TV NEWS

Em delação, Lessa citou como comparsa em execução PM envolvido na morte de PatrĂ­cia Amieiro, que completa 16 anos

.

Por Redação em 11/06/2024 às 04:22:58
O assassino-confesso da vereadora Marielle Franco contou que executou o ex-policial André Henrique da Silva Souza, o André Zóio. Segundo Lessa, o PM Fábio da Silveira Santana, o Fábio Caveira, participou do crime e seria o responsável por matar a namorada de André, Juliana Sales de Oliveira. Fábio é réu por fraude processual no caso Patrícia Amieiro. Patrícia Amieiro

Reprodução/TV Globo

O Policial Militar Fábio Silveira Santana, um dos réus do caso Patrícia Amieiro, engenheira que desapareceu em junho de 2008, após seu carro ser atingido por tiros de policiais, foi apontado por Ronnie Lessa como um de seus parceiros de crime.

A morte de Patrícia completa 16 anos na próxima sexta-feira (14). A Justiça marcou para o próximo dia 20 o novo júri popular do caso. São réus os PMs Marcos Paulo Nogueira Maranhão e William Luís Nascimento, que vão responder por tentativa de homicídio, além de Fábio Silveira Santana e Marcos Oliveira, que passarão por um novo julgamento por fraude processual.

Assassino-confesso de Marielle Franco, Lessa virou delator no processo que investiga a morte da vereadora e de seu motorista Anderson Gomes. Em seu relato, Lessa identificou Domingos Brazão, ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro, e Chiquinho Brazão, deputado federal, como mandantes. Os irmãos Brazão foram presos pela PF.

Parceria no crime

Durante a delação, Ronnie Lessa também confessou a participação em outros crimes, como por exemplo a morte do ex-policial André Henrique da Silva Souza, o André Zóio, e sua namorada Juliana Sales de Oliveira.

Ronnie Lessa durante depoimento de delação premiada, realizado em agosto de 2023 no presídio

Divulgação

Segundo Lessa, Juliana foi morta por Fábio, que teria descumprido o combinado entre eles no dia da execução de Zoio, no dia 14 de junho de 2014, na Gardênia Azul, comunidade na Zona Oeste do Rio.

André Zoio foi apontado pelo Ministério Público como miliciano com atuação em Campo Grande e que estaria, naquela época, tentando ocupar a região da Freguesia, em Jacarepaguá.

"De antemão, eu assumo o crime do André. Não da Juliana", respondeu Lessa ao ser questionado sobre o caso.

Justiça acolhe depoimento de nova testemunha do caso Patrícia Amieiro

Caso Patrícia Amieiro: entenda as diferenças das versões da PM e do taxista que viu a jovem viva dentro do carro

Em delação, Lessa disse que quase matou Marielle 3 meses antes, em bar, mas 'perdeu oportunidade'

Lessa contou aos investigadores que o motivo para a morte de André foi um desentendimento entre eles. O matador lembrou que não gostou quando foi abordado pelo ex-PM. Segundo Lessa, André queria que ele dividisse os lucros que tinha com máquinas eletrônicas da região.

"Eu fui importunado pelo nacional André. Eu tinha máquinas de música e fliperamas naquela região toda ali, Gardênia Azul, Rio das Pedras e Araticum. (...) Após a guerra na região, ficou no comando o Zoio e um tal de Grande", relatou Lessa.

"Ele me mandou alguns recados através do operador, que recolhia as moedas de um real que eram colocadas nas máquinas. Ele disse que queria uma parte do lucro das máquinas. Eu resisti e não queria pagar. Mandei um recado mau criado pra ele falando que não iria pagar e acabei não pagando", disse Lessa.

Ronnie Lessa contou sobre um dia em 2014, quando estava em um restaurante com o filho de 11 anos. Na ocasião, Lessa lembrou que discutiu com André, os dois puxaram suas armas, mas o ex-pm acabou rendido.

"Eu rendi ele e acabei tomando a arma dele. Depois mandei devolver no dia seguinte pra não ter mais problema. Isso pra ele foi uma afronta danada. (...) não queria assunto e mandei ele embora", contou Lessa.

Erro na execução

Logo após expulsar André do restaurante, Lessa disse que o policial que fazia a segurança da região chegou para conversar com ele. Era o velho amigo de farda Fábio Silveira Santana, conhecido como Fabio Caveira.

"Ele veio em apoio na verdade. Todo mundo já tinha um receio da chegada desse pessoal de Campo Grande ali. Querendo ou não, o Gardênia ta no meio de um bairro altamente familiar que é a Freguesia"

"Nós decidimos eliminá-lo para evitar que fossemos eliminados", relembrou Lessa

Caso Marielle: novos trechos da delação de Ronnie Lessa

A partir daí os dois começaram a planejar como iriam matar o miliciano que tentava ocupar a região que eles tinham como território de atuação.

"Eu tinha nessa época um fuzil AK-47, o Fábio trouxe um AR-15, nós decidimos ir lá", contou.

"Nós decidimos usar esse tipo de armamento porque nós teríamos que ir dentro da Gardênia Azul, no foco da milícia, e enfrentar um dos donos da favela. Então uma possível reação era bem provável. O que acabou não acontecendo", disse.

