O impasse nas negociações entre os Estados Unidos e o Irã para o fim do conflito no Oriente Médio tem uma explicação central, segundo Sandro Teixeira Moita, professor de Ciências Militares da Eceme (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército): os iranianos acreditam que já saíram vitoriosos do embate.
“A gente vê isso pelos analistas iranianos e pelas redes ligadas à Guarda Revolucionária. Os iranianos acreditam que venceram o conflito. Isso os motiva a prolongar ao máximo o processo de negociação com os Estados Unidos”, afirmou o professor em participação no WW desta segunda-feira (11).
Moita explica que, mantido o bloqueio imposto pelos Estados Unidos, estimativas apontam que o Irã teria entre seis meses e um ano de capacidade para suportar as pressões. Essa estratégia de prolongamento da negociação é recebida com crescente impaciência por parte americana.
Moita aponta que Trump acredita que conseguiu enfraquecer o Irã e devastar capacidades militares do país. Mas, segundo o professor, ele teria criado uma realidade com duas visões paradoxais.
“De um lado, o regime foi materialmente enfraquecido, mas, por outro lado, ideologicamente, ele conseguiu fortalecer muito o regime, porque o regime sobreviveu à batalha que sempre esperava que acontecesse, uma luta contra os Estados Unidos, e sobreviveu”.
O professor destaca que esse resultado acaba fornecendo ao regime a “munição ideológica” necessária para se manter em um momento crítico.
Irã reivindica soberania sobre o Estreito de Ormuz
Além do impasse diplomático, Moita chama a atenção para um novo elemento de tensão que emergiu nos últimos dias. Oficiais e canais ligados à Guarda Revolucionária iraniana passaram a afirmar que o Irã teria soberania sobre o solo submarino do Estreito de Ormuz.
Por esse trecho passam todos os cabos de internet que abastecem o Iraque, o Kuwait, o Catar, o Bahrein, parte dos Emirados Árabes e alguns cabos relevantes para a Arábia Saudita. Segundo o professor, há até menções à possibilidade de o Irã cobrar taxas pela utilização desse espaço submarino.
Para Moita, o conflito está em um processo de escalada que ele compara a um “fogo lento”, que está acelerando apesar de não parecer. Os enfrentamentos da última semana seriam prova dessa escalada.
“Não é possível descartar, nesse momento, que não tenhamos novos enfrentamentos nessa semana, uma vez que Trump se encontra impaciente e a Guarda vê com esperança a renovação das hostilidades, porque pode forçar uma humilhação ainda maior dos Estados Unidos”, conclui Moita.









