Por que tantas pessoas abandonam suas próprias concepções e passam a sustentar ideias do grupo, mesmo sabendo, em algum nível, o que é correto? Para além das análises políticas superficiais, a psicanálise freudiana e a história evolutiva oferecem uma chave de leitura. Freud descreve um operador psíquico central: o indivíduo enxerga a verdade dos fatos, mas decide ignorá-los na prática para se proteger.
Em minha leitura, entendo que essa dinâmica psíquica assenta suas raízes na antropologia da sobrevivência. Desde os primórdios, o ser humano estruturou a união coletiva como a mais eficaz estratégia contra a aniquilação — seja no combate a predadores, seja na defesa do território. Essa construção gravou no psiquismo o pertencimento como imperativo vital. Como o isolamento sempre representou a ameaça do desamparo, a preservação da vida e o abrigo no coletivo prevalecem implacavelmente sobre a autonomia do pensamento individual.
Nesse processo de adequação grupal, opera-se uma verdadeira “desconsideração do Eu” – um movimento no qual o sujeito silencia suas próprias percepções para submeter-se aos dogmas da tribo. O indivíduo passa a ter a necessidade premente de “acreditar”, ou de atuar como se acreditasse nas narrativas adotadas pelo grupo como requisito para assegurar seu acolhimento. Essa cessão não decorre de mera ignorância, mas do pavor ancestral do exílio e da rejeição social. A concordância transforma-se, portanto, na moeda de troca indispensável para garantir a proteção mútua herdada da nossa história evolutiva.
É na escolha política que esse desdobramento mostra sua face mais intrigante. A cisão do Eu permite ao indivíduo manter uma posição oculta de reconhecimento dos fatos, enquanto manifesta, no plano público, a adesão irrestrita ao discurso coletivo. Essa divisão afasta o risco da fratura dos vínculos dos quais sua segurança depende, permitindo-lhe professar a fé exigida sem romper com o ambiente que o acolhe. O campo político transforma-se em refúgio identitário e amortecedor contra as angústias da existência.
Essa vulnerabilidade ancestral e adaptativa do ser humano encontrou na comunicação digital contemporânea o seu maior amplificador. O marketing político percebeu que a escolha eleitoral responde ao desejo de pertencimento. Os algoritmos criam ambientes em que a cisão do Eu se torna quase imperceptível: A dissonância cognitiva é previamente filtrada e o questionamento individual é severamente punido com o cancelamento, confinando o sujeito a bolhas em que a dúvida se torna um risco.
Enfim, se a cisão do Eu protege o sujeito do desamparo, ela também cobra seu preço: o silenciamento da própria consciência. O equilíbrio existencial não é a eliminação da contradição, mas a possibilidade de habitá-la sem se render a ela. Essa oscilação entre pertencimento e autonomia, entre a proteção do grupo e a fidelidade a si mesmo, busca a medida justa para o sujeito continuar pensando sem se perder.
A escolha eleitoral torna-se, assim, o exercício da liberdade possível: aquela que acolhe a herança coletiva, mas ousa revisar. Se o grupo é condição de sobrevivência, não pode ser condenação ao silêncio — pois a política exige tanto o abrigo quanto a coragem de pensar. Quando chega a hora de votar, escolhemos aquilo em que realmente acreditamos ou aquilo de que precisamos para continuar pertencendo?









