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Você está preparado para trabalhar até os 70?


Talvez a pergunta pareça distante para alguns e desconfortável para outros, mas ela já deveria estar na mesa de quem discute o futuro do trabalho. Vivemos mais, permanecemos produtivos por mais tempo e atravessamos transformações tecnológicas em uma velocidade inédita. Ainda assim, grande parte das empresas continua organizando as carreiras a partir de uma lógica construída em uma época na qual chegar aos 60 anos significava estar próximo do fim da vida profissional. A longevidade mudou. O trabalho também terá de mudar.

A nossa CLT foi criada em 1943. O Brasil era outro país. A expectativa de vida em 1940 era de 45 anos. Em treinamentos, gosto de brincar com a audiência e a plateia que eu, hoje com 44 anos, já estaria pensando no fim. Faço isso para ilustrar a completa mudança de sociedade; eu, hoje, sou considerada uma mulher jovem, com 20 anos de experiência no mercado de trabalho e, possivelmente, no meio da carreira.

Oito décadas depois da elaboração da nossa CLT, a expectativa de vida do brasileiro chegou a 76,6 anos. Ganhamos mais de três décadas de vida, mas ainda organizamos boa parte das nossas carreiras a partir de uma lógica construída para uma sociedade que envelhecia muito menos. Não à toa, as empresas vêm trazendo cada vez mais novos temas para a agenda corporativa, como a menopausa. Astellas Farma Brasil, Nestlé e Diageo são alguns exemplos de organizações que já desenvolveram guias e políticas sobre o tema.

Além disso, temos acompanhado, entre os parceiros da Gestão Kairós, histórias que surpreendem e ajudam a dimensionar como a longevidade está transformando o mundo do trabalho. Ainda esta semana, em uma conversa com um C-Level de uma gigante do setor de bebidas, ele relatou uma experiência vivida durante uma visita a um Centro de Distribuição. Ao conversar com uma profissional com mais de 60 anos, ele contou que tinha 35 anos de empresa. Em resposta, ela revelou que tinha apenas um ano de casa e agradeceu à companhia pela oportunidade de, depois dos 60 anos, conseguir seu primeiro emprego. O contraste entre duas trajetórias tão diferentes dentro da mesma organização diz muito sobre um mercado de trabalho que precisará aprender a enxergar carreira, produtividade e talento para além da idade.

Dentro das grandes empresas, de acordo com o estudo Diversidade, Representatividade e Percepção – Censo Multissetorial da Gestão Kairós (com mais de 26 mil respondentes), pessoas com 40 anos ou mais representam 24% do quadro funcional. Mas, quando consideramos os profissionais respondentes com 50 anos ou mais, há somente 5,2%. Ou seja, uma queda considerável de quase 20 pontos percentuais.

Talvez seja essa uma das grandes contradições do futuro do trabalho. Seguimos tratando os 50 como o início do declínio profissional, os 60 como idade de saída e os 70 como uma exceção. Tudo isso em meio a uma Quarta Revolução Industrial que promete uma revolução ainda maior na nossa expectativa de vida e transforma completamente o mundo do trabalho. Por isso, a pergunta que tenho feito para as pessoas com as quais converso e quero dirigir aqui a você é: está preparado para trabalhar até os 70 anos ou ainda mais do que isso? Diferentemente dos nossos pais e mães, avôs e avós, que tinham uma única carreira ao longo da vida, quantas será que nós teremos? Você trabalha com algo que o faz feliz?

No dia 1º de outubro, celebramos o Dia Nacional e Internacional da Pessoa Idosa, e a data, mais do que nunca, nos dá a oportunidade de pensar e refletir sobre como encaramos o processo de envelhecimento, a vida aos mais de 70, 80, 90 anos e qual é o nosso plano para chegar até lá, perpassando também a nossa relação com o trabalho.

Para as empresas, que tendem a ser velozes em alguns temas e lentas em outros, fica uma reflexão igualmente urgente: como se preparar para um mercado de trabalho no qual diferentes gerações coexistirão por cada vez mais tempo? Não se trata apenas de incluir profissionais mais velhos, mas de rever modelos de carreira, desenvolvimento, aprendizagem, liderança e até a própria ideia de produtividade. Para nós, individualmente, talvez seja hora de abandonar a ideia de uma carreira com começo, meio e fim tão bem definidos. Viver mais significa, possivelmente, trabalhar por mais tempo, aprender por mais tempo, mudar de profissão mais de uma vez e construir novas versões de nós mesmos ao longo da vida.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Brasil.

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