Os recentes ataques dos Estados Unidos ao Irã reacenderam a tensão no Oriente Médio e colocaram o agronegócio brasileiro em estado de atenção. Ainda é cedo para medir a dimensão real do conflito e seus desdobramentos, mas os primeiros reflexos já aparecem nos mercados internacionais — especialmente petróleo, fertilizantes e comércio exterior.
Adriano Turco, analista de grãos da Agroconsult, avalia que o cenário ainda é de “areia movediça”, dependente da extensão e da profundidade que o confronto poderá atingir. No entanto, alguns impactos potenciais já estão no radar do setor.
Petróleo em alta e risco para o diesel
O primeiro efeito costuma ser imediato: a disparada do petróleo diante do aumento do risco geopolítico na região do Golfo Pérsico, rota estratégica para o comércio global de energia.
Com o barril em alta, cresce a preocupação com o diesel no Brasil — combustível essencial para o transporte de grãos e insumos. “Embora a Petrobras não siga automaticamente a paridade internacional, movimentos fortes e prolongados no mercado externo podem pressionar reajustes internos”, diz ele à CNN Brasil.
Diesel mais caro significa aumento no custo do frete rodoviário e marítimo, além de impacto direto na operação das máquinas agrícolas. “Em um setor de margens apertadas, qualquer elevação relevante nos custos logísticos tende a reduzir a competitividade”, acrescenta.
Fertilizantes: mercado sensível
Outro ponto crítico é o mercado de fertilizantes nitrogenados. O Irã é um produtor relevante de ureia, insumo estratégico para culturas como milho e trigo. A produção de nitrogenados depende fortemente de gás natural — insumo que também sofre influência direta de instabilidades geopolíticas. Quando o petróleo e o gás natural ficam mais caros, o custo de produção da ureia tende a subir.
Mesmo que o Brasil não seja um grande comprador direto do Irã por causa de sanções internacionais, o país é altamente dependente de fertilizantes importados. Assim, qualquer redução na oferta global ou aumento nos custos de energia pode elevar os preços internacionais e, consequentemente, o custo de produção no campo brasileiro.
O risco não é necessariamente de desabastecimento imediato, mas de encarecimento — o que poderia impactar decisões de plantio e margens da próxima safra.
Milho brasileiro pode sentir efeito
Do ponto de vista das exportações brasileiras, o Irã tem sido um destino importante para o milho, pagando prêmios competitivos em determinados momentos.
“Embora o Brasil não esteja atualmente na janelade embarques, um conflito prolongado pode afetar fluxos comerciais, contratos e logística internacional. Se houver interrupções ou restrições comerciais mais severas, exportadores brasileiros poderiam ser obrigados a redirecionar volumes para outros mercados, possivelmente com preços menos favoráveis”, afirma o analista à CNN.
No curto prazo, o impacto tende a ser limitado pelo calendário das safras. Mas, no médio prazo, uma escalada duradoura pode exigir reacomodação estratégica do comércio exterior brasileiro.
Fretes e seguros sob pressão
Além do combustível, o aumento do risco na região eleva o custo do seguro marítimo e os prêmios de risco das rotas internacionais. Isso encarece tanto a importação de insumos quanto a exportação de commodities.
Em um setor altamente integrado ao comércio global, essas variações podem alterar a formação de preços internos e a competitividade brasileira frente a outros grandes exportadores.
Balança comercial
O comércio entre Brasil e Irã chegou a US$ 3 bilhões no ano passado e representou apenas 0,84% das exportações brasileiras, segundo o Ministério da Indústria e Comércio Exterior, sendo que o milho foi responsável por US$ 1,9 bilhão dessas vendas (67,9% do total) e a soja, 19,3% (US$ 563 milhões). Também aparecem na pauta açúcares e produtos de confeitaria, farelos de soja para ração animal e derivados de petróleo, ainda que com participação menor.
https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/fernanda-magnotta/internacional/ao-menos-seis-fatores-levaram-trump-a-atacar-o-ira/
O Irã foi o quinto principal destino das exportações brasileiras no Oriente Médio, atrás de Emirados Árabes Unidos, Egito, Turquia e Arábia Saudita. No ranking global, ocupou a 31ª posição entre os parceiros comerciais do Brasil.
Do lado das importações, o fluxo é bem mais modesto. Em 2025, o Brasil comprou aproximadamente US$ 84 milhões em produtos iranianos. Fertilizantes e adubos representaram cerca de 79% do total, além de frutas secas como pistaches e uvas-passas.
https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/exercito-de-israel-divulga-video-de-ataques-no-ira-veja/









