
Há uma cena, em A Fabulosa Máquina do Tempo, em que uma menina pergunta à cineasta Eliza Capai se ela já cometeu algum pecado. Eliza responde que não acredita em pecado. A menina rebate na hora: “esse é o seu pecado.” A resposta rápida, engraçada e um tanto filosófica resume bem o que o documentário, em cartaz nos cinemas, propõe fazer: colocar a câmera na altura das crianças e deixar que elas mesmas decidam o que vale a pena contar sobre o mundo que herdaram.
Rodado em Guaribas, no Piauí, primeira cidade brasileira a receber o Bolsa Família, o filme acompanha um grupo de meninas que inventa uma brincadeira de viajar no tempo para investigar as histórias de suas mães e avós. Em conversa exclusiva com a Vogue, Eliza contou como esse projeto nasceu de um outro filme, mais de dez anos atrás, e foi mudando de forma até virar a fabulação que chega agora aos cinemas.
A relação da diretora com Guaribas começou em 2013, quando ela foi à cidade a trabalho, para uma reportagem da Agência Pública de Jornalismo Investigativo que também deu origem aos curtas Severinas e Num Devagar Depressa dos Tempos. Na época, Eliza conversava com mulheres beneficiárias do programa social para entender como isso alterava a dinâmica dentro de casa. Um cruzamento de dados chamou sua atenção: entre 2003 e 2013, o número de divórcios no Piauí havia triplicado. “Todas as mulheres adultas diziam que o sonho quando era menina era pegar um bom marido que desse valor: o próprio valor tava no olhar do homem”, relembra. As filhas dessas mulheres, que cresceram já com direito a escola, comida e roupa, respondiam de um jeito bem diferente quando a pergunta era sobre o próprio futuro. “Todas falavam que não queriam casar, que não queriam ter filhos e que queriam ser profissionais”, diz a diretora. “Fiquei muito curiosa em saber o que aconteceria com essas meninas depois dessa saída da miséria e dessa possibilidade de se sonharem autônomas.”
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A resposta a essa curiosidade só viria em 2021, quando Eliza voltou a Guaribas, oito anos depois, e reencontrou parte das famílias com quem tinha conversado. Foi aí que conheceu as crianças nascidas nesse intervalo. “Fiquei maravilhada de ver aquelas meninas que tinham comida, tinham escola, tinham brincadeira, tinham liberdade, tinham internet, eram tiktokers”, descreve. Com a coprodução da Amana Cine ao lado de Globo Filmes, GloboNews e Canal Brasil, e apoio da RioFilme, o projeto do longa partiu de uma oficina de audiovisual com meninas de 7 a 12 anos, pensada para investigar essa saída da miséria e o início do questionamento do machismo estrutural a partir do olhar delas.
Foi ali, numa aula sobre entrevistas, que nasceu a primeira camada do filme: como dever de casa, as meninas entrevistavam as próprias mães e avós sobre como era o passado. “A gente usa esse dispositivo da brincadeira da máquina do tempo, esse viajar para o passado, entender como que era, se imaginarem nesse passado”, explica a diretora. Eliza também mostrou ao grupo imagens de 2013 marcadas por um machismo normalizado em Guaribas, sem nomear o que via ali, e provocou as meninas a criarem cenas a partir daquilo. Nasceu assim a cena batizada de “Gigante da Mulher, sobre um homem que proíbe a esposa de trabalhar e depois sofre um ataque cardíaco sem ter dinheiro para o remédio, porque ele nunca deixou ela ganhar o próprio dinheiro. Contada pelas meninas, a cena virou piada. “Ao pensarem o que gostariam de fazer a partir daquilo, elas, em geral, subvertiam essa lógica do machismo”, observa a diretora.
A escolha por essa chave fabulada, em vez de um documentário mais tradicional, também é resposta a uma frustração antiga de Eliza com o próprio trabalho anterior sobre o tema. “A gente vive numa sociedade muito polarizada, que muitas vezes falar de programas sociais levanta preconceitos, e as pessoas não têm a oportunidade de refletir sobre o que aquilo tem de impacto na vida das pessoas”, avalia. Entrar no universo lúdico das meninas foi a saída que encontrou para escapar desse lugar comum. “Eu tinha que entrar no lúdico delas, e para isso era preciso pensar que tipo de brincadeiras, que tipo de artifícios a gente conseguiria usar para o cinema acessar esse lúdico.”
“A Fabulosa Máquina do Tempo”
Divulgação
As protagonistas do filme não foram escolhidas de antemão, mas emergiram ao longo das filmagens. Sofia, uma das meninas com mais tempo de tela, se destacou numa cena em sala de aula, quando uma prima contou que o pai dela passou fome e bebia; a partir daquele momento, a equipe propôs que Sofia entrevistasse a própria mãe, que falou sobre como a entrada na igreja fez o marido parar de beber. Manu, a primeira menina que Eliza conheceu em Guaribas, em 2013, então com um mês de vida, acabou puxando as locuções do filme, depois de se revelar, numa das oficinas, com talento natural para contar histórias. Já Laiane, dona da frase sobre o pecado, e Ana Vitória, “dos olhos claros”, como a diretora a descreve, aparecem pouco na tela, mas ficam na cabeça de quem assiste. “A gente tratou elas na edição como essas amigas nesse percorrer da infância para adolescência”, resume Eliza.
A aproximação com as famílias passou por conversas diretas, autorizações legais e um trabalho junto às escolas locais, conduzido pela produtora Clarice Rios antes de qualquer gravação. A confiança das famílias, segundo a diretora, tinha relação direta com a liberdade que as próprias crianças já tinham na cidade. “Tinha uma dinâmica de muita confiança dessas famílias nessa liberdade das crianças”, nota Eliza, que rodou o filme com uma equipe de apenas três pessoas em cada viagem a Guaribas. “Foi um lugar de liberdade e de cuidado ao mesmo tempo.”
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