• Ibiza em 50 endereços inevitáveis no verão europeu


      Uma ilha que nunca me larga. Eu amo Ibiza, e meus amigos já estão cansados de saber. Este ano, porém, algo mudou: decidi levar a família inteira. Alugamos um barco, e estou ansioso de uma forma que raramente me acontece, porque normalmente eu percorro a ilha de carro e os passeios de barco, sempre por um dia, ficam como as melhores memórias de qualquer temporada. Fazer a volta completa e dormir pelo mar é, imagino, uma outra maneira de amar este lugar. Todo ano Ibiza me surpreende, me seduz, me esgota e me cura, às vezes no mesmo dia. Não é nostalgia, é algo mais próximo do que os espanhóis chamam de querencia. Um lugar onde a alma quer estar.

      A vista de Ibiza desde do Montesol  — Foto: Gabriel Renné/Divulgação
      A vista de Ibiza desde do Montesol — Foto: Gabriel Renné/Divulgação

      Conheço cada enseada, cada vilarejo, cada pôr do sol sobre Es Vedrà. E ainda assim, a cada junho, quando o avião desce sobre o Mediterrâneo e as praias aparecem lá embaixo, sinto a mesma coisa de sempre, como na primeira vez. Para a Vogue Brasil, reúno aqui os 50 endereços que compõem a minha Ibiza particular. Uma ilha, com cinquenta razões para amá-la.

      A praia Cala den Serra — Foto: Divulgação
      A praia Cala den Serra — Foto: Divulgação

      Podia passar a vida inteira visitando as praias de Ibiza e ainda teria a sensação de que falta uma. Mas há cinco que regressam sempre à minha lista. A Cala Comte tem águas em camadas de azul e turquesa que parecem pintadas, com vistas para os ilhotes de Conillera ao fundo: chegar cedo é lei. A Cala Tarida é extensa, de fundos que convidam ao mergulho, com uma vista do penhasco norte que é um segredo dentro da própria baía. A Cala d’Hort é imprescindível: tem Es Vedrà como pano de fundo, o imenso rochedo que emerge do mar, e o pôr do sol aqui é um acontecimento. A Cala d’en Serra fica no norte remoto e só é acessível por uma estrada que desencoraja o turismo de massa, o que é uma bênção: paisagem selvagem, águas transparentes e sensação de descoberta. E a Cala Conta, vizinha de Cala Comte, tem piscinas naturais entre as rochas que convidam a prolongar a tarde muito além do que qualquer plano previa.

      Charles Piriou na Juntos Deli, um empório e lugar de comidas saudáveis em Ibiza — Foto: Gabriel Renné/Divulgação
      Charles Piriou na Juntos Deli, um empório e lugar de comidas saudáveis em Ibiza — Foto: Gabriel Renné/Divulgação

      O café da manhã em Ibiza é um gênero à parte, um ritual que começa devagar e que pode acabar virando o programa principal da manhã. O Passion Café é o meu ponto de partida obrigatório: sucos frescos, bowls de fruta e uma atmosfera casual. O Montesol, no coração de Eivissa, é uma das mesas mais charmosas da ilha, o lugar certo para observar Ibiza acordar com um café e ovos do seu jeito. O Chezz Bibi é um endereço quase secreto onde há deliciosos pães. O Juntos Deli oferece opções saudáveis para viagem e consumo no local, com uma energia de começo de dia deliciosa. E a Rita’s Cantina é uma instituição: existe há décadas no circuito da ilha e resiste a todas as modas.

      Sant Carles Peralta — Foto: Divulgação
      Sant Carles Peralta — Foto: Divulgação

      Ibiza tem um interior que a maioria dos visitantes nunca descobre, e é precisamente lá que a ilha guarda a alma mais antiga. Sant Gertrudis de Fruitera é o vilarejo mais charmoso do interior: praça com terraços de café, galerias de arte e uma concentração improvável de bom gosto e tranquilidadei. Sant Josep de sa Talaia é a porta de entrada natural para as praias do sul, com uma autenticidade que resiste ao crescimento turístico ao redor. Sant Rafel de sa Creu é pequeno e preciso: no caminho entre Eivissa e Santa Eulália, parada obrigatória pelos seus ceramistas e pelo ambiente de vilarejo mediterrâneo. Sant Carles de Peralta é o berço da contracultura ibicenca dos anos 1960 e 1970, sede da feira hippie Las Dalias. E Es Cubells, no extremo sul da ilha pendurado sobre os penhascos com vista para Formentera, é um dos segredos mais guardados: um punhado de casas, uma igrejinha branca e um horizonte sem fim, para os que já viram tudo e querem ver o que está além.

