Pesquisas indicam que a crença na justiça do sistema econômico, muitas vezes ligada à meritocracia, está associada a maior preconceito contra o sofrimento psíquico, conforme estudo da Associação Americana de Psicologia. O estigma em relação aos transtornos mentais é menor quando as pessoas em sofrimento vêm de famílias de alta renda, evidenciando a contaminação dessa ideologia econômica sobre a percepção da saúde mental.
Estigma e a Persistência do Preconceito na Saúde Mental
Apesar da popularização dos temas de saúde psíquica após a pandemia da Covid-19, muitos ainda sentem desconforto em falar sobre sua própria saúde mental. Esses resultados apontam que, embora o assunto tenha ganhado visibilidade, o estigma e o preconceito não foram superados, e em diversos locais, até se agravaram.
O Risco do Retorno da Lógica Manicomial no Brasil
Este cenário é desfavorável às conquistas da luta antimanicomial brasileira e do sistema de assistência adotado no país, inspirado na reforma psiquiátrica italiana, que preconiza o tratamento em liberdade. Quando a cultura não assimila a importância do cuidado livre e humanizado, a lógica manicomial de exclusão e iatrogenia (danos desnecessários) tende a retornar.
Essa lógica é perversa, pois não oferece tratamento, mas sim exclusão. Ela rejeita a diferença em sua radicalidade, buscando normalizar e padronizar comportamentos. O sofrimento psíquico é ocultado da sociedade, e, além de não resolver o problema original, essa abordagem cria outros.
A história é um alerta: um dos exemplos mais emblemáticos é o antigo Hospital Colônia de Barbacena, conhecido como o "Holocausto Brasileiro", onde estima-se que cerca de sessenta mil pessoas morreram entre 1903 e a década de 1980. Outras instituições como o Hospital do Juquery, em Franco da Rocha (SP), o Hospital Psiquiátrico de Curitiba, a Casa de Saúde Dr. Eiras, em Paracambi, e o Hospício Pedro II, no Rio de Janeiro, também ilustram essa trágica realidade.
Comunidades Terapêuticas e os Discursos que Reforçam a Exclusão
Atualmente, a lógica manicomial encontra apoio no preconceito, no estigma, em discursos eleitoreiros que advogam pela "limpeza" de espaços urbanos via internação compulsória, e em promessas religiosas de suposta cura que, na prática, promovem opressão e apagamento, especialmente por meio das chamadas "comunidades terapêuticas".
É preocupante o posicionamento do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais ao participar da formulação de um projeto de lei que visa regulamentar o funcionamento dessas comunidades no estado.
Em um país com histórico recente de violência sistematizada contra pessoas internadas em instituições que deveriam tratar, qualquer movimento que se assemelhe ao retorno da lógica manicomial representa um perigo iminente. As pesquisas confirmam que o estigma e o preconceito sobre os transtornos mentais não regrediram, a popularização do tema não trouxe maior esclarecimento à população e, para agravar, há quem se beneficie dessa situação para promover o retorno de manicômios em versões "gourmetizadas".
Fonte: https://saude.abril.com.br

