Nesta sexta-feira (07.08), é Dia Nacional do Documentário Brasileiro, data que marca o nascimento do cineasta Olney São Paulo, perseguido pela ditadura militar. O gênero já rendeu ao país sua primeira indicação ao Oscar, com Democracia em Vertigem, de Petra Costa, em 2020, e segue sendo onde alguns dos relatos mais duros e mais delicados da história recente brasileira encontraram forma. De Cabra Marcado para Morrer, que atravessou o golpe de 64 para reencontrar duas décadas depois os camponeses que retratava, a Santiago, em que João Moreira Salles vira a câmera contra si mesmo para investigar o próprio ofício, o documentário nacional segue se reinventando. Para marcar a data, a Vogue convidou cinco cineastas brasileiras a indicar os documentários que admiram: Sabrina Fidalgo, Bárbara Paz, Dandara Ferreira, Eliza Capai e Karol Maia abriram suas listas. Algumas escolheram mais de um título, e o conjunto reúne desde clássicos incontornáveis até descobertas recentes, cada documentário comentado por quem o indicou.
Os Arcos Dourados de Olinda (Douglas Henrique, 2025)
Feito só com material de arquivo, o curta reconstrói a história do primeiro McDonald’s de Olinda, que entrou para o imaginário popular como a primeira loja da rede a fechar no mundo. Do episódio local, o filme puxa uma reflexão sobre memória urbana, disputa de narrativas e construção política da paisagem. “Me encanta quando o cinema parte de um episódio aparentemente banal para revelar as camadas mais profundas de um país”, diz Sabrina Fidalgo. “Douglas Henrique transforma uma história local em uma reflexão sofisticada sobre memória, disputa de narrativas e imaginário coletivo. Com inteligência, humor e um uso muito inventivo do arquivo, o filme nos lembra que toda paisagem é também uma construção política. É um curta que demonstra como o documentário contemporâneo brasileiro continua encontrando novas formas de olhar para o passado para compreender o presente.”
Babenco: Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou (Bárbara Paz, 2019)
Bárbara Paz registrou os últimos anos de Hector Babenco, cineasta e seu companheiro, a partir de um pedido dele: ser o protagonista da própria morte. O documentário venceu como melhor filme na mostra Venice Classics, em Veneza. “Esse é um documentário que transcende o retrato biográfico”, diz Sabrina Fidalgo. “Bárbara Paz construiu um filme profundamente íntimo, em que amor, criação e finitude se entrelaçam de maneira indissociável. O que mais me toca é a delicadeza com que ela transforma a despedida em gesto cinematográfico, recusando qualquer idealização e encontrando beleza justamente na fragilidade. É um filme que fala sobre Hector Babenco, mas também sobre o próprio cinema: sua capacidade de preservar presenças, desafiar o tempo e reinventar a memória. Uma obra de rara sensibilidade e coragem.”
Santiago (João Moreira Salles, 2007)
Em 1992, Salles filmou Santiago Badariotti Merlo, o mordomo argentino que serviu por trinta anos à casa de sua família no Rio. Sem conseguir montar o material, guardou as imagens por treze anos. Quando voltou a elas, o filme virou um ensaio sobre memória, sobre a distância de classe entre quem filma e quem é filmado, e sobre os limites do próprio documentário.
Cabra Marcado para Morrer (Eduardo Coutinho, 1984)
Coutinho começou a filmar em 1964 a vida de João Pedro Teixeira, líder camponês da Paraíba assassinado a mando de latifundiários dois anos antes. O golpe militar interrompeu as filmagens, e o material ficou parado por quase duas décadas. Dezessete anos depois, o diretor voltou à região, reencontrou a viúva Elizabeth Teixeira e os camponeses do projeto original, e montou os dois tempos num dos documentários mais importantes do país. “‘Cabra Marcado para Morrer‘ demonstra que um documentário nunca captura apenas o passado”, diz Dandara Ferreira. “Ele expõe as marcas que o tempo imprime sobre as pessoas e sobre o próprio cinema. É uma obra em que a História deixa de ser cenário e passa a ser protagonista da forma.”
Eliza junta dois filmes que, para ela, falam do cinema documentário de denúncia e poesia em dois tempos.
