Há três décadas, o Brasil foi palco de uma tragédia aérea que marcou profundamente a história da aviação e a vida de centenas de famílias. Sandra Assali se despedia do marido, o cardiologista José Rahal Abu Assali, no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, antes de um voo da TAM com destino ao Rio de Janeiro. Apenas 24 segundos após a decolagem, em 31 de outubro de 1996, a aeronave Fokker 100 colidiu com três prédios e diversas residências na Rua Luís Orsini de Castro, a cerca de 2 quilômetros do aeroporto. O impacto resultou na morte de todas as 96 pessoas a bordo, além de três no solo, e desencadeou um incêndio de grandes proporções.
O Luto e a Memória Inabalável
Para Sandra Assali, a perda permanece viva, e ela enfatiza: “O luto é permanente”. A lembrança do momento em que deixou o marido no aeroporto e recebeu a confirmação da sua morte em apenas 40 minutos é indissociável. Manter a memória do acidente e as discussões sobre o tema é crucial para ela, pois é um motor para seguir em frente e ressaltar que “a vida não tem preço”, tornando o assunto eterno e necessário para o movimento pessoal e social.
A Criação da Abrapavaa e a Transformação da Assistência às Vítimas
O acidente redefiniu completamente a vida de Sandra e de outras famílias afetadas, que se viram desamparadas e obrigadas a assumir novos papéis em meio ao choque e ao sofrimento. Diante da ausência de apoio adequado por parte da companhia aérea na época, Sandra e outros familiares uniram-se para fundar a Associação Brasileira de Parentes e Amigos de Vítimas de Acidentes Aéreos (Abrapavaa), a primeira organização do tipo no Brasil, da qual Sandra é presidente.
A atuação da Abrapavaa foi um divisor de águas na aviação brasileira. Antes de 1996, as empresas aéreas não tinham a obrigação de fornecer assistência às famílias das vítimas. Através de intensa luta, a associação conseguiu estabelecer que as companhias fossem legalmente compelidas a garantir amparo e suporte aos familiares em casos de acidentes. Essa conquista alterou significativamente a forma de investigar acidentes, de lidar com indenizações e, crucialmente, de prestar assistência e reparação às famílias, marcando um “antes e um depois” para o setor.
Legado e Atuação Contínua
Desde sua criação em 1997, a Abrapavaa tem acompanhado mais de 300 acidentes aéreos e realizado uma série de congressos. Em um único ano, foram registrados 135 acidentes no Brasil, o que reforça, segundo Sandra, a necessidade contínua de mudanças e melhorias no setor de aviação para prevenir futuras tragédias.
As Causas do Acidente com o Fokker 100
A investigação do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) concluiu que a queda do Fokker 100 da TAM foi causada por uma falha no reversor da turbina direita, um freio aerodinâmico que se abriu indevidamente durante a decolagem. Essa falha, que funcionou como um acionamento de freio no momento em que a aeronave precisava de máxima aceleração e sustentação, era extremamente rara, estimada em uma chance em 100 bilhões. Os pilotos não haviam sido treinados para lidar com essa anomalia inesperada. O avião, desestabilizado, tombou para a direita, culminando no trágico impacto.