      O restaurante de praia El Silencio — Foto: Gabriel Rennée\Divulgação
      O restaurante de praia El Silencio — Foto: Gabriel Rennée\Divulgação

      Os restaurantes de praia de Ibiza têm uma curva de qualidade que vai do chiringuito de pés descalços ao endereço onde as celebridades marcam mesa meses antes. O Jondal é o extremo mais glamouroso: a praia mais cobiçada do Mediterrâneo no verão, com iates ancorados ao largo e uma lista de espera que não perdoa. O Nudo apostou numa proposta gastronômica acima da média do restaurante de praia ibicenco, com produto, técnica e uma carta de vinhos naturais que surpreende quem chega sem expectativas. O El Silencio é o oposto do espetáculo: enseada escondida, ambiente tranquilo, cozinha assinada por Mauro Colagreco. O El Chiringuito mantém a fórmula que nunca falhou, mesas na areia, peixe fresco direto do barco, sem complicações. E a Cala Gracioneta, no norte da ilha, prolonga o prazer de ficar com paella ao sol, vista para as rochas e o tempo passando mais devagar do que em qualquer outro lugar.

      Jais Ibiza é a novidade desse ano — Foto: Divulgação
      Jais Ibiza é a novidade desse ano — Foto: Divulgação

      Ibiza tem uma vida gastronômica noturna que vai muito além do que o mito da ilha da festa costuma sugerir. Começo sempre pelo Ca’s Pagès, uma das mesas mais honestas da ilha que provam que a culinária ibicenca ainda existe. A grande novidade deste verão de 2026 é o Jaïs Ibiza: o chef Jaïs Mimoun, radicado em Paris e aclamado em Ramatuelle e Courchevel, abre pela primeira vez fora de França, instalado numa finca preservada com uma carta franco-mediterrânea para partilhar e uma adega sem equivalente na ilha. Para uma noite de cenário espetacular, o Sa Capella ocupa uma antiga ermida do século XVII com arcos de pedra e velas, com cozinha que está à altura do espaço. O Can Domingo traz a cozinha do interior com a confiança tranquila dos lugares verdadeiros: produto local bem tratado, sem modismos nem performances. E para encerrar a semana com consistência e bom gosto, o Juntos Mesa é o braço de um projeto que promove a agricultura sustentável.

      O Montesol rooftop em Ibiza  — Foto: Gabriel Renné/Divulgação
      O Montesol rooftop em Ibiza — Foto: Gabriel Renné/Divulgação

      A transição entre a praia e a noite ibicenca passa sempre por um bar, e Ibiza tem alguns dos melhores. O Montesol Rooftop, no topo do hotel mais antigo da ilha, é um dos pontos mais elegantes do centro histórico. O The Standard Ibiza chegou com a sua receita habitual de design deliberado e atmosfera social calibrada, virou ponto de passagem para quem quer uma dose de cosmopolitismo antes de decidir o que fazer com a noite. O Experimental Beach tem a assinatura do grupo parisiense que reinventou o bar contemporâneo em Paris e Nova York: na areia, com o pôr do sol como cenário e os coquetéis como desculpa para ficar horas. O La Mirada no hotel Petúnia está no alto de uma falésia com vista para Cala d’Hort e para o pôr do sol perfeito não existe endereço melhor.

      A festa Circoloco no DC-10 — Foto: Acervo Pessoal
      A festa Circoloco no DC-10 — Foto: Acervo Pessoal

      A noite ibicenca é uma mitologia em si, e há cinco nomes que a definem, cada um a seu modo. O Circoloco no DC-10 é a festa mais icônica do planeta desde 1999: o clube é um antigo armazém às margens da pista do aeroporto. O ritual é imutável: começa no jardim ao entardecer e a intensidade só cresce. O Hi Ibiza, que sucedeu ao lendário Space, mantém a reputação de um dos clubes tecnicamente mais avançados do mundo em som e produção, com residências que definem temporadas inteiras. O Pacha é uma instituição no sentido mais denso da palavra, a cereja dupla que simboliza Ibiza há meio século. O Ushuaia é o lado extrovertido e espetacular da cultura clube ibicenca: festa ao ar livre em plena Playa d’en Bossa, sem teto, com o sol do início da noite como cenário e uma produção que rivaliza com festivais de grande porte. E o Tomodachi é o novo endereço que está conquistando quem procura algo além das grandes produções: atmosfera intimista, curadoria apurada, política sem celulares, a prova de que Ibiza continua gerando novos clássicos.

