Universidades brasileiras uniram-se a instituições internacionais em um consórcio global para buscar novos tratamentos e a cura da hepatite B. Liderado pela Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins (EUA), o grupo de pesquisa inclui Brasil, Índia, Senegal e Uganda. No Brasil, o Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes da Universidade Federal do Espírito Santo (Hucam-Ufes) e a Universidade de São Paulo (USP) representam o país.
A Pesquisa Inovadora
A pesquisa global observará, em nível celular, o comportamento do vírus e as respostas imunológicas em pacientes de diferentes países, incluindo aqueles coinfectados por hepatite B e HIV.
O consórcio, criado em 2023, suspenso em 2024 e retomado em 2025, iniciou seus estudos no Brasil este ano, com duração prevista de cinco anos. A metodologia integra pesquisa científica básica e prática clínica.
A professora Tânia Reuter, do Hucam-Ufes, referência no assunto, destaca o grande objetivo: "A hepatite B não tem cura, esse é o grande objetivo global. O primeiro objetivo é eliminar as hepatites virais, no nosso caso aqui, eliminar a hepatite B como problema de saúde pública até 2030".
Metodologia e Objetivos
Cerca de 600 pacientes, sendo 150 de cada país (75 analisados pela equipe brasileira), serão acompanhados por aproximadamente quatro anos e meio. Eles incluem indivíduos com hepatite B e com coinfecção por hepatite B e HIV.
O estudo visa identificar fatores que influenciam a evolução viral, características genéticas capazes de proteger as pessoas de uma progressão mais rápida e subpartículas do vírus que podem funcionar como preditores de cura ou de tratamento.
A pesquisadora Reuter explica: "Eu quero descobrir alvos que possam auxiliar no manejo para cura da hepatite B. [O que for achado] pode ser um alvo para desenvolvimento de fármacos, sejam imunoestimuladores, imunomoduladores, etc".
O recrutamento de pacientes começou em julho e já conta com 40 participantes, com meta de 75 até o final do ano. A previsão é que a fase de acompanhamento se estenda até meados de 2027.
Reuter ressalta a importância da pesquisa: "O vírus da hepatite B é um dos maiores causadores de câncer hepático. A gente está aqui trabalhando para mitigar a evolução de cirrose e câncer hepático".
Compreendendo a Hepatite B
A hepatite B é uma doença viral silenciosa que ataca o fígado. Sem cura conhecida, sua progressão pode levar a quadros de cirrose, câncer hepático e morte. Segundo dados de 2024 da OMS, cerca de 240 milhões de pessoas vivem com infecção crônica.
Somente no Brasil, o Ministério da Saúde registrou 276,6 mil casos confirmados entre os anos 2000 e 2022.
A transmissão ocorre por via sexual e por contato com sangue contaminado, incluindo durante a gestação ou no parto, passando da mãe para o bebê. De acordo com a Sociedade Brasileira de Clínica Médica, o vírus do tipo B é cem vezes mais contagioso que o HIV.
A OMS estabeleceu a meta global de erradicar o HIV, as hepatites virais e as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) como ameaças à saúde pública até 2030.
Um relatório da organização divulgado em julho deste ano aponta que as infecções anuais por hepatites virais caíram 32% globalmente desde 2015, refletindo o aumento na cobertura da vacinação infantil, que alcançou 84% em 2024.
Prevenção Essencial
A vacinação é a principal medida preventiva, disponível gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS) para todas as pessoas não vacinadas, independentemente da idade.
Para crianças, a recomendação é de quatro doses da vacina: ao nascer, aos 2, 4 e 6 meses de idade. Para a população adulta, via de regra, o esquema completo se dá com a aplicação de três doses.
Outras formas eficazes de prevenção incluem o uso de preservativo (interno e externo) em todas as relações sexuais e a não partilha de objetos perfurocortantes ou de uso pessoal.

