O Brasil está entre os 29 países que assinaram o documento de criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), anunciada em julho deste ano, com sede em Xangai, na China. A iniciativa visa desenvolver uma governança global de IA por meio de modelos de código aberto, facilitando a apropriação da tecnologia por empresas e organizações.
Essa abordagem liderada pela China se contrapõe ao projeto dos Estados Unidos para o futuro da IA, denominado Pax Silica, que reúne “aliados confiáveis” de Washington para controlar cadeias de suprimento de semicondutores, minerais críticos e energia.
Especialistas em Inteligência Artificial consultados pela Agência Brasil veem a Waico como uma oportunidade para o Brasil avançar em sua soberania digital. Contudo, para aproveitar essa chance, será necessário um esforço interno significativo, conforme explicou Sérgio Amadeu da Silveira, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC).
O sociólogo ressalta que o Brasil, com sua dimensão e centros de pesquisa universitários robustos, está em uma posição privilegiada para o desenvolvimento da IA. “O Brasil pode encontrar um caminho de desenvolvimento que seja mais autônomo, mais independente. Sem dúvida nenhuma, o Brasil deve ter uma aliança maior com a China, mas temos que desenvolver nossa própria estratégia”, avaliou.
Amadeu alertou que, sem o desenvolvimento de uma infraestrutura crítica em IA e soberania sobre os dados produzidos no país, a cooperação com a China não será plenamente aproveitada. Ele exemplificou que, ao receber R$ 10 milhões para projetos de IA em sua universidade, R$ 5 milhões teriam que ser gastos apenas em contratos de armazenamento em nuvem com grandes empresas de tecnologia, como Amazon ou Huawei.
“Eu não tenho infraestrutura disponível aqui que me permita que os pesquisadores, as universidades e o próprio governo, em vez de sustentar big tech estrangeira, gaste recursos criando expertise e infraestrutura no nosso país para processamento e armazenamento de dados, que nos dê um poder computacional grande”, comentou o professor.
Ettore Arpini, especialista em governança de IA e fundador da Plures, organização que apoia a formação de profissionais na área, destacou que o Brasil tem potencial para ser um ator chave na geopolítica da IA. Sua capacidade de transitar entre as iniciativas chinesas e ocidentais confere-lhe uma posição estratégica.
“O mais importante é o Brasil não entender a IA como algo setorial, não basta uma política de IA, ou apenas regular esse mercado. É preciso entender como uma vantagem geopolítica, econômica, mas também como uma potencial alavanca de prosperidade para o nosso povo, que surge poucas vezes na história de um país”, concluiu Arpini.
O Brasil na Geopolítica da IA
O governo brasileiro tem defendido uma postura independente, evitando a dependência de qualquer modelo de IA, seja chinês ou ocidental. O país busca dialogar com todas as iniciativas que possam fortalecer sua soberania digital.
Em fóruns multilaterais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem enfatizado que a IA não pode se tornar um privilégio de poucos países ou um instrumento de manipulação. Ele defende a necessidade de uma governança intergovernamental da IA, com representação de todos os Estados.
Especialistas reiteram que a IA é uma tecnologia transformadora, com potencial para impactar todos os setores econômicos, assim como a eletricidade ou a internet no passado.
No lançamento da Waico, em Xangai, o secretário-geral das Nações Unidas (ONU), António Guterres, afirmou que a IA pode ser a “maior oportunidade da humanidade no século XXI”, mas também “pode se tornar um dos seus maiores riscos”.
“A tecnologia que moldará o futuro da humanidade deve ser moldada por toda a humanidade. Não pode ser governado por um punhado de países ou por um punhado de empresas. Todas as nações precisam de um lugar à mesa”, disse o chefe da ONU.
Pax Silica: A Visão Americana
O projeto de uma IA governada por todos os países contraria a visão dos Estados Unidos para o futuro da tecnologia. Washington enxerga a IA como um pilar da estrutura de poder global e, através da Pax Silica, busca controlar as cadeias de suprimento de minerais críticos, dados e energia essenciais para o funcionamento da IA.

