Junho enche a cidade de bandeira, mas parte do Orgulho acontece no silêncio de uma leitura. Os livros desta lista falam de coisa concreta: como os algoritmos das big techs decidem quem some do feed, a história das travestis que inventaram o cuidado antes de existir política pública, uma professora que se descobre mãe e enlutada ao mesmo tempo no litoral catarinense, um adolescente gay e autista trancado num internato inglês de 1869. Tem thriller sobre culpa de classe numa viagem ao Camboja, romance lésbico embalado em nostalgia dos anos 2000 em Curitiba e poesia que transforma trauma em sobrevivência. Selecionamos sete títulos recentes, escritos por quem conhece o assunto de dentro.
Violência algorítmica e vidas LGBTQIAPN+ — Bruna Irineu e Larissa Pelúcio (ABETH, 2025)
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Partindo da recusa à ideia de neutralidade tecnológica, as autoras mostram como algoritmos, IA e plataformas organizam a (in)visibilidade de corpos e pautas LGBTQIAPN+, moderando, silenciando e lucrando com o pânico moral. Com base em pesquisa de alcance latino-americano, discutem capitalismo de vigilância, colonialismo de dados e soberania digital, e mapeiam iniciativas de resistência como a ação hacker transfeminista TecnoCuir. Traz glossário tecnopolítico e tem e-book gratuito no site da ABETH.
Nas Esquinas do Cuidado: Brenda Lee e a Redução de Danos — Julia Bueno (Telha, 2026)
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A partir da própria tese de mestrado, a psicóloga e redutora de danos trans Julia Bueno investiga como travestis e pessoas trans construíram práticas de acolhimento muito antes de isso virar política pública. O livro recupera figuras como Brenda Lee, Cláudia Wonder e Jovana Baby, e trata a redução de danos não só como tecnologia de saúde, mas como estratégia de sobrevivência diante da transfobia, inclusive a que opera dentro de espaços que se dizem de defesa de direitos
Instruções para desaparecer devagar — Flávia Iriarte (Faria e Silva, 2025)
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Alice, dezenove anos, branca, rica e cheia de culpa pelos próprios privilégios, convida Bárbara, colega da faculdade de cinema vinda da periferia, para uma viagem pelo Sudeste Asiático bancada pelo pai. O que começa como busca por experiências vira uma travessia desconfortável, em que classe, ressentimento e desejos mal resolvidos vêm à tona. Inspirado numa experiência real da autora no Camboja, é um suspense psicológico que ela define como tragédia contemporânea sobre as violências que moldam a vida das mulheres.
Ressaca — Thalita Coelho (orlando, 2025)
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Marcela, professora, vê a vida virar do avesso ao perder uma aluna e, logo depois de um envolvimento com a colega de quarto Pietra, descobre uma gravidez inesperada. A filha, Leo, lembra demais a aluna morta, e Marcela precisa encarar memórias e traumas soterrados. Ambientado no litoral catarinense, com o mar como metáfora, o romance usa o realismo fantástico para tratar de maternidade lésbica, luto, abuso infantil e relações não normativas.
Cercas Vivas — Rai Gradowski (Zouk, 2025)
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Narrado por Bianca, o romance acompanha a jovem que herda a casa da avó e, ao voltar à cidade natal, é obrigada a revisitar os afetos interrompidos da adolescência e um mistério familiar. Entre cadernos Tilibra, locadoras e trilhas dos anos 1990 e 2000, Curitiba quase vira personagem nessa história de amadurecimento, memória e desejo, com vivência lésbica no centro.
Candura: uma história de sobrevivência feminina — Alice Puterman (TAUP, 2025)
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Escrito ao longo de seis anos, o livro de estreia de Alice Puterman, autora bissexual e autista, reúne poemas sobre violência sexual, saúde mental e reconstrução. Partindo de um estupro coletivo sofrido aos 17 anos e do diagnóstico de transtorno de estresse pós-traumático, a autora faz da casa uma metáfora do corpo invadido e reabitado, recusa o lugar de vítima e ressignifica a candura como força. Tem sessão de lançamento na Flip 2026, na Casa Gueto.
As palavras não ditas — Gui Ribeiro (Plataforma21, 2026)
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Primeiro volume de uma duologia dark academia ambientada num internato masculino na Inglaterra de 1869, o romance acompanha Levi Proofwell, 15 anos, autista e gay numa época em que o espectro autista ainda não tinha nome. Sem repertório para entender o que sente, ele encontra nos livros e na convivência com um colega de quarto provocador um caminho para nomear afetos e resistir a um ambiente que tenta ajustar tudo o que foge do padrão.
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