Capa de fevereiro da Vogue e da GQ, Bad Bunny diz: "Sempre sonhei em visitar o Brasil"


O pôr do sol hoje não está dos melhores, mas a motorista da van que nos busca no aeroporto se recusa a deixar que essa seja nossa primeira impressão de Porto Rico. Então mostra fotos clicadas na praia, em dias oníricos: a água azul cristalina e o céu laranja intenso como protagonistas. Ainda indica lugares para ir, bebidas para provar e jeitos de aproveitar (de verdade, não como turistas) a região. O orgulho de sua terra cadenciando as sugestões. Quando pedimos para ouvir músicas porto-riquenhas de que ela gosta, nos oferece um leque de cantores de trap e reggaeton até decidir dar play no filho mais famoso da ilha: Benito Antonio Martínez Ocasio, ou Bad Bunny – “apenas” o artista mais ouvido do mundo. Ela não faz ideia, mas é por causa dele que estamos ali.
Dois dias depois, conhecemos o astro de 31 anos em uma praia deserta. A ventania de uma tormenta que se aproxima pelo sul só não é mais desconcertante que a timidez inicial do encontro. É Benito quem quebra o gelo ao dizer, com uma expressão de menino arteiro por trás dos inseparáveis óculos escuros, que sabe falar português – imediatamente volta atrás e admite que está brincando. “Não devia ter dito isso, é mentira, agora vocês vão querer que eu fale algo [risos]. Mas eu deveria aprender.”
Bad Bunny veste blazer, camisa, gravata, pareô e sapatos, tudo DRIES VAN NOTEN
Mar + Vin / Vogue Brasil
Esta é a primeira vez que um veículo brasileiro viaja a Porto Rico para uma reportagem com o artista, e a curiosidade dele sobre o nosso país escapa em interações ao longo dos três dias que passamos juntos. Quando nos encontramos em um restaurante, pontualmente às 10h, para tomar café da manhã e entrevistá-lo, ele se via munido do celular, pronto para anotar e pesquisar os lugares e comidas do Brasil que pipocaram durante o papo.
“O que vocês comem no café da manhã?”, quis saber. Cito bolos, frutas e pães, mas especialmente um belo pão de queijo. Ele recorre ao Google para entender do que se trata e, de repente, rompe em um grito seguido de sorrisos. Por meses, conta, ficou viciado no clássico mineiro servido em um restaurante brasileiro de Porto Rico. “Poderia comer uns 30 de uma vez.”
Bad Bunny usa blazer, calça e sapatos, tudo Luar, colar Crayone anéis Bvlgari
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Bad Bunny na edição de fevereiro de 2026 Vogue Brasil
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“Não sei por que, mas sempre sonhei em visitar o Brasil, desde criança. É um dos poucos lugares para onde ainda não viajei. Acho que tem a ver com a música, a cultura”, diz, citando a animação Rio, pela qual se apaixonou quando foi lançada em 2011.
O desejo finalmente se concretizará: em 20 e 21 deste mês, Bad Bunny desembarca em São Paulo com a turnê mundial “DeBí TiRaR MáS FOToS”. A princípio, a ideia era realizar só um show no Allianz Parque, mas a alta demanda levou à abertura de uma data extra no estádio. Mesmo com todo o sucesso do álbum homônimo, ele ainda não parece acreditar nisso. “Não esperava que fosse esgotar em minutos em lugares como o Brasil! É sério?! Dois shows no Brasil? Dois na Austrália? Fiquei emocionado”, comemora.
Bad Bunny veste blazer, camiseta, calça, sandália e anel, tudo VERSACE
Mar + Vin / Vogue Brasil
A afirmação é imbuída de uma humildade sincera, e por um segundo dá até para esquecer que este é um artista com uma carreira cravada em superlativos, descrito recentemente como “o maior do mundo” pela revista The New Yorker e como “a superestrela global cujo sucesso redesenhou o panorama da música pop em língua espanhola”, segundo o The New York Times. Ainda mais após o lançamento do disco, em janeiro de 2025, que lhe rendeu uma coleção de recordes e feitos inéditos.
Para citar alguns: trata-se do primeiro artista latino a ser indicado nas três principais categorias do Grammy (álbum, gravação e música do ano) e que ganhou o prêmio de álbum do ano, o primeiro latino com um show solo no intervalo do Super Bowl, programado para fevereiro, e ainda encerrou o ano passado destronando Taylor Swift como o mais ouvido do mundo no Spotify (marco que havia conquistado também em 2020, 2021 e 2022 – na segunda vez, inclusive, alcançou o topo sem sequer lançar um álbum novo).
Bad Bunny veste camisa, calça e tênis, tudo ADIDAS, pulseiras e anel BVLGARI
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“Em certo momento, pensei: creio que estou em um ponto de popularidade em que… Qual é o próximo passo? Ser mais famoso? Não sei, achei que deveria fazer algo lindo com essa popularidade”, analisa.
Benito é um “fanático por boas ideias, venha de quem vier”. Às vezes, quando vê outro artista criando algo inovador, se emociona. Chora. Mas, rindo, confessa que lá no fundo não se priva de sentir um pouquinho de inveja: “Droga! Queria ter pensado nisso antes!”. Na parte criativa, não há nada que saia em seu nome que ele não tenha decidido. “No começo de um novo trabalho, sempre penso nos looks, nas roupas. Penso no estilo, nas cores, nos visuais, como vai ser o marketing, de que maneira vamos anunciar as coisas. Só não penso em quanto vai custar [risos].”