Jovem assassinada

No dia de executar o plano, segundo Ronnie Lessa, a dupla seguiu em um carro modelo Doblô, de cor branca, até o endereço onde encontrariam André Zoio. Além de Lessa e Fábio, também participou da ação como motorista Luiz Paulo de Lemos Júnior, o Juninho.

Assim que avistaram o veículo de André, um Honda Civic de cor prata, eles estacionaram o carro na esquina da rua onde estava o alvo. André desceu do prédio com a namorada, Juliana Sales Oliveira, de 27 anos.

"Quando ele saiu da vaga ele foi logo morto. (...) por mim. Disparos de AK-47", afirmou Lessa.

Ainda de acordo com a delação de Lessa, no momento da fuga, Fábio decidiu descer do carro e fazer novos disparos na lateral do veículo onde estavam André e Juliana.

"Ele já estava morto, a companheira dele não. Os primeiros tiros foram no vidro, mas somente na direção dele, nele. O Fábio desceu do carro, que não era missão dele, não era isso. Ele simplesmente estava ali para fazer a minha segurança nesse caso, que era pra fazer a segurança do perímetro".

"Quando eu falo pro Juninho acelerar, o Juninho acelera pra gente ir embora, o Fábio abre a porta traseira da Doblô, cai no chão, caiu ele para um lado, fuzil para o outro. Mesmo assim ele foi lá. Foi pela lateral do carro, deu uma sequência de tiros. Os tiros que atingiram a menina", completou Lessa.

Nesse momento do depoimento é possível perceber a irritação de Lessa com a atitude do amigo.

"Quando o Fábio sai, supostamente para conferir o que não precisava ser conferido, ele vem pela lateral do carro, dá mais um monte de tiro no André que já estava morto e mata a menina", completa.

Construção irregular tem 21 prédios com 200 apartamentos na Gardênia Azul

Reprodução/TV Globo

Lessa lembra que a partir dessa situação a amizade entre ele e Fábio acabou. Segundo ele, por muito pouco os dois não trocaram tiros dentro do próprio carro.

"Ele voltou para o carro, nós discutimos, batemos de frente e quase teve uma tragédia dentro carro. (...) A partir disso, nossa amizade já não era mais amizade. É até arriscada. Eu evitava chegar perto dele e ele evitava chegar perto de mim", contou.

Júri popular por duplo homicídio

Em junho do ano passado, o juiz Alexandre Abrahão, da 3ÂȘ Vara Especializada em Organização Criminosa do Tribunal de Justiça (TJRJ) decidiu que o ex-vereador Cristiano Girão e o ex-policial militar Ronnie Lessa irão a júri popular pelo duplo homicídio de um rival do ex-vereador, em 2014.

O rival seria André Zoio, morto junto com a namorada, Juliana Sales. Segundo a denúncia do Ministério Público, a razão para o atentado era a disputa por milicianos pelo controle da Gardênia Azul.

Cristiano Girão foi condenado por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro por comandar a milícia da Gardênia Azul.

Justiça diz que o ex-PM Ronnie Lessa e o ex-vereador Cristiano Girão vão a júri popular

Ele estava na cadeia na época dos assassinatos do André e Juliana, mas, segundo o MPRJ, de lá ainda controlava a quadrilha.

16 anos da morte da engenheira

O policial Fábio, que é acusado por Lessa de matar Juliana Sales, também está envolvido em outro crime relevante e de difícil conclusão.

No dia 14 de junho de 2008, a engenheira Patrícia Amieiro foi vista com vida pela última vez. Segundo a denúncia, ela foi morta, aos 24 anos, na Barra da Tijuca, quando voltava de uma festa na Zona Sul do Rio e teve seu carro atingido por tiros de policiais.

Carro da engenheira Patrícia Amieiro

Reprodução/TV Globo

Segundo as investigações, quatro policiais militares se envolveram com o crime. O corpo de Patrícia nunca foi encontrado.

Segundo a polícia, Patrícia perdeu o controle do veículo após os tiros e colidiu em dois postes e uma mureta. Na época, o carro foi encontrado na beira do Canal de Marapendi, na Barra da Tijuca, com o vidro traseiro quebrado e o porta-malas aberto.

Para o Ministério Público, o corpo foi retirado do veículo e o carro jogado no canal pelos policiais envolvidos na ocorrência para impedir que o homicídio fosse descoberto.

No primeiro julgamento, em dezembro de 2019, os policiais militares Marcos Paulo Nogueira Maranhão e William Luís Nascimento foram condenados a três anos de prisão por fraude processual. Também acusados de envolvimento no caso, os PMs Fábio Silveira Santana e Marcos Oliveira foram absolvidos.

Caso Patrícia Amieiro: testemunha diz ter visto PMs levando a engenheira ainda viva

Em setembro de 2020, uma nova testemunha do caso se apresentou para prestar depoimento ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ).

A família diz que a testemunha afirmou categoricamente, "com riquezas de detalhes", ter visto Patrícia Amieiro ser retirada do carro ainda viva e que ela ainda mexia os braços quando foi retirada pelos policiais do veículo.

Os parentes de Patrícia agora aguardam pelo novo júri popular que está marcado para o dia 20 de junho.

O g1 tentou buscar contato com a defesa do policial Fábio da Silveira Santana, mas não teve retorno até a última atualização desta reportagem.
Comunicar erro
SPJ JORNAL 2