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O Sedentarismo Brasileiro: Desafios Estruturais Além da Escolha Pessoal

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Com 300 mil mortes por ano ligadas à inatividade física, o problema do sedentarismo brasileiro transcende a mera falta de vontade. Apesar do crescimento da indústria fitness, com academias cheias e aumento na venda de suplementos, o país ainda registra um alto índice de inatividade física.

Dizer que alguém não pratica atividade física por 'não querer' ou por 'preguiça' é injusto para a grande maioria da população brasileira. O cenário é claro: existe uma desigualdade social gritante nas possibilidades de um cidadão praticar atividade física.

Um paradoxo nacional

Segundo o IBGE, cerca de 47% da população brasileira não atinge o mínimo de atividade física recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Entre os jovens, o cenário é ainda pior, com 84% sendo fisicamente inativos.

Com esses dados, o Brasil ocupa o primeiro lugar entre os países mais sedentários da América Latina e o quinto no ranking mundial.

Vivemos um paradoxo: enquanto o sedentarismo segue alarmante, a indústria fitness bate recordes de faturamento, e as academias lotam, a população adoece devido a um estilo de vida inativo.

O cenário é, no mínimo, contraditório. O número de influenciadores digitais que promovem hábitos saudáveis cresce, e a quantidade de centros de atividades físicas quase triplicou em uma década, saltando de 22 mil em 2015 para mais de 62 mil em 2025.

O setor movimenta mais de R$12 bilhões por ano, mas infelizmente não aprendeu a lidar com as desigualdades, promovendo ações e políticas públicas que favoreçam o acesso e as condições para a prática de atividade física a todos.

Rotina exaustiva, corpo parado

A vida cotidiana moderna é, para muitos, exaustiva e massacrante. Jornadas de trabalho longas, pouco tempo de descanso, aumento do tempo de tela, deslocamentos extensos e escassez de tempo para lazer tornam a prática de atividade física cada vez mais difícil.

Além disso, atividades simples do dia a dia, como caminhar até o mercado ou a farmácia, vêm sendo substituídas por soluções digitais.

Um fenômeno multifatorial

Explicar por que o Brasil está entre os países mais sedentários da América Latina não é simples. Trata-se de um fenômeno multifatorial que envolve áreas como antropologia, sociologia, psicologia, políticas públicas, urbanismo e saúde.

O alto nível de sedentarismo no Brasil é resultado de um conjunto de fatores estruturais, sociais e comportamentais que se somam.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam um cenário preocupante: até 2030, mais de 500 milhões de pessoas no mundo poderão desenvolver doenças crônicas não transmissíveis associadas à inatividade física, como obesidade, diabetes, câncer e dor crônica. As causas para isso são profundas e complexas:

Cidades feitas para carros, não para pessoas

Muitas cidades brasileiras não são amigáveis ao movimento. Foram planejadas com foco nos carros, não nas pessoas. A falta de calçadas adequadas, ciclovias que se conectam e segurança faz com que caminhar ou pedalar deixe de ser uma escolha viável no cotidiano.

A violência e o medo de assaltos reduzem drasticamente as atividades ao ar livre, especialmente no período noturno, justamente quando muitas pessoas teriam disponibilidade.

Trabalho, desigualdade e acesso

Os longos deslocamentos e as jornadas extensas de trabalho se traduzem em menos tempo e energia para se exercitar. Investir na qualidade de vida do trabalhador poderia resultar em mais pessoas ativas, menos adoecimento e, consequentemente, menor custo com saúde.

Também é fundamental reconhecer que o acesso ao movimento não é igual.

Academias, esportes organizados e espaços de lazer ainda são menos acessíveis para grande parte da população, especialmente em áreas mais vulneráveis, que contam com menor infraestrutura e maior exposição à violência.

Além disso, a cultura do movimento cotidiano, que permite usar o corpo de forma saudável e não massacrante, ainda é pouco integrada à realidade brasileira. Em muitas cidades, caminhar, pedalar ou utilizar transporte ativo simplesmente não é viável.

Diferente de outros países, onde o movimento faz parte da rotina, aqui o exercício ainda é visto como algo separado, que exige tempo, dinheiro e planejamento.

Telas, sofá e o corpo esquecido

Por fim, vivemos cada vez mais sentados. O trabalho, o lazer e a socialização migraram para as telas. O chamado lazer passivo — como streaming e redes sociais — reforça um ambiente em que o corpo se movimenta cada vez menos.

Fonte: https://saude.abril.com.br

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