      Charles Piriou visita Juntos Farm com Finn Haries  — Foto: Gabriel Renné/Divulgação
      Charles Piriou visita Juntos Farm com Finn Haries — Foto: Gabriel Renné/Divulgação

      Uma natureza deslumbrante

      Uma ilha com dez vidas pede passeios à altura. O dia de barco até Formentera é a melhor saída possível de Ibiza e, paradoxalmente, a confirmação de por que se volta: às águas entre as duas ilhas têm uma cor que não existe em nenhum outro Mediterrâneo. O pôr do sol em Es Vedrà, visto da falésia de Es Mirador ao entardecer, é um dos últimos realmente transcendentes desta costa. A visita ao Juntos Farm combina degustação com paisagem e com o entendimento de onde vem o que se come na ilha. As compras na Marina de Ibiza funcionam melhor ao fim de tarde, quando o movimento aumenta e a ilha começa a preparar-se para a noite. E a Feira Hippie de Las Dalias, em Sant Carles de Peralta, desde os anos 1970 reúne artesãos, hippies e turistas num mercado que é parte da identidade da ilha e que nenhuma temporada deveria perder.

      O quarto do Montesol em Ibiza — Foto: Gabriel Renné/Divulgação
      O quarto do Montesol em Ibiza — Foto: Gabriel Renné/Divulgação

      O quarto do Montesol em Ibiza | Foto: Gabriel Renné.JPEG

      O hotel mais antigo da ilha, fundado em 1933 na Vara de Rey, a artéria central de Eivissa, é o endereço que mais fielmente representa o que a cidade velha tem de melhor. Os quartos são aconchegantes e bem cuidados, com aquele caráter de hotel de cidade europeu que poucos lugares em Ibiza conseguem reproduzir: não é um resort, não está fora do mundo, está dentro dele. O café da manhã servido na praça, com as mesas viradas para o movimento da rua, é um dos rituais mais agradáveis que Ibiza oferece. O rooftop, aberto para coquetéis ao entardecer, tem vista para o porto e para o casario do Dalt Vila, e é um dos segredos mais bem guardados do centro. A localização diz tudo: a cinquenta metros do porto, com os iates a um lado e a cidade velha a outro. Fico no Montesol quando quero estar conectado com tudo, quando quero sair a pé para o restaurante, voltar a pé do bar, e acordar no dia seguinte com Ibiza já em movimento lá fora. Para quem visita a ilha pela primeira vez e quer entender onde fica o centro das coisas, não existe base melhor.

      Six Senses Ibiza  — Foto: Divulgação
      Six Senses Ibiza — Foto: Divulgação

      No norte remoto da ilha, em Xarraca, o Six Senses é o oposto deliberado do sul agitado. O acesso ao mar é direto por um caminho que desce entre os pinheiros, e os quartos com varanda e vista para o Mediterrâneo são o tipo de espaço onde acordar cedo começa a fazer sentido. O spa é um dos mais sérios da ilha: tratamentos de bem-estar baseados em medicina integrativa, programas de detox e uma equipe que trata o corpo com a mesma atenção que um bom chef trata o produto. O aspecto de resort é completo sem ser pesado: piscinas, restaurantes com ingredientes rastreados e aquela sensação de que o mundo está a uma distância razoável mas não urgente. Levo a família aqui quando quero que todos saiam descansados. As crianças têm programa, os adultos têm o spa e o mar, e ninguém precisa de carro para ter um dia completo. Para uma Ibiza sem ruído, sem pressa e sem o espetáculo do sul, o Six Senses é uma das escolhas mais honestas que existem.

      Hyde Ibiza  — Foto: Divulgação
      Hyde Ibiza — Foto: Divulgação

      Hyde Ibiza | Foto: Divulgação.png

      Em Cala Llonga, na costa leste da ilha, o Hyde chegou com a energia de festival californiano que define a marca em todo o mundo. São 401 quartos de materiais naturais, três piscinas e sete conceitos gastronômicos que incluem um restaurante com pés na areia e DJ até o fim da tarde. O hotel pertence ao portfólio Ennismore, da mesma família do Hoxton e do Mondrian, e traz para Ibiza aquele modelo de hospitalidade onde a festa é parte da proposta. O ambiente é moderno, jovem e sem cerimônia: o tipo de hotel onde a festa começa na piscina, passa pelo bar e não tem hora para terminar. Para quem vem a Ibiza para festejar sem moderação e quer que o hotel acompanhe esse ritmo, o Hyde é o hotel certo. A praia ao pé da porta e o acesso fácil às estradas do sul completam uma proposta que não tem intenção de ser para toda a gente, e é exatamente por isso que funciona.

