• Luedji Luna apresenta audiovisual intimista gravado no Cine Copan


      O Cine Copan está fechado há quatro décadas e hoje vive em obras, à espera de reabrir em 2027. Foi nesse intervalo, com o antigo cinema reduzido a vigas expostas e concreto aparente no térreo do edifício de Niemeyer, que Gabriel Leone encenou seu Hamlet no começo do ano. Meses depois, foi a vez de Luedji Luna. A cantora baiana gravou ali o audiovisual de “Acústico Luedji Luna“, apresentado recentemente, um álbum visual que pede o contrário do que o feed ensinou a gente a fazer. Sentar e assistir do começo ao fim.

      “Só por ser o segundo projeto a ser feito lá dentro antes da reforma já deixa tudo muito especial”, conta Luedji, em entrevista à Vogue Brasil. “O lugar tem uma história incrível e está sendo resgatado como um lugar de cultura. Sobre o visual de lá, diz por si só. Um pouco como uma ruína, não precisa de muito. Esse é um projeto intimista, clean, e ali deu o tom que precisávamos.” A imagem ecoa o próprio Hamlet montado ali meses antes, aplaudido justamente por transformar escombro em linguagem.

      O acústico chegou às plataformas em 25 de maio, e a data não foi por acaso. Marcou o aniversário de Luedji, 39 anos, e um ano exato do álbum “Um Mar pra Cada Um“. São doze faixas, seis delas inéditas, desdobramento das WhatsApp Private Sessions e construídas a partir de formações enxutas, de violões e vozes, que devolvem às canções a origem em que nasceram. “O acústico vem como celebração da ousadia que tive ano passado de lançar dois álbuns seguidos e dos frutos que venho colhendo”, diz. “É também uma forma de contemplação da música por si só.”

      Existe estratégia por trás, e Luedji é a primeira a admitir. “É claro que pensamos em estratégia, cortes, imagens, conceitos e alcance, mas tudo isso dentro da minha verdade e do que sinto que faz sentido no momento para a minha arte. Eu não faço meus trabalhos pensando no que é tendência. Já fiz, e não foi uma boa experiência para mim, como pessoa e como cantora.” É a fala de uma artista que já entendeu o custo de se traduzir para fora.

      Compositora antes de tudo, e ela faz questão do termo, Luedji costuma assinar sozinha a maior parte do que canta. Desta vez, abriu a casa. Convocou três baianas que admira para dividir a autoria. Jadsa, de “Ela É O Que Há“. Josyara, com quem escreveu “Gris“. E a poeta Calila das Mercês, cujo poema fecha o álbum. Um gesto de generosidade e também de pertencimento, o de quem reconhece de onde vem e com quem quer caminhar.

      Luedji Luna — Foto: Nathália Gonçalves/Divulgação
      Luedji Luna — Foto: Nathália Gonçalves/Divulgação

      Há ainda “Ioiô”, feita para o rapper Zudizilla e agora reescrita a quatro mãos. Na versão do audiovisual, ele responde à canção de dentro dela. “Agora tem as rimas dele. Barras e barras. Ficou ainda melhor”, conta Luedji. “Assim é a nossa troca, na arte, na poesia. Nos conhecemos nos palcos, admiramos muito o trabalho um do outro. Faz todo sentido ele me responder agora à letra de ‘Ioiô’ dentro dela.”

      Esse vai e vem entre o íntimo e o coletivo permeia toda a sua relação com o público. “Eu tenho fãs muito fiéis. Quem chegou com ‘Um Corpo no Mundo’ ficou, acompanha cada fase”, diz, sobre uma base construída ao longo de quase dez anos. Mas há também um público novo chegando, e ela o celebra. “Lancei recentemente com a Anitta e é muito lindo ver o público dela descobrindo quem sou eu, meu som. Tem sido um movimento muito positivo.”

      Luedji Luna no Cine Copan — Foto: Divulgação/Nathália Gonçalves
      Luedji Luna no Cine Copan — Foto: Divulgação/Nathália Gonçalves

      O acústico chega, então, num pico, dela e da crítica. Com dois álbuns concorrendo na mesma categoria do Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira em junho, Luedji acumula um reconhecimento que poucos da sua geração alcançam. E ainda assim recusa o tom de coroamento. O que a move, depois de tudo, continua sendo o ofício. “Escrever faz parte do que sou desde sempre. Ainda tenho muito a dizer, muitas parcerias para fazer, muitos trabalhos para entregar.” Ela se diz exigente ao extremo, das que pesquisam e estudam antes de criar. O que ela já viveu daria conta de uma carreira inteira. Cantou Sade, entoou o hino brasileiro para o presidente Lula, dividiu palco com Gilberto Gil, Caetano Veloso e Ivete Sangalo. “Tantas coisas nos últimos dez anos, e ainda sinto que tenho tanto a fazer. Tanto a entregar.”

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