O relacionamento de Juliana Soares, de 35 anos, sempre foi conturbado, marcado por ciúme excessivo que o parceiro, Igor Cabral, ex-jogador de basquete, justificava como demonstração de amor. Apesar de se darem bem em atividades cotidianas após se conhecerem em uma academia em Natal (RN), a dinâmica mudava drasticamente nos fins de semana, sob influência do álcool.
Juliana percebeu que começou a assimilar o comportamento agressivo do companheiro. Em um sábado, após uma discussão por ciúme no elevador do condomínio, Igor a agrediu com 61 socos, mesmo ciente das câmeras. O incidente exigiu que Juliana passasse por duas cirurgias de reconstrução facial, resultando em sete placas de titânio e 31 parafusos no rosto. O agressor foi preso em flagrante. A violência não era novidade; antes, ele já havia quebrado o celular dela e haviam ocorrido discussões acaloradas com empurrões.
Apesar do trauma, Juliana, agora com acompanhamento psicológico e psiquiátrico, transformou sua vivência em ativismo, criando um instituto para oferecer assistência jurídica e psíquica a outras vítimas. Ela enfatiza a importância de agir a tempo, pois a vida “nem sempre dá uma segunda chance”. Seu caso se soma a milhões de outros que chocam o país, como o feminicídio de Alana Rosa, o estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro, a morte de Tainara Santos após ser atropelada e arrastada, e o assassinato da freira Nadia Gavronsky. A violência de gênero não distingue idade, classe social, religião ou território.
Os números atuais refletem uma escalada alarmante. No último ano, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) registrou quase 950 mil pedidos de medidas protetivas de urgência, um instrumento vital da Lei Maria da Penha. A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher indica que aproximadamente 4 milhões de brasileiras sofreram ataques diretos de gênero em 2025. Esses dados, contudo, são considerados subestimados, já que o Fórum Brasileiro de Segurança Pública contabilizou 1.568 feminicídios, enquanto o Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025 da Universidade Estadual de Londrina (UEL) aponta para 2.149 vítimas, considerando diversas fontes.
<em>Fontes: 1 Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher (DataSenado); 2 Levantamento Folha de S. Paulo; 3 Estimativa Ipea; 4 Relatório Anual de Feminicídios (UEL).</em>
A Violência de Gênero como Crise de Saúde Pública
Para além de um problema de segurança individual, a violência de gênero é reconhecida como uma grave crise de saúde pública. Mulheres brasileiras, que muitas vezes já enfrentam jornadas duplas de trabalho, vivem sob o constante medo de serem violentadas em diversos ambientes, incluindo casa, trabalho e espaços públicos. Esse estado de tensão permanente e os traumas decorrentes se manifestam como uma epidemia silenciosa, que esgota e corrói a vitalidade física e mental.
O médico Lucas Naufal, coordenador do Programa de Assistência Multiprofissional à Violência Doméstica (Provid) da USP, salienta que essa violência vai além da esfera pessoal, impactando toda a sociedade. Mulheres vítimas apresentam menor inserção no mercado de trabalho, maior busca por serviços de saúde e uma série de complicações que afetam a coletividade. Para preservar a integridade feminina, é fundamental compreender a origem e as feridas dessa violência, e desenvolver estratégias eficazes para interromper esse ciclo devastador.
Fonte: https://saude.abril.com.br