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Quando chegou todo de terno Prada marrom no Met Gala de 2025, por exemplo, foi a escolha por um chapéu de palha em versão mais moderna que chamou a atenção. Benito já sabia que o tema “Superfine: Tailoring Black Style” seria terreno fértil para homenagear personagens centrais da identidade porto-riquenha: os jíbaros, trabalhadores rurais que usam o sombrero para se proteger do sol durante os exaustivos dias colhendo cana-de-açúcar. Ele já havia optado por uma versão mais clássica da peça para as fotos de divulgação do álbum mais recente; o modelo visto no evento de gala nasceu das mãos da designer porto-riquenha Neysha De León.
Hoje, quando se anda pelo centro de San Juan, capital de Porto Rico, as ruas se veem tomadas pelas mais variadas versões do chapéu: em desenhos nas paredes, em cartelas de adesivos, em miniaturas penduradas nas fachadas, de tamanho original para comprar em lojas de souvenirs, vestindo bichos de pelúcia…
“Nós seguimos sendo jíbaros. Os porto-riquenhos são pessoas que, durante toda a vida, se levantam para trabalhar e manter o país em pé, quando, no final, são outros de fora que se beneficiam desse trabalho. Foi parte do conceito do projeto resgatar essa estética como parte de nós. Creio que deveria ser mais reconhecido como parte da nossa história, para que não pensem que foi um momento que se perdeu no tempo”, reflete Benito.
Bad Bunny veste camisa, calça e anel, tudo GUCCI
Mar + Vin / Vogue Brasil
Como ele próprio diz, “com peças de roupa se pode homenagear”. E é exatamente isso que o astro vem fazendo desde o lançamento de “DeBí TiRaR MáS FOToS”. Seja em apresentações como a comemoração dos 50 anos do programa Saturday Night Live ou nos 31 shows de sua residência no Coliseu de Porto Rico, o El Choli, os fãs logo passaram a comentar o estilo do cantor: a combinação de óculos do tipo aviador com ternos semelhantes aos vestidos por ídolos da salsa do naipe de Héctor Lavoe, com suas golas pontudas dos anos 70. “Desde o início da minha carreira, me inspirei nesses artistas e sempre, de uma maneira ou de outra, tentei incluí-los em meus projetos. E a moda sempre foi uma ferramenta para isso”, explica.
Sobre seu gosto pessoal, Benito traz um histórico de roupas cintilantes, combinações malucas de estampas e acessórios para lá de ousados. Mas hoje o define apenas como “tranquilo, mais relaxado”. Eleito um dos mais bem-vestidos em 2025 pela Vogue norte-americana, ele afirma, no entanto, que seu estilo não mudou – o que mudou foi o jeito como se sente por dentro, e isso reflete no que gosta de usar. “Antes, usava coisas que eram mais loucas. Eu era mais jovem também [risos] e, dentro da minha cabeça, se passavam muitas coisas. Dá para notar que transmitia nas roupas um tipo de rebeldia, sempre buscando o que mostrar ao mundo. Estava me encontrando como ser humano”, conta.
Filho de um motorista de caminhão e de uma professora, Benito nasceu no município de Bayamón, mas foi criado em Vega Baja. É o mais velho de três irmãos e sempre se mostrou próximo dos tios e tias, avós e avôs (até hoje costuma passar horas jogando dominó com eles). Cresceu em uma casa onde se ouvia muita salsa, e assim começou a imitar os cantores. No coral da igreja, deu seus primeiros passos na música. Um menino muito tímido, mas que a todo tempo queria fazer as pessoas rirem. Alguém que, desde criança, gostava de viver dentro da própria imaginação. “Eu falava sozinho. Poderia pegar isso (segura o copo de água que está à sua frente) e imaginar que era algo. Brincava sozinho e, de repente, estava em outro planeta”, lembra.
Curiosamente, no entanto, cresceu com os pés bem fincados no chão. Quando lançou o primeiro single, o trap “Diles”, sob o nome de Bad Bunny (inspirado em uma foto antiga em que aparece vestido de coelho quando menino) no SoundCloud, Benito ainda trabalhava como empacotador e caixa de supermercado. Não queria largar o emprego sem sentir alguma segurança na arte. Antes de conseguir seu primeiro contrato musical, entregava currículos e tinha planos de voltar a estudar na Universidade de Porto Rico.
Bad Bunny veste blazer, camisa, gravata, calça e sapatos, tudo LOUIS VUITTON.
Mar + Vin / Vogue Brasil
No mesmo ano que lançou a primeira canção, faria também sua primeira apresentação no Festival Gastronômico de Vega Baja. Por coincidência, ou destino, quem sabe, a jornalista freelancer porto-riquenha Coraima Martínez estava lá e decidiu relatar em um blog de WordPress como foi o show. Um registro do início da popularidade de Bad Bunny entre os jovens da ilha e uma pitada do que viria pela frente para aquele rapaz de 20 anos: “Brilhou e não precisou de backing vocals no show, pois seus fãs o acompanharam cantarolando música por música”. Em 2026, completam-se dez anos desse momento.
“Eu estava estudando comunicação na universidade. Gostava muito de rádio, ainda gosto, na verdade. Por isso, sonhava em ter um programa. Agora estou no rádio, mas de outra forma”, diz Benito, com um sorriso tímido no rosto. *
Leia a parte 2 da reportagem na GQ Brasil
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