Iracema, Uma Transa Amazônica (Jorge Bodanzky e Orlando Senna, 1975)
Bodanzky e Senna descem a Transamazônica com um casal fictício, dispositivo usado para denunciar as violências na Amazônia numa época em que não se podia publicar sobre elas, durante a ditadura militar. O filme foi censurado por anos. “‘Iracema, Uma Transa Amazônica’ me marcou profundamente ao usar um dispositivo ficcional, o casal que viaja, para denunciar as violências amazônicas quando não se podia publicar sobre elas, durante a ditadura militar”, diz Eliza Capai.
Pau D’Arco (Ana Aranha, 2025)
Ana Aranha acompanha por quase dez anos os sobreviventes de um massacre no Pará, mostrando como o jornalismo investigativo pode ser montado como narrativa cinematográfica profunda e humana. O documentário ajudou a pressionar o julgamento dos responsáveis e a criação de um assentamento para as famílias das vítimas. “A temática, para mim, ganha uma densidade que nunca havia visto no recente Pau D’Arco“, diz Eliza. “Ana Aranha acompanha os sobreviventes de um massacre no Pará por quase dez anos, mostrando como o jornalismo investigativo pode ser montado como narrativa cinematográfica profunda e humana. E como o cinema pode ir além das telas e promover justiça social, pressionando o julgamento dos assassinos e a criação de um assentamento para famílias no local.””
Chico Rei Entre Nós (Joyce Prado, 2020)
Documentário de estreia de Joyce Prado, sobre Chico Rei, líder congolês escravizado que conquistou a própria liberdade e a de seu povo durante o Ciclo do Ouro em Minas Gerais. O filme venceu o prêmio de melhor documentário na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Joyce Prado morreu em dezembro de 2025, aos 38 anos; era cofundadora da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN) e da Oxalá Produções. “Joyce foi uma cineasta que construiu um cinema belo e político”, diz Karol Maia. “Sempre cuidando muito da seleção de pessoas que estariam contando aquela história atrás das câmeras, e isso, sem dúvida, refletia na forma madura e no olhar delicado dos seus filmes. O cinema de Joyce convida a gente a conhecer o mundo pelo olhar da calma, como era também a sua voz.”
Tão Longe É Aqui (Eliza Capai, 2013)
No primeiro longa de Eliza Capai, uma viagem por vários países africanos serve de fio para retratar mulheres comuns e as diferentes formas da experiência feminina. “O cinema de Eliza segue sendo referência pra mim desde que assisti seu longa-metragem ‘Tão Longe É Aqui‘”, diz Karol Maia. “Eu gosto muito do trabalho de Eliza tanto no cinema quanto na TV. Os filmes dela sempre me inspiram a apontar pro futuro, seja enquanto referência de linguagem pro meu trabalho, seja enquanto sonhos e planos que podemos fazer enquanto sociedade.” “A Fabulosa Máquina do Tempo“, novo longa de Eliza Capai, está em cartaz nos cinemas.
Filhas de Lavadeiras (Edileuza Penha de Souza, 2019)
Curta-metragem que reúne relatos de mulheres negras sobre a luta de suas mães lavadeiras para que elas pudessem estudar. Venceu como melhor curta-metragem documental no festival É Tudo Verdade, em 2020. “Edileuza é uma documentarista, professora e escritora”, diz Karol Maia. “Seu curta-metragem ‘Filhas de Lavadeiras’ é um filme essencial pra mim e foi vencedor do festival É Tudo Verdade. Muito importante também referenciar o trabalho de Edileuza na academia e sua dedicação ao cinema negro e feminino. Em seu doutorado, Edileuza defendeu a tese: ‘Cinema na Panela de Barro: Mulheres negras, narrativas de amor, afeto e identidade’.”
Cais (Safira Moreira, 2025)
Primeiro longa de Safira Moreira, sobre a viagem que ela fez dois meses após a morte da mãe, Angélica, por cidades banhadas pelo rio Paraguaçu, na Bahia, e pelo rio Alegre, no Maranhão, em busca de novas perspectivas sobre memória, tempo e luto. “O cinema de Safira me inspira muito em relação ao tempo”, diz Karol Maia. “A câmera dela sabe esperar, e isso leva a gente, enquanto espectador, a se transportar pras paisagens e sensações que ela traz em seus filmes. Isso fica muito claro em ‘Cais’, seu primeiro longa-metragem, um river movie que trata do luto após a partida de Angélica Moreira, mãe de Safira.”
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