      A vista do hotel Me Ibiza do Melia — Foto: Gabriel Renné/Divulgação
      A vista do hotel Me Ibiza do Melia — Foto: Gabriel Renné/Divulgação

      Na Playa d’en Bossa, a praia mais longa e mais animada da ilha, o Me Ibiza tem os pés literalmente na areia. A piscina é um dos cartões-postais do hotel: comprida, com espreguiçadeiras brancas e aquela luz ibicenca que faz qualquer foto parecer boa. O design é moderno e assertivo, a atmosfera é jovem e a localização é impossível de superar para quem veio para o verão na sua versão mais intensa. A uns poucos metros está o Ushuaia, a festa de dia mais famosa da ilha; a uns poucos metros na outra direção, o mar. O Me é o hotel para quem quer estar no epicentro de tudo, nadar de manhã numa piscina linda, almoçar de fato à beira-mar e ainda ter energia para a noite. Uma proposta sem ambiguidade que entrega o que promete.

      O novo Nomade Ibiza — Foto: Divulgação
      O novo Nomade Ibiza — Foto: Divulgação

      A abertura hoteleira mais aguardada do verão de 2026. A marca que reinventou Tulum e Holbox com a sua mistura de luxo consciente, wellness ritualístico e imersão cultural chega a Portinatx, no norte selvagem da ilha, com 182 quartos e villas assinados pelo estúdio Oneness, co fundado pelo arquiteto Bjarke Ingels. O projeto é ambicioso em todos os sentidos: um speakeasy que se transforma em pista de dança ao anoitecer, um omakase servido com o pôr do sol como pano de fundo e um programa semanal de yoga, meditação e cura sonora gratuito para os hóspedes. Portinatx é uma das costas mais intocadas de Ibiza, e o Nômade Temple chegou ali com a consciência de que o contexto é parte do produto. Ainda não dormi lá, mas já reservei.

      Dicas de quem volta sempre

      Reserve o Jondal e, aliás, todos os restaurantes desta lista com o máximo de antecedência possível. Quem chega na esperança de uma mesa no dia vai embora sem uma. Para o barco, chama a empresa Sey Ibiza Charter e peça especificamente para ser atendido pelo capitão Diego: conhece a ilha pelo mar, sabe onde as águas mudam de cor e para no lugar certo na hora certa. Na hora de planejar os dias, divida: reserve uma ou duas noites exclusivamente para os clubes e as outras para os passeios, as praias e o descanso. Ibiza tentará confundir as fronteiras entre os dois mundos. Não deixe. No Circoloco, chega por volta das 19h: a festa começa no jardim ao ar livre e tem uma qualidade completamente diferente do interior a partir da meia-noite. E, por fim, termine a viagem em Formentera e durma lá pelo menos uma noite. Depois de Ibiza, com o seu ritmo agitado, os seus sons e a sua luz, Formentera é o antídoto necessário: silêncio, areia branca e a certeza de que o Mediterrâneo guarda ainda lugares onde o tempo esqueceu de correr.

      O quarto do Montesol em Ibiza — Foto: Gabriel Renné/Divulgação
      O quarto do Montesol em Ibiza — Foto: Gabriel Renné/Divulgação

      Uma ilha aberta para o mundo

      O que é fascinante em Ibiza é a sua capacidade de se reinventar a cada verão. Novos hotéis, novas mesas, novas festas, novos projetos que chegam com a convicção de que ainda há algo por dizer nesta ilha. E têm razão. Este roteiro de 50 endereços vai evoluir, como tudo evolui, e alguns dos lugares que hoje são segredos serão na próxima temporada os mais concorridos da ilha. Mas o que não muda é a natureza do convite que Ibiza faz: ela é, ao mesmo tempo, o destino perfeito para casais que procuram uma mesa ao pôr do sol e para solteiros que só param quando o sol nasce de novo. Para famílias que alugam um barco e querem descobrir cada cala pelo mar, e para todos os povos que se encontram aqui sem precisar de explicação. Ibiza é uma ilha aberta para o mundo, e o mundo há décadas retribui o gesto. Volto ano após ano, e cada vez me pergunto o mesmo: como é que uma ilha tão pequena consegue ser tanta coisa para tanta gente? Ainda não tenho resposta. Mas tenho reservas para junho, julho, e setembro.



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