O ministro da Fazenda, Fernando Haddad | Foto: Diogo Zacarias/MF
Governo brasileiro prepara medidas emergenciais para amparar exportadores diante de possível aumento de tarifas dos EUA
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta quarta-feira (24) que o governo brasileiro já está elaborando um plano de contingência para proteger setores da economia nacional que possam ser impactados caso o ex-presidente Donald Trump volte ao poder e leve adiante a proposta de aplicar um “tarifaço” de até 10% sobre todas as importações dos Estados Unidos.
Segundo Haddad, o plano inclui linhas de crédito emergenciais, incentivos à diversificação de mercados e estímulos à industrialização interna, com o objetivo de minimizar os danos sobre as exportações brasileiras, especialmente de produtos manufaturados e do agronegócio.
“Já estamos conversando com o BNDES, com o Banco do Brasil e com outros órgãos de crédito para oferecer suporte a empresas que venham a ser afetadas”, declarou Haddad. “Nosso foco será preservar empregos e garantir que o setor produtivo tenha alternativas.”
Entenda o contexto: o que é o “tarifaço” de Trump?
Durante a campanha presidencial de 2024, o ex-presidente Donald Trump — que lidera as pesquisas republicanas e tem chances reais de voltar à Casa Branca — propôs a implementação de uma tarifa de 10% sobre todos os produtos importados pelos EUA. A medida, segundo ele, visa fortalecer a indústria americana, proteger empregos e reduzir o déficit comercial.
A proposta, no entanto, gerou preocupação em diversos países, inclusive o Brasil, que tem nos Estados Unidos seu segundo maior parceiro comercial, atrás apenas da China.
Setores brasileiros mais vulneráveis
Se o tarifaço for implementado, o impacto seria sentido especialmente em setores como:
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Agronegócio: Exportações de carne bovina, suco de laranja, café e soja podem sofrer com a perda de competitividade.
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Indústria automotiva: Peças e veículos exportados do Brasil aos EUA enfrentariam aumento de custo.
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Metalurgia e química: Produtos como aço, alumínio e derivados químicos são importantes na balança comercial com os norte-americanos.
O governo calcula que o prejuízo anual poderia ultrapassar US$ 7 bilhões, com queda imediata no fluxo comercial bilateral.
Reação do Itamaraty e estratégia diplomática
O Itamaraty, por sua vez, já começou a atuar nos bastidores para formar uma frente de diálogo com outros países latino-americanos, europeus e asiáticos que também seriam prejudicados por uma política tarifária agressiva de um eventual novo governo Trump.
De acordo com fontes diplomáticas, a estratégia brasileira será buscar articulações multilaterais, tanto na OMC (Organização Mundial do Comércio) quanto no G20, para reforçar a importância do livre comércio e da previsibilidade nas relações comerciais internacionais.
Plano de contingência: pilares principais
Fernando Haddad adiantou que o plano brasileiro está baseado em cinco frentes:
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Linhas de crédito especiais para exportadores afetados.
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Redução de custos logísticos e tributários para ampliar a competitividade externa.
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Ampliação de acordos comerciais com Ásia, África e América Latina.
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Reforço do Programa de Aceleração da Industrialização (PAI) para reduzir dependência das exportações brutas.
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Criação de um fundo de compensação cambial para amortecer oscilações em caso de guerra comercial.
Analistas preveem cenário desafiador
Especialistas em economia internacional alertam que uma possível vitória de Trump pode desencadear uma nova onda protecionista mundial, afetando principalmente os países emergentes que dependem do acesso ao mercado norte-americano.
“Um tarifaço desse porte afeta não apenas o Brasil, mas todo o comércio global. O risco de retaliações é real, o que pode gerar uma espécie de guerra comercial 2.0”, disse a economista Fernanda Guardado, ex-diretora do Banco Central.
Reação do setor produtivo brasileiro
Entidades como a CNI (Confederação Nacional da Indústria) e a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) já demonstraram preocupação com os desdobramentos das eleições norte-americanas. Ambas pressionam o governo federal por ações imediatas e defendem uma postura firme em negociações multilaterais.
O presidente da CNI, Robson Braga de Andrade, afirmou que “as empresas brasileiras precisam de segurança jurídica e previsibilidade, algo que pode ser destruído por uma medida unilateral como essa dos EUA”.
Conclusão: monitoramento e resposta rápida
O governo Lula tem sinalizado que, independentemente do resultado das eleições nos EUA, manterá a vigilância e a articulação com seus principais parceiros comerciais. O plano de contingência liderado por Fernando Haddad é visto como uma resposta pragmática e preventiva, para garantir que o Brasil não seja surpreendido e consiga agir com agilidade.
Enquanto isso, o cenário permanece incerto, e os próximos meses serão decisivos tanto no campo político norte-americano quanto nas definições de política externa brasileira.

