a maior exposição de fotografia de moda de Irving Penn abre em Paris


    Sofisticada, a modelo fuma seu cigarro e lambe a unha, tão afiada quanto sua língua… Um olho avermelhado contornado por máscara de cílios preta ou uma abelha pousada sobre uma boca escarlate… Fotografadas há, em alguns casos, mais de meio século, essas imagens parecem pertencer ao nosso tempo. Elas resumem a ambição de Penn & Fashion, exposição que a Maison Européenne de la Photographie dedica, neste outono, a Irving Penn, com importantes empréstimos da coleção da suíça Nicola Erni. “Cada sessão trazia uma invenção”, lembra o cabeleireiro e artista Julien d’Ys, que trabalhou durante muitos anos com o fotógrafo. “Quando vejo algumas imagens de beleza feitas hoje, penso que ele já tinha imaginado tudo. Era um visionário.”

    Por que contar hoje a história de Irving Penn pela moda? Afinal, o fotógrafo entrou para a história da arte com seus retratos de Pablo Picasso, Jean Cocteau e Truman Capote, com a série “Small Trades”, seus retratos dos “índios quíchuas do Peru”, além das naturezas-mortas de bitucas de cigarro e dos closes de flores. Ainda assim, foi nas páginas da Vogue que nasceu o olhar que ele levaria depois para todos os seus temas. “Penn era, antes de tudo, um criador”, explica Pascal Hoël, curador da exposição. Em uma época em que os museus ainda olhavam para a fotografia de moda com certo desdém, “a MEP percebeu muito cedo que ele havia transformado a fotografia por encomenda em uma verdadeira obra de autor”.

    Quando o jovem americano de Nova Jersey chega à Vogue em 1943, nada indicava que se tornaria um dos grandes fotógrafos do século XX. Formado em design gráfico com Alexey Brodovitch e descoberto pelo diretor artístico Alexander Liberman, Penn trazia uma cultura visual alimentada pelo design e pelas vanguardas europeias. Suas primeiras capas, aliás, não mostram modelos, mas naturezas-mortas, nas quais uma luva, uma bolsa ou um batom se transformam em sofisticadas composições gráficas. Antes das roupas, Irving Penn aprendeu a olhar para os objetos. “Liberman o incentivava e o deixava fazer o que quisesse”, lembra Pascal Hoël. Retratos, moda, beleza, gastronomia ou viagens: durante mais de sessenta anos, a Vogue se tornou um campo de experimentação no qual Penn desenvolveu sua linguagem fotográfica.

    Um dos grandes méritos da exposição é mostrar que essa linguagem se cristaliza durante uma mesma viagem a Paris, em 1950. Irving Penn fotografa ali as coleções de Balenciaga, Dior e Jacques Fath. Em um antigo ateliê, ele encontra uma cortina de teatro que se tornaria o fundo de algumas de suas imagens mais conhecidas e realiza a série “Small Trades”. Ali, artesãos encontrados por Robert Doisneau posam diante do mesmo cenário usado para as modelos da alta-costura. Um vestido da Balenciaga e um amolador de facas são fotografados com a mesma frontalidade.

    É também em Paris que ele conhece Lisa Fonssagrives. Dançarina, modelo, fotógrafa e escultora, ela se tornaria pouco depois sua esposa e sua principal parceira artística. “Era um casal criativo. Na fazenda deles em Long Island, Irving fazia suas ampliações enquanto Lisa esculpia”, conta Pascal Hoël. Imortalizada no célebre Harlequin Dress, Lisa não é apenas uma musa. É a primeira intérprete dessa linguagem fotográfica na qual um fundo, uma luz, um corpo e uma roupa bastam para criar uma imagem. Com Penn, a fotografia de moda muda de natureza. Em uma época em que as coleções ainda eram frequentemente fotografadas em cenários teatrais, ele reduz progressivamente a produção ao essencial.

    “Foi uma verdadeira ruptura. Restavam apenas a personalidade da modelo e os vestidos dos estilistas”, resume Pascal Hoël. Essa depuração, porém, pode enganar. “As pessoas pensam que Irving Penn é clássico por causa do preto e branco, quando, na verdade, suas imagens são de uma inventividade incrível”, continua. Por trás da aparente simplicidade estão referências à dança, ao surrealismo e à pintura, além de um trabalho extremamente preciso com gestos, olhares e materiais. Irving Penn não apenas fotografa uma roupa, mas revela seu mistério e sua arquitetura.

    A partir desse momento, o artista praticamente não modifica mais sua linguagem. Seu estúdio de Manhattan se torna o centro de toda a sua obra. Uma luz suave vinda do norte, um fundo cinza, alguns painéis deslocados para criar as sombras, um velho piso de madeira que range: desse dispositivo aparentemente rudimentar nasceriam algumas das imagens mais influentes da história da moda. “Para o senhor Penn, a fotografia era uma pintura. Quando eu fazia o cabelo, era o pincel dele. O maquiador também. Construíamos juntos um quadro”, conta Julien d’Ys. Todos que trabalharam com ele ainda o chamam assim: Monsieur Penn

    Pascal Hoël guarda a lembrança “de um homem de sobretudo cinza, muito humilde, quase surpreso com o interesse das pessoas por seu trabalho”. Todas as manhãs, ele trocava a roupa de rua por jeans e camisa, seu uniforme de trabalho. O silêncio tomava conta do estúdio. “Entrar no estúdio dele era entrar em um mundo à parte. Era muito íntimo. Havia um silêncio incrível”, lembra Julien d’Ys. Nada era improvisado. Irving Penn observava a modelo por um longo tempo antes de mover uma mão ou inclinar um rosto alguns milímetros. “Ele tinha a visão dele. Eu sempre precisava me colocar na altura da câmera para entender o que ele estava vendo. Às vezes, alguma coisa parecia estranha a olho nu, mas ficava perfeitamente certa no enquadramento.”

