Visto de lado, o cubo revela três camadas. Uma base transparente, um miolo com desenho e uma cor no topo que se espalha pelo conjunto. Dentro dele há um coquetel clássico, clarificado e gelificado, feito para comer com as mãos. É assim que a gelatina alcoólica reaparece agora, longe do jelly shot de festa universitária que a fixou no imaginário por décadas. O teor alcoólico é baixo, a construção é artesanal e a circulação acontece sobretudo por eventos, encomendas e ativações de marca.
Em São Paulo, esse recorte tem na Jellys Lafer um de seus poucos exemplos brasileiros. A marca nasceu do encontro entre Jade Marra e Luiza Lafer, sócias e casal. Lu comanda a Luiza Lafer Confeitaria, em Pinheiros, e a dupla começou a estudar food design ao desenvolver o menu de um evento de lançamento, uma colaboração da Carnan com a Veja, de pegada amazônica. Entre os testes, a gelatina de cachaça de jambu com limão e hortelã foi o item que as duas quiseram desdobrar. “Foi o que a gente mais achou interessante e se debruçou na pesquisa para entender estrutura, cor, forma”, conta Jade à Vogue Brasil. A partir das fotos do evento, vieram os primeiros pedidos, e o que era item de menu virou negócio.
O produto se apoia em dois pilares. Lu cuida da receita e da estrutura, o ponto mais delicado de uma gelatina que precisa se manter firme por horas em uma mesa de festa. Jade responde pela parte estética, a combinação de cores e a composição das camadas. Na base transparente fica a parte alcoólica, com suco clarificado, técnica trazida da coquetelaria. O desenho do miolo segue métodos asiáticos de gelatina, com inserções feitas com agulha e seringa. Cada peça leva cerca de três dias, entre clarificação, gelificação, desenho e corte.
O que muda quando um coquetel deixa de ser líquido é a forma de apreciação. “Você proporciona uma outra forma de apreciar esse coquetel, muito mais lúdica”, diz Jade. O formato também escapa do repertório visual do drink. “A gelatina não preenche nenhuma lacuna desse imaginário, é uma coisa totalmente nova. Você olha e gera um fascínio, o que é isso, como que eu pego.” Há ainda um componente tátil, a peça derrete na boca e revela as nuances do coquetel aos poucos. O apelo visual, segundo Jade, surgiu como consequência do foco das duas na estética. As pessoas fotografam, gravam vídeos comendo e compartilham, o que ajuda na divulgação.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_5dfbcf92c1a84b20a5da5024d398ff2f/internal_photos/bs/2026/6/g/iosJZuSkmB79zB9ZJiyg/whatsapp-image-2026-08-04-at-13.50.19.jpeg)
A leitura brasileira aparece na carta. Entre os oito sabores, a Caipirinha e a Caipi Maracujá, ambas com cachaça Salinas, dividem espaço com clássicos internacionais como Fitzgerald, Lychee Martini e Piña Colada. O primeiro sabor da marca foi a caipirinha. “Existe uma nostalgia de uma identidade brasileira relacionada à gelatina”, diz Jade, que é mineira e cita as gelatinas de infância e a gelatina de cachaça comum em Minas. Para ela, esses signos aproximam o produto da cultura brasileira mais do que o jelly shot norte-americano.
O contexto de consumo ajuda a explicar por que a gelatina reaparece agora. “A jelly se encaixa muito nesse movimento de beber menos e beber melhor”, diz Jade. Muita gente ainda a confunde com o jelly shot, de dose inteira no cubo. A proposta é outra: cada cubo tem cerca de 4% de álcool. “É como se você tivesse tomando dois golinhos de cerveja.” A marca desenvolve ainda uma versão sem álcool, em parceria com o Drink Lúcia.
Fora do Brasil, a categoria também se organiza em torno de encomenda e evento, o que situa a Jellys dentro de um movimento pequeno e internacional. No Brooklyn, a Solid Wiggles reimagina o jello shot como cocktail jelly em cubos autorais, criada por uma dupla que cruza confeitaria e coquetelaria, com sabores como Negroni e Lychee Martini. Em Londres, a Bompas & Parr trabalha há mais tempo na fronteira entre gelatina e arte, com peças em moldes arquitetônicos e projetos de experiência como uma nuvem de gim-tônica para atravessar a pé. Nenhuma delas opera como produto de prateleira. O trabalho sob medida, limitado e artesanal é uma característica da categoria.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_5dfbcf92c1a84b20a5da5024d398ff2f/internal_photos/bs/2026/e/I/JJUXDPQHajaeZSergBxA/whatsapp-image-2026-08-04-at-13.50.18.jpeg)
No Brasil, a Jellys Lafer circula sobretudo por casamentos e ativações de marca, e passou a receber um público mais jovem depois de aparecer no TikTok, atrás das caixas menores de degustação. Os planos seguem em duas direções, a venda direta ao consumidor e as parcerias, de restaurantes de menu fechado à hotelaria. Nesta, Jade imagina a gelatina como cortesia de recepção ou item de quarto. “A gente imagina muito ter isso ou como um welcome drink ou como um drinkzinho que está ali no seu quarto esperando. É uma coisa bem de hospitalidade”, diz.
Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!









