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Girão confronta a omissão de Alcolumbre no caso Master

A volta dos trabalhos legislativos foi marcada por um pronunciamento direto do senador Eduardo Girão (Novo-CE), que se dirigiu a Davi Alcolumbre (União-AP) enquanto o presidente do Senado conduzia a sessão desta terça-feira (24), para responsabilizá-lo pela inércia do Congresso diante do caso Banco Master e exigir a instalação imediata de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) — seja só do Senado, da qual é autor do requerimento, ou junto com a Câmara — para investigar “a maior fraude financeira da história”.

Girão listou fatos graves que vão além da disputa político-ideológica e expôs o anseio da sociedade por “uma resposta que só o Legislativo pode dar”. Pediu ainda a abertura de processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) envolvidos no escândalo — Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. “A CPI é inegociável. Temos há três meses o apoio expressivo de 51 dos 81 colegas e não vamos aceitar atalhos”, discursou.

No momento mais tenso do discurso, Girão afirmou que Alcolumbre seria “talvez o maior responsável” pela desmoralização do Senado. Disse que o prazo para mudar já se esgotou e que o presidente da Casa não tem mais como “tapar o sol com a peneira” nem varrer escândalos “para debaixo do tapete”. “Não faça isso com o Brasil! A paz da indiferença é o oposto da paz verdadeira, que exige ação e justiça. O Senado precisa ser respeitado e não pode estar a serviço de quem quer que seja”.

Alcolumbre ouviu toda a fala do senador cearense com atenção, mas sem reagir, incluindo o momento no qual foi cobrado como representante do Amapá, estado diretamente atingido pelo escândalo, com a perda de R$ 400 milhões do fundo de previdência dos servidores estaduais aplicados no banco. “O senhor deveria ser o primeiro a querer investigar tudo”, disse. À Gazeta do Povo, Girão disse que, com a fala, cumpriu “o dever de senador”.

Girão cobra reação do presidente do Senado ao escândalo

Logo no começo, Girão descreveu a reabertura do plenário após o recesso parlamentar como o fim de “longo e tenebroso inverno” e disse nunca ter visto, em sete anos de mandato, o Senado praticamente fechado durante todo o mês de fevereiro em meio a escândalos que exigem reação imediata. Segundo Girão, “a Casa fechou para balanço enquanto o país aguardava reação”.

Mirando os olhos de Alcolumbre, Girão relembrou a promessa feita por ele ao chegar à Presidência do Senado pela primeira vez, em 2019, de acabar com o domínio da falta de transparência na Casa. No lugar disso, salienta, veio a “República do segredismo”, citando o sigilo de 100 anos imposto pela Casa sobre informações envolvendo as visitas do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”, aos gabinetes de senadores.

Ao pressionar pela investigação do escândalo, Girão lembrou que o requerimento de CPI está parado há meses na Mesa do Senado, sem manifestação alguma de Alcolumbre. Ele ainda rejeitou movimentos em favor de acordos para esvaziar a pressão, como o que trocaria o engavetamento dos pedidos de comissão de inquérito pela votação do veto presidencial ao projeto de redução das penas dos condenados no 8 de janeiro. “É outra coisa”, rebateu.

O discurso ganhou contornos eleitorais com o aparte do líder da oposição, senador Rogério Marinho (PL-RN), que associou os escândalos financeiros aos governos do PT e chamou de “chantagem” a tentativa de condicionar votações à desistência de investigações. Girão respondeu dizendo que irá “às últimas consequências” para que a CPI do Senado seja aberta, pois as “barbaridades” do banco têm de ser desvendadas na Casa.

Na reta final, Girão mira governo do Ceará

Ao longo de sua fala, Girão mencionou “129 milhões de razões” para analisar contratos firmados com o banco, em alusão ao valor acertado com o escritório de Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes. O contrato, no qual Viviane receberia essa quantia para defender o banco, foi revelado pelo jornal O Globo. O caso aponta um possível conflito de interesses.

A manifestação de Girão contra a passividade de Alcolumbre ocorre em meio à sua decisão de não disputar novo mandato no Senado. Ele é pré-candidato ao governo do Ceará, sendo apoiado por senadores de direita e pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), gesto que acabou levando ao rompimento do acordo prévio entre o partido dela e o grupo de Ciro Gomes (PSDB) para o pleito de 2026.

O discurso reforçou a posição incisiva de Girão. Líder de si na bancada unitária do Novo e articulado com parlamentares da oposição e da minoria, o senador se apresenta como independente, sem vinculação formal a Jair Bolsonaro (PL), embora mantenha postura muito crítica ao que chama de perseguição à direita em geral e ao ex-presidente em particular, promovida pela esquerda, governo e Judiciário.

Ao longo de 2025, Girão criticou a “blindagem” da Presidência do Senado, afirmando que Alcolumbre evitava sessões presenciais para evitar temas espinhosos para o governo e para o Judiciário. Ele chegou a chamar o comando da Casa de uma “tragédia” para a independência do Legislativo, sempre reafirmando haver “desmoralização” desse poder da República na sociedade em razão da falta absoluta de liderança responsável.

Na maioria das vezes, suas investidas verbais e regimentais para denunciar a omissão do Senado diante de situações críticas e do clamor da sociedade são seguidas pelo senador Cleitinho (Republicanos-MG), além de outros como Rogério Marinho, Magno Malta (PL-ES) e Carlos Portinho (PL-RJ).

Para entender a disposição de Girão para o confronto, vale conhecer a trajetória de quem chegou ao Senado vindo do mundo dos negócios.

Empresário e político, Girão se diz independente, mas tem apoio da direita

Luís Eduardo Grangeiro Girão, 52 anos, tem longa e bem-sucedida trajetória como empresário nas áreas de segurança e hotelaria. Espírita, fundou em 2004 a Associação Estação da Luz, voltada para a produção cinematográfica com temas de espiritualidade e causas sociais. Ganhou destaque público ao presidir em 2018 o Fortaleza Esporte Clube, quando chegou à Série B.

Eleito senador em 2018, seu mandato vai até fevereiro de 2027. Sua atuação é focada nos combates ao aborto, à corrupção e à legalização de drogas e jogos de azar. Foi candidato a prefeito da capital cearense em 2024, ficando em quinto lugar, com 14,8 mil votos.

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