    A direção dada à modelo se resumia a duas palavras: “See something”. Julien d’Ys se lembra do pequeno gesto de mão que quase sempre acompanhava a indicação, “como uma bênção”. Penn não pedia uma expressão, mas uma presença. “Era preciso que ele conseguisse extrair algo precioso da pessoa que estava fotografando. As roupas vinham depois.” Julien d’Ys acredita que outra presença habitava secretamente o estúdio. “Acho que ele sempre procurava um pouco de Lisa nas modelos que fotografava.” Depois da morte da esposa, em 1992, o trabalho também se tornou uma maneira de continuar vivendo.

    Sua exigência chegava perto da obsessão. Algumas jornadas terminavam sem uma única fotografia. Toda a equipe achava que havia conseguido uma boa imagem, mas Irving Penn observava a modelo longamente antes de dizer simplesmente: “Não vejo nada”. A sessão terminava ali. Ele nunca fazia uma fotografia apenas porque ela era bonita. Essa exigência chegava também ao laboratório. Insatisfeito com a qualidade das reproduções impressas, o fotógrafo fazia seus próprios processos de impressão, aperfeiçoando especialmente a técnica de platina-paládio. “Todas as fotografias apresentadas na exposição foram impressas pelo próprio Irving Penn”, destaca Pascal Hoël. A profundidade dos pretos, a sutileza dos cinzas e a extraordinária reprodução das texturas dependem tanto do trabalho dele quanto do processo de impressão. No fim da vida, chegou a destruir imagens que considerava indignas de sobreviver a ele.

    As encomendas da Vogue levaram Irving Penn muito além dos estúdios nova-iorquinos. No Peru, em Papua-Nova Guiné ou no reino de Daomé, a revista lhe oferecia uma liberdade excepcional. Penn levava consigo alguns elementos de seu estúdio, como uma tela de fundo e uma luz controlada, mas, sobretudo, a mesma exigência na construção das imagens. A exposição revela, assim, como a moda foi o ponto de partida de uma obra que ultrapassou amplamente a costura e revela sua curiosidade por culturas, gestos e saberes.

    Poucos fotógrafos acompanharam tantas gerações de criadores. De Cristóbal Balenciaga a Yves Saint Laurent, de John Galliano a Nicolas Ghesquière ou Olivier Theyskens, Penn sabia reconhecer os talentos que marcavam seu tempo. Entre eles, Issey Miyake ocupa um lugar singular. Fascinado por suas roupas arquitetônicas, ele se tornou um de seus grandes intérpretes. Durante 13 anos, o estilista japonês enviava diretamente suas coleções para Nova York. As fotografias voltavam depois para o Japão, onde Ikkō Tanaka as transformava em pôsteres que se tornariam icônicos. “Miyake dizia que redescobria o próprio trabalho através das imagens de Irving Penn”, conta Pascal Hoël.

    Enquanto os anos 1980 e 1990 privilegiavam uma fotografia de moda mais espetacular, Penn parecia, por um momento, pertencer a outra época. Anna Wintour, no entanto, fazia questão de que a Vogue continuasse publicando seu trabalho. Ele assinou algumas de suas páginas de beleza mais ousadas: bocas transformadas em paisagens, cabelos moldados como esculturas, maquiagens futuristas, personagens estranhos nos quais o belo dialogava com o insólito. Essas experimentações, que hoje parecem de uma modernidade impressionante, lembram o quanto Irving Penn estava sempre olhando um pouco além de seu próprio tempo.

    Bee on Lips, New York, 1995 — Foto: Divulgação
    Bee on Lips, New York, 1995 — Foto: Divulgação

    No fim da vida, uma pequena cama foi instalada em um canto do estúdio. “Quando estava cansado, ele ia descansar por alguns minutos e depois voltava para continuar a sessão. Era muito emocionante”, conta Julien d’Ys. Antes de morrer, Penn lhe deu um pedaço do tecido usado como fundo desde os anos 1950. “Ainda tenho um pedaço no meu ateliê em Paris. Toda vez que olho para ele, penso em todos aqueles que posaram sobre aquele tecido.” Esse fragmento resume, sozinho, mais de meio século de história da fotografia.

    E qual é o tamanho da influência de Irving Penn? Ela continua enorme. Peter Lindbergh, Paolo Roversi e Guido Mocafico, que o citam como um “mestre”, levaram adiante, cada um à sua maneira, seu gosto pela depuração, pela luz e pelas texturas. Mas, como resume Pascal Hoël, “assim que alguém faz algo à la Penn, percebemos imediatamente”. Talvez seja esse o privilégio dos inventores: criar uma linguagem tão pessoal que ela se torna imediatamente reconhecível. Ao transformar as páginas da Vogue em um território de experimentação artística, Irving Penn não apenas transformou a fotografia de moda. Deu a ela uma profundidade e uma dimensão atemporal que continuam, ainda hoje, influenciando nosso olhar.

    Penn & Fashion, até 17 de janeiro de 2027, na Maison Européenne de la Photographie, 5/7, rue de Fourcy, Paris.



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