• Nathalie Edenburg leva ‘How Do I Feel Today’ para a Áustria


      Nathalie Edenburg começou 2025 com uma decisão e uma descoberta. A decisão foi pintar uma obra por dia durante um ano inteiro, retomando um exercício que havia feito pela primeira vez uma década antes. A descoberta veio pouco depois: uma segunda gravidez, às vésperas de começar o projeto. As duas coisas atravessaram o ano juntas e deram origem à série de 365 pinturas que a artista apresenta a partir deste sábado (04.07), no Salon Meiselberg, na região da Caríntia, na Áustria.

      “Descobri minha segunda gravidez pouco antes de começar o projeto e acabei registrando, ao longo dessas 365 pinturas, toda essa travessia: a gestação, o nascimento do meu filho, o puerpério e a experiência de conciliar a maternidade com uma prática artística diária”, conta Nathalie, com exclusividade à Vogue. “Foi um período de enorme exigência física e emocional, que demandou uma disciplina quase transcendental para que eu conseguisse manter o compromisso de produzir uma obra por dia.”

      O conjunto que segue para a Áustria não é o mesmo que deu início ao projeto. How Do I Feel Today nasceu em 2015, quando Nathalie, então baseada em Nova York, se propôs a fazer uma intervenção por dia sobre um mesmo autorretrato fotográfico, somando 365 obras ao fim de um ano. Aquela primeira série passou pelo SPFW e pela galeria Luís Maluf, em São Paulo. Dez anos depois, a artista refez o exercício a partir de um novo autorretrato.

      Nathalie Edenburg — Foto: Camila Rivereto/Divulgação
      Nathalie Edenburg — Foto: Camila Rivereto/Divulgação

      “Dez anos mudaram a minha técnica, meu repertório, minha maneira de pensar”, afirma. Para ela, o sentido do trabalho permaneceu o mesmo. “Voltar todos os dias para a pintura é uma forma de observar quem eu sou naquele instante e de preservar essa experiência no tempo.” É o que ela define como o verdadeiro propósito do projeto: “criar um ritual de presença”.

      Há uma inversão no centro do projeto. Nathalie começou a modelar aos 13 anos e passou a adolescência tendo a própria imagem construída por outras pessoas, em campanhas e capas. Em How Do I Feel Today, é ela quem intervém, todos os dias, sobre o próprio rosto. “Eu passei a ocupar esse lugar de quem constrói a própria narrativa”, explica. “Passei a enxergar o rosto como uma superfície de experimentação, sem precisar atender qualquer expectativa.”

      O convite para a Áustria veio de Magda von Hanau, fundadora do Salon Meiselberg, que este ano tem Portrait como tema. Foi a partir dessa conversa que o projeto entrou na mostra, cuja curadoria passou a contar com Agnes Husslein-Arco, ex-diretora do Belvedere, em Viena, e fundadora do museu de arte moderna da Caríntia. Nathalie integra o grupo de artistas convidados e leva ao salon a instalação completa, com as 365 pinturas do ano. “Fico muito feliz de ver instituições abrindo espaço para olhares mais diversos”, reflete a artista sobre a entrada nesse circuito, vindo da moda e de fora do eixo tradicional das artes visuais. Para ela, o momento europeu abre “a possibilidade de ampliar o diálogo do projeto”, nas exposições e também nas parcerias e ações que o Instituto How Do I Feel Today vem desenvolvendo. “É muito bom poder estabelecer conexões que vão além das fronteiras.”

      Nathalie Edenburg — Foto: Camila Rivereto/Divulgação
      Nathalie Edenburg — Foto: Camila Rivereto/Divulgação

      Manter a constância durante um ano de gestação teve seu custo. “Teve muitos dias difíceis”, reconhece. Ela conta que aprendeu a lidar com isso desde a primeira versão do projeto. “O dia não inspirado faz parte do processo. Ele é o caminho para chegar ao dia inspirado.” Houve intervenções simples, feitas em poucos minutos, e dias em que passou três ou quatro horas diante da imagem. “A criatividade não depende apenas de inspiração. Ela também nasce da constância, da presença e da disposição de continuar, mesmo quando as ideias parecem não estar ali.”

      Do exercício individual, o projeto se desdobrou em método. O Instituto How Do I Feel Today leva a mesma pergunta a crianças e adolescentes no Brasil e no México, em oficinas nas quais cada participante intervém sobre o próprio retrato. Cada uma parte de uma experiência individual, mas, segundo Nathalie, “existe uma identificação muito forte quando elas percebem que certos sentimentos também atravessam o outro”. “Uma das mensagens mais importantes do projeto é que a criatividade é acessível e pertence a todos”, diz. “A criatividade também é um exercício. Ela precisa ser estimulada.”

      How Do I Feel Today convive com outras frentes da produção de Nathalie. Antes dele, em 2014, ela pintou um Knotted Gun para o Non-Violence Project, fundação que usa arte e educação para falar sobre uma cultura de paz. “O Knotted Gun veio de um convite do Derrick Green, Peace Ambassador do Non-Violence Project e também vocalista da banda Sepultura“, conta. A escultura ocupa um lugar à parte na trajetória dela, mas suas demais frentes seguem em diálogo. A artista mantém uma marca de joias, e é ali que a conversa fica mais direta. “Muitas vezes uma pintura dá origem a uma joia, ou uma joia acaba influenciando uma pintura.” São mídias diferentes, diz, que partem da mesma prática e encontram formas distintas de existir.

      Resta a questão de mostrar um diário emocional dentro de um castelo histórico, em contexto de colecionismo. Nathalie não vê aí uma contradição, e sim um contraste que a interessa. “Adoro a ideia de uma arquitetura carregada de memória recebendo uma obra que fala de um arquivo emocional contemporâneo”, conta. “O que é profundamente pessoal também pode ser profundamente universal.” Para ela, o deslocamento de contexto faz parte do que a arte consegue fazer, mesmo diante de um público que não compartilha da sua história. “A gente não precisa compartilhar do mesmo contexto para criar uma conexão. Basta compartilharmos a experiência de sermos humanos.”

      Estreia: sexta-feira, 4 de julho de 2026

      Local: Schloss Meiselberg, Caríntia, Áustria

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