A infertilidade, antes vista como uma questão íntima, é agora reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um fenômeno global crescente e multifatorial, alcançando proporções de uma "pandemia". Estimativas da OMS revelam que uma em cada seis pessoas em idade reprodutiva enfrenta dificuldades para conceber ao longo da vida, uma realidade que se manifesta de forma consistente tanto em países desenvolvidos quanto em nações de baixa e média renda.
Diante desse cenário, a OMS publicou uma diretriz inédita, reforçando que a infertilidade é uma condição de saúde legítima, não uma escolha ou consequência moral. Essa mudança conceitual tem implicações significativas para a formulação de políticas públicas, para a ampliação do acesso a tratamentos e para a maneira como a sociedade percebe e aborda esse desafio.
Fatores Por Trás do Crescimento da Infertilidade
O aumento expressivo nos casos de infertilidade não se deve a uma única causa, mas à sobreposição complexa de fatores biológicos, ambientais e culturais que interagem entre si.
Mudanças Sociais e Biológicas
As transformações sociais recentes, como a decisão de adiar a maternidade e a paternidade — impulsionada por aspirações de carreira, estabilidade financeira e novos modelos familiares —, impactam diretamente a fertilidade. Do ponto de vista biológico, a idade é um fator determinante, especialmente para mulheres, cuja reserva ovariana declina progressivamente após os 35 anos. Contudo, a ausência de orientação prévia sobre fertilidade e planejamento reprodutivo revela uma falha estrutural na educação em saúde.
Impacto do Estilo de Vida e do Meio Ambiente
O estilo de vida contemporâneo, caracterizado pelo sedentarismo, obesidade, consumo de alimentos ultraprocessados, tabagismo e abuso de álcool, afeta negativamente tanto a fertilidade feminina quanto a masculina. Em homens, observa-se uma queda global na concentração e qualidade dos espermatozoides, fenômeno apelidado de "Spermageddon", associado a influências ambientais, hormonais e metabólicas, com potenciais impactos demográficos futuros.
A exposição a poluentes ambientais também emerge como um fator de alerta. Substâncias presentes no ar, plásticos, pesticidas, cosméticos e até na água podem desequilibrar o sistema hormonal, prejudicando a ovulação, a formação de espermatozoides e a implantação do embrião. Embora os efeitos individuais sejam desafiadores de quantificar, o impacto coletivo e cumulativo é cada vez mais evidente.
Condições de Saúde Contribuintes
Diversas condições de saúde frequentemente ignoradas também contribuem significativamente para a infertilidade, incluindo endometriose, síndrome dos ovários policísticos (SOP), infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), varicocele, doenças autoimunes e distúrbios hormonais e metabólicos.
As Novas Recomendações e o Cuidado Integral
As orientações da OMS representam um avanço crucial ao reconhecer a infertilidade como uma condição de saúde que demanda atenção integral. A entidade enfatiza a necessidade de ampliar o acesso ao diagnóstico precoce e aos tratamentos de reprodução assistida, como a fertilização in vitro (FIV). A recomendação é que os sistemas de saúde incorporem o cuidado reprodutivo como parte essencial da atenção básica e especializada, e não o tratem como um serviço opcional ou de luxo, combatendo também a desinformação de produtos e métodos duvidosos difundidos na internet.
A OMS destaca a importância de um cuidado centrado na pessoa, que transcenda o mero resultado reprodutivo. Isso implica considerar o profundo impacto emocional, psicológico e social da infertilidade, frequentemente acompanhada de ansiedade, depressão, estigmatização e sofrimento silencioso. O acolhimento adequado e a informação de qualidade são tão cruciais quanto os exames e procedimentos médicos no suporte aos indivíduos e casais afetados.
As diretrizes também reforçam o papel vital da prevenção. Discutir a fertilidade antes que os problemas se instalem, embora ainda seja um tabu, deveria fazer parte das consultas médicas de rotina. Estratégias como avaliar fatores de risco, guiar o planejamento reprodutivo e conversar sobre hábitos de vida e saúde sexual podem reduzir significativamente a incidência da infertilidade.
Fonte: https://saude.abril.com.br









