os jogos da Copa deste ano. Em entrevista à Vogue Brasil, ela conta que sua história atravessa não apenas a paixão pelo esporte, mas também o enfrentamento cotidiano do preconceito. Segundo Isabelly, a resistência à narração feminina, muitas vezes, não é explícita, mas estrutural. Está na desconfiança automática, na necessidade constante de provar competência e na cobrança por perfeição.
Formada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ela também fez história, em 2017, ao narrar uma partida de futebol no estado mineiro, tornando-se a primeira mulher a fazê-lo, e isso com apenas 20 anos. Na época, o veículo em que trabalhava, a Rádio Inconfidência, chegou a perder afiliadas que se recusavam a retransmitir uma partida narrada por uma mulher. “Costumo brincar que para cada crítica preconceituosa, narro mais um gol”, diz bem-humorada. E, de fato, é isso o que ela tem feito desde então. No ano seguinte, em 2018, foi uma das três candidatas selecionadas entre 300 participantes para narrar a Copa do Mundo da Rússia. As outras duas escolhidas eram Renata Silveira e Manuela Avena, que hoje atua como narradora na TV do Esporte Clube Bahia.
Natalia Lara, também parte do time de narradores do sportv, corrobora: “Estamos sendo analisadas o tempo todo, seja pela voz, pela aparência ou pelo simples fato de estar ali”, comenta. “A melhor forma de responder é narrando”. Para ela, a discussão ultrapassa a técnica e toca em construções culturais profundas. “Emoção não tem gênero, mas fomos ensinados a associar a emoção do futebol à voz masculina”.
A profissional, que se formou em Rádio e TV pela Faculdade Cásper Líbero e iniciou sua carreira no jornalismo esportivo estagiando na Rádio Gazeta, ainda aponta para outro aspecto dessa transformação: o poder simbólico da presença: “O jogo continua sendo o protagonista. O que muda, quando uma mulher assume o microfone, é a voz que conduz, que passa a palavra e organiza aquela narrativa. E isso transforma perspectivas”.
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Ao lado delas, novas vozes emergem. Letícia Macedo, revelada pela CazéTV, aos 19 anos, durante a Copa do Mundo feminina de 2023, tornou-se a narradora mais jovem a comandar um jogo do torneio. Hoje, ela segue construindo sua trajetória em plataformas digitais e narra as partidas da Copa 2026 na Flashscore. Letícia faz parte de uma geração que cresce já enxergando possibilidades que antes não existiam. No fundo, o que parece estar em jogo não é apenas quem narra, mas quem tem o direito de contar a